A aula 100

A aula 100

Março 13, 2021 0 Por Francisco Ramalheira
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Quando passei para o 5º ano, achava tremendamente parvo aquele ritual de escrever o sumário e numerar as aulas. Parecia-me uma perda irreparável de tempo que ninguém me iria devolver.

Até que, sensivelmente no último terço do ano, percebi o porquê de se numerar o número de horas que naquele ano já tínhamos aturado determinado professor. Essa razão era para sabermos quando chegávamos à tão esperada aula 100.

E o que é que a centésima lição tinha de tão especial?

O povo tuga sempre foi um ilustre apreciador de farra.

É uma das nossas adoráveis minudências. Por isso, somos doutorados em arranjar motivos de festejo em qualquer ocasião. Obviamente que esta riqueza cultural tinha de chegar até ao mundo escolar.

Assim, manda a tradição que na lição 100 deve haver uma pequena festarola na sala de aula. No final da lição número 99 os alunos combinavam o que é que cada um iria trazer de casa e, no tão esperado dia, as mesas não serviam para pousar caderno, lápis ou borrachas, mas sim para colocar os bolos e sumos que os petizes traziam de casa. E sim, enfardar viveres repletos de açúcar era, por si só, motivo mais do que suficiente para celebrar com estardalhaço o dom da vida, mas aquilo que verdadeiramente nos comovia era o facto de que, naquela aula, não era dada matéria, não havia revisões nem tampouco eram marcados os infames TPCs.

Só de pensar nisso até já estou todo arrepiado. Bons tempos.

A aula 100 era, por isso, um oásis distante, graças ao qual conseguíamos sobreviver aquelas duas horas seguidas de Matemática, numa segunda-feira às oito da manhã. Era naquelas manhãs gélidas de inverno em que nos sentávamos cabisbaixos na nossa cadeira e ouvíamos a voz ensonada da professora dizer:

“Lição número 70: decomposição decimal de números racionais representados por dízimas finitas, utilizando potências de base 10 e expoente inteiro”.

E nós só não chorávamos porque sabíamos que só faltavam mais 29 aulas para a lição 100. Obrigado lição 100!

Os professores sádicos

E se a grande maioria dos professores aderia a esta bonita iniciativa, também tive alguns desmancha-prazeres que diziam, e cito, “as aulas 100 são iguais a todas as outras”.

E davam a sua infame aula como se nada de especial se passasse nesse dia.

Nestas alturas, eu sentia que o dito professor arrancava o meu coração do peito, saltando-lhe em cima enquanto ele definhava no chão, todo ensanguentado. Bonita imagem.

Como é possível gente desta laia estar no ensino? Como é possível deixar indivíduos com esta falta de empatia ensinar crianças puras e inocentes? É um atentado às tradições do ensino português! O tuga gosta de festas! Festeja tudo! Há aqueles senhores que vão sempre para a rua após uma eleição, ganhe o PS ou o PSD. Estes senhores querem é bailar e abanar uma bandeirinha. Estão-se marinbando para que partido venceu.

Até o mais irrascível dos facínoras não teria coragem de cometer tamanha atrocidade. Adolf Hitler festejava sempre a centésima lição, por exemplo. Aprendi isto numa lição 100 de História.

A aula 100: uma festa merecida

Esta recusa de alguns docentes em deixar os seus alunos festejarem tão bonita ocasião era acentuado pela tremenda injustiça desta funesta decisão. Em causa está apenas uma simples e singela borla. Apenas e só isto. E, ainda por cima, uma borla que é enormemente merecida, quer para o aluno, quer para o professor. A comemoração da aula 100 é uma espécie de bodas de ouro do ensino. Aquele adulto é um herói: passou longas e muitas vezes penosas 100 (!) horas na companhia de jovens adolescentes irrequietos, barulhentos e, amiúde, sem grande vontade de aprender as nobres matérias que lhes estão a ser ministradas.

Por outro lado, os alunos passam 100 (!) horas na companhia de um adulto enfadonho, amiúde com um tom de voz monocórdico e com efeitos soporíferos (principalmente na primeira aula da manhã), tendo de simular que achou piada às graçolas desprovidas de humor que o professor os presenteia ao longo das lições.

Estes heróis não merecem um descanso após tanto tempo de convivência? Não merecem estreitar laços fora do clima opressor da sala de aula?

Que este texto sirva para sensibilizar os professores, diretores de turma e responsáveis pedagógicos por todo este Portugal. Nunca mais a importância de uma aula 100 será olvidada! Aliás…

A proposta do ( e de) Caca

…proponho que se vá mais longe. Cem lições é muita fruta e apenas é alcançável naquelas disciplinas com maior carga horaria, como Português ou Matemática. Porque razão não pode a Educação Musical ou a Geografia ter direito ao mesmo tratamento?

E se festejássemos de 50 em 50 lições para não haver esta abominável descriminação de disciplinas? Ou de 10 em 10! Ou…

Os vários tipos de convivas na lição 100

Em todos os festejos dignos de uma lição centenária é necessário que os alunos da turma garantam que certos e determinados cargos serão ocupados, de forma a que a festa seja digna desse nome.

Sem eles, os festejos da lição 100 seriam uma coisinha mixuruca e sem graça.

Por isso, e em jeito de conclusão, ficam aqui listados os mais importantes cargos para tão importante evento, ficando desde já o meu agradecimento público a todos os meus amigos e amigas que, ao longo dos anos ocuparam com profissionalismo e abnegação os referidos cargos, dignos de constar em qualquer Curriculum Vitae digno desse nome:

  • O político

Esta é a pessoa que promete que vai trazer tudo e mais alguma coisa para a festa. É sumos, é bolo de chocolate da avó, é uma bola de futebol nova, é uma televisão portátil para jogar PlayStation, é uma banheira de hidromassagens… Este individuo abraça o popularismo com os dois braços, aninhando-se no seu manto protetor

E, no dia da festa, brinda os seus colegas com um grande monte de nada. Não traz nada. Não se lembra de nada. E aí de quem o relembre das suas promessas! Pois este sujeito é capaz de as refutar com um “não disse isso bem assim” ou “as minhas palavras foram mal interpretadas” ou, em casos de maior astúcia e cara-podre, nega veementemente qualquer promessa feita, exibindo o semblante mais angelical da História enquanto diz “Quem disse isso? Eu? Deves estar enganado”.

Este costuma ser o que mais come na festa. Embora seja o único que não trouxe comida

  • A avó

Esta personagem é aquela que garante que na festa todos vão enfardar como deve ser. A sua missão começa bem antes da festa começar, garantindo que todos trazem alguma coisa e que vai haver comida que chegue.

É da sua responsabilidade garantir que não há restos, enfiando batatas fritas já moles e restos daquele bolo de cenoura que ninguém gosta pela garganta abaixo dos colegas.

  • A bibliotecária

O braço-direito do professor. A sua missão é ajudar o pobre docente a calar os convivas mais entusiasmados pois há aulas a decorrer nas salas ao lado. Por norma, a bibliotecária passa as festividades e dizer “Pst, fala baixo!”. Este é um cargo muitas vezes acumulado com o de delegado de turma. Não sei porque.

  • O humorista

Este é o colega bem intencionado que abraça a missão de divertir os seus pares, trazendo para a festa uma vasta panóplia de piadolas que compilou de propósito para aquela ocasião. Até aqui tudo bem, é uma atitude louvável e de extrema importância em qualquer festividade.

O problema é que, por vezes, o clima de proximidade que o calor da festa nos traz, faz com que o humorista deixe de saber selecionar sabiamente o seu público e vá longe de mais, entrando no campo de minas que é partilhar aquelas piadas adolescentes com… o professor.

E eu já vi de tudo. Desde o professor que se riu tanto que quase lhe saltou um M&M pelo nariz, como aquele que olhou para o seu aluno com a comiseração de quem tem a certeza de que aquela é mais uma geração perdida.

  • O DJ

O responsável pela música.

É sobre os seus ombros que recai a responsabilidade de haver um “bom som” na festa. É ele, portanto, que traz para a escola a aparelhagem mais ou menos portátil que, quando a festa começa, se percebe que, afinal, não funciona. É também da sua responsabilidade a seleção da playlist do certame, que incluía, invariavelmente, uma compilação de música do Fido.

Festa de lição 100 sem um Cd destes era como se não existisse.

Com um professor mais permissivo a coisa poderia mesmo escalar até a uma Macarena ou, numa lição 100 particularmente festejada de Português, o hit mundial “Dragostea Din Tei” dos, felizmente, já extintos O-Zone.

A música é tão bonita que não resisto a deixar aqui o início da letra. Tentem não se comoverem:

Ma-i-a hi
Ma-i-a hu
Ma-i-a ho
Ma-i-a ha-ha
Ma-i-a hi
Ma-i-a hu
Ma-i-a ho
Ma-i-a ha-ha
Ma-i-a hi
Ma-i-a hu
Ma-i-a ho
Ma-i-a ha-ha
Ma-i-a hi
Ma-i-a hu
Ma-i-a ho
Ma-i-a ha-há

Já não se faz música desta… E, por isso, ficamos todos mais felizes.