Vitinho

Vitinho

Fevereiro 6, 2021 0 Por Francisco Ramalheira
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Há bons bebés e há maus bebés.

Numa fase da nossa vida em que a nossa personalidade ainda não pode ser aferida pelas nossas ações, o estatuto de “bom” ou “mau” é, por isso, conferido pelo trabalho que damos. Seguindo esta lógica infalível, os maus bebés são aqueles que levam os progenitores a querer pôr termo à sua vida.
E isto geralmente acontece quando a privação e sono atinge níveis estratosféricos. Ao menos no Além seriam capazes de conseguir umas horas de sono.

E, ao que parece, este que se assina era um bebé que… não apreciava particularmente praticar a nobre arte da sesta. Desculpa, mãe. Mil perdões, pai.

Daí que, para mim, o Vitinho nunca tenha sido sinónimo de ida para a cama. Para mim ver o Vitinho significava que o serão tinha chegado a meio e que, a partir daí, teria de entrar em negociações com a minha entidade parental, de forma a retardar o máximo possível a ida para o vale dos lençóis.
Quando era pequeno acreditava piamente na doutrina de que dormir era uma completa perda de tempo. Afinal de contas, havia tanta coisa para fazer e tanto para brincar, que passar horas inerte e de olhos fechados parecia-me um desperdício. Lembro-me de os meus colegas de escola dizerem que iam para a cama depois de ouvirem o Vitinho e eu ter genuína pena deles. E os meus pais teriam, certamente, genuína inveja dos pais deles.

Mas o que era o Vitinho?

O Vitinho é um jovem campónio, de jardineiras e chapéu de palha, que ganhava a vida como mascote das papas Miluvit, uma mistela sem cor que terá feito sucesso nos anos 80 e que, quando a provei, anos mais tarde, fez-me agradecer por ser uma criança dos anos 90. O Vitinho foi de tal forma competente na arte de vender papa sensaborona, que a RTP resolveu apostar nele para a sempre complicada tarefa de mandar a criançada para a caminha, quando acabava o telejornal.

E aqui começou o estrelato daquele que, em 2021, já deverá ser tratado como senhor Vítor.

E como é que o Vitinho metia os putos na cama?

O amável campónio não adotava um discurso imperativo ou um tom autoritário na hora de fazer óó. Na verdade, o Vitinho demonstrou toda a sapiência e sensibilidade, sabendo perfeitamente qual era a melhor forma de chegar ao coração dos seus semelhantes. E a melhor maneira de meter os putos no choco era, indubitavelmente, cantando lindas melodias de embalar.

Mas essas melodias não eram apresentadas à pequenada num qualquer videoclip rasca, mas sim através de uma animação extraordinariamente bem feita para a época sendo, ainda hoje, mais de trinta anos depois, perfeitamente agradável. Qualquer uma das versões de Vitinho é excelente, quer do ponto de vista musical, quer técnico e ao olhar, em 2021, para a qualidade das animações é difícil não constatarmos que em Portugal também há animadores com qualidade mais do que suficiente para fazer bonitas longas-metragens animadas.

Não há é dinheiro.

Ser artista em Portugal é tramado. Só há dinheiro para aquelas coisas mesmo importantes, como salvar bancos ou companhias aéreas barbaramente mal geridas durante anos a fio. Temos sempre as prioridades bem definidas.

Mas voltando ao Vitinho, a minha versão era a quarta e última, aquela que pontificou na programação da RTP entre 1992 e 1997 e era cantada por um tal de Paulo de Carvalho. No entanto, também me lembro da primeira versão também passar de vez em quando, pelo que são as “minhas” versões do Vitinho. As tais que ouvia religiosamente todos os dias para depois… ir brincar.

E depois de Vitinho?

Quando Vitinho arrumou as jardineiras e se retirou do mundo duro e cruel das canções de ninar, criou-se um enorme vácuo no espectro televisivo nacional. Quer queiramos, quer não, Vitinho era a autoridade nacional no que a ir para a cama dizia respeito, pelo que os pais e mãe de todo o Portugal sentiram enormes dificuldades para convencerem os seres que trouxeram ao mundo a irem para a cama sem a inestimável ajuda de Vitinho.

Algum tempo depois, lá apareceram “Os Patinhos”, uma animação com animais de fofa plumagem que ao som da cançoneta infantil “todos os patinhos” dizia que era hora de dormir. Admito que possa achar isto por, na altura em que “Os Patinhos” chegaram, eu já tinha uns sólidos nove anos (era, portanto, um homem), pelo que não lhes achei a mesma piada. Eram giros e tal, mas não chamuscavam o carisma do Vitinho.

O Vitinho no novo milénio

A popularidade do jovem camponês é de tal ordem que, mesmo após a RTP, numa decisão bárbara e incompreensível, ter reformado Vitinho, o boneco não desapareceu do nosso imaginário coletivo.

De tal forma que, recentemente, foram lançados um Cd com os principais êxitos do jovem campónio e uma coleção de livros infantis, que já tive o prazer de folhear e, devo dizer, que tem a mesma mística do formato televisivo, na medida em que fiquei com soninho ao lê-los. Mas também, verdade que seja dita, que depois dos trinta o sono já faz parte da nossa existência, entranhando-se na nossa pele e músculos para não mais sair., manifestando-se de forma tão natural como o respirar.

Pessoalmente sigo uma velha máxima “se dá para sentar, dá para dormitar”. Esta habilidade de dormir nos locais mais inóspitos é um Dom que tenho vindo a desenvolver nos últimos anos, tendo já me proporcionado um ou outro embaraço. Por isso é que gosto de dar aulas de pé. Desde aquela aula, às 8h15, em que estava sentadinho e dei por mim a embalar ao ritmo da minha própria voz, enquanto na minha ecoava a melodia icónica do Vitinho: “está na hora da caminha”.

Todos os momentos televisivos do Vitinho.

E hoje, em memória do Vitinho, vou agora fazer uma sestinha. Obrigado por tudo, senhor Vítor!