O Zé vai às compras para a consoada

O Zé vai às compras para a consoada

Dezembro 23, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Naquela fria manhã de inverno, o Zé fora obrigado a aceitar uma missão suicida, para a qual não tinha sido devidamente notificado aquando o seu alistamento no pelotão do matrimónio.

           Na noite anterior, recorrendo à sua voz dengosa e melódica, Maria, a excelentíssima esposa do Zé, solicitou a ida do seu extremoso marido até ao estabelecimento comercial mais próximo da sua zona de residência, com o intuito de adquirir uma insana quantidade de víveres para a noite da consoada. No entanto, após tantos anos de matrimónio, o timbre adocicado da voz de Maria já não tinha qualquer efeito no Zé, pelo que teve início uma enorme e criativa troca de argumentos, na qual o Zé declamou os mais variados tipos de desculpas em que tentava justificar a razão pela qual, com muita pena sua, não poderia, no dia seguinte, ir às compras. O desespero era tanto que o Zé até evocou razões de ordem desportiva.

            “É que eu tinha combinado ir amanhã correr com o Toni”, dizia o pançudo, sabendo Maria perfeitamente que na última vez que o seu marido fizera desporto as contas ainda se pagavam em escudos.

           E foi então que a Maria abandonou o tom de voz dengoso e adotou o autoritário. No entanto, após tantos anos de matrimónio, o timbre autoritário de Maria já não tinha qualquer efeito no Zé. Pelo menos, era isto que ele gostava de pensar. Pois a verdade é que, no dia seguinte, antes de o relógio dar as nove badaladas, já o Zé estava de pé, ao frio e com a sua máscara no rosto, numa fila com uma dúzia de pessoas, aguardando que as portas daquela loja que começa com “Pingo” e acaba em “Doce” (para efeitos de proteção de dados, não revelarei o nome completo da loja) abrissem.

           Olhando de soslaio para trás, o Zé vislumbrou atrás de si já se espraiava uma fila ridiculamente comprida, bendizendo a capacidade de antecipação de sua esposa que o obrigara a ir mais cedo, evocando a sábia mensagem de que “se vais tarde, vais ficar horas na bicha!”. Não sendo um grande fã de bichas, o Zé estava muito agradecido à sua querida Maria por o ter obrigado a desalapar o rabo gordo um pouco mais cedo da cama. Estava ainda a agradecer mentalmente à esposa, quando um segurança anafado e de bigode farfalhudo abriu a porta do bonito estabelecimento comercial, dizendo às pessoas para, uma a uma, avançarem rumo ao interior.

            Estava o Zé a preparar-se para entrar quando o destino se intrometeu naquele momento consumista. De repente, uma leve e gélida aragem acariciou o rosto do nosso amigo, rosto esse que deveria estar tapado pela máscara, esse item essencial na sociedade atual.

           Sabendo que tinha trazido a máscara, o Zé levou imediatamente a mão à cara para aferir o que se passara, constatando, com horror, que um dos elásticos que lhe prendiam o infame objeto ao orelhame peludo se tinha rompido. Com uma avidez desesperada, o Zé procurou furiosamente em todos os seus bolsos por outra máscara em condições, embora soubesse perfeitamente que não a tinha. Revirou-os e abanou-os com veemência, mas no interior daqueles bolsos estava todo o tipo de objetos, exceto uma máscara. Rendeu-se às evidências quando o segurança anafado e de bigode farfalhudo o interpelou:

            — Senhor, se não tem uma máscara em condições não poderá entrar.

            O Zé sentiu uma dor semelhante àquela que sentiria se lhe tivessem dado uma naifada nas nalgas.  

            — P-por favor ­— gaguejou, de forma titubeante —, tenha piedade. Não tem aí nenhuma máscara que me possa dispensar? É que se eu volto para trás para ir buscar outra, terei de ir para o fim da fila… O que significa que só vou conseguir entrar lá para 2023.

            — Lamento, senhor. Regras são regras — retorquiu o cada vez menos amável segurança, enquanto indicava à pessoa atrás do Zé que podia entrar.

           Sentindo os olhos a ficarem marejados de lágrimas, o Zé rodou sobre os calcanhares, virando costas ao estabelecimento comercial e começando a andar em direção ao carro. Enquanto destroçava, sentiu o calor de vários dos seus companheiros de armas, que fizeram questão de lhe deixar palavras de conforto naquele momento tão delicado, procurando dar-lhe alento para o que aí vinha.

            “Melhores dias virão, meu querido”, dizia uma idosa, de sorriso afável.

            “Depois da tempestade vem a bonança”, exclamava um velho, amante de provérbios. Em todas as situações há sempre um decano a declamar um provérbio que se adeque ao momento. Se não conhecem nenhum é porque se calhar são vocês.

            “Saí da frente, ó gordo!”, diziam outros.

            E o gordo saiu, locomovendo-se o mais depressa que as suas pernas rechonchudas conseguiam até ao local onde estacionara o seu calhambeque. Quando lá chegou, macambuzio, enfiou as mãos sapudas pelos bolsos adentro, revirando-os para tirar as chaves do carro.

            Mas, tal como acontecera minutos antes com a máscara, não havia meio de encontrar a chave no carro no meio da quantidade de traquitanas que povoavam o interior do bolso do Zé.

            Será que a deixei em casa?, perguntou-se o Zé, parvamente, pois se tinha trazido o carro até ali era porque tinha trazido a chave. E foi então que a realidade lhe deu uma violenta chapada com as costas da mão, fazendo-o tombar de dor e lacrimejar pela injustiça que era a sua vida. Na sua mente, era revisitado o momento em que revistara freneticamente os seus bolsos , em buscar de uma máscara que sabia não existir. Fora aí, certamente, que as chaves da sua velha viatura saíram dos bolsos, caindo poeticamente no chão.

            Sentindo que o dia de calma e relaxe que tanto ansiava e precisava lhe escapava por entre os dedos, o Zé correu desalmadamente para a entrada do estabelecimento comercial, ignorando olimpicamente os comentários dos transeuntes que o mandavam para o fim da fila e que o injuriavam. Injurias essas que, na sua plenitude, se referiam ao seu estado paquidérmico.

           Chegando a bufar e a suar profusamente ao início da fila, o Zé perscrutou avidamente as imediações, na ânsia de encontrar rapidamente o porta-chaves do Benfica no qual estavam as chaves do seu Renault Clio do século XX. E foi então que, os seus olhos cansados encontraram um molho de chaves, já pisadas e enlameadas, perto da entrada. Com lágrimas nos olhos, o Zé precipitou-se para o chão, tropeçando desastradamente nos próprios pés, derrubando o segurança anafado e de bigode farfalhudo que lhe impedira a entrada.

            Foi uma queda muito bonita.

Zé e segurança fundiram-se num só, numa simbiose perfeita que criou uma enorme bola anafada que se estatelou ao comprido nas lajes húmidas e enlameadas do passeio. Muitas vezes, quando estamos tristes e acabrunhados, uma boa dose de humor físico é o melhor remédio. Por isso, a fila cada vez mais longa de pessoas que queriam fazer compras teve o privilégio de testemunhar, em direto, uma das mais bonitas quedas que viram em toda a sua vida.

           Esfolado e com o orgulho ferido, o Zé desculpou-se enquanto se punha de pé — recebendo como resposta do segurança a sugestão de que fosse receber amor de índole anal — preparando-se para coxear até ao seu carro, quando uma simpática velhinha o interpelou. A primeira coisa que o Zé reparou na sorridente decana era uma verruga peluda que lhe adornava o nariz. Era a verruga com mais pilosidades que o Zé tinha alguma vez visto.

            — Está a ter uma manhã difícil, meu jovem?

            Sentindo naquela senhora o calor aconchegante de uma avó, o Zé assentiu, fazendo beicinho.

            — Falta-lhe a máscara para entrar, não é? Não se preocupe, fique com uma das minhas!

            Enquanto a velhota vasculhava a sua vasta carteira, o Zé sentiu uma vontade de a abraçar e encher de xoxos, mas teve de se conter, devido à pandemia. Quando a sua salvadora tirou a máscara da mala, a vontade que o Zé tinha de a oscular diminuiu ligeiramente. Afinal de contas, a máscara era daquele rosa choque berrante, capaz de achincalhar a masculinidade de qualquer um. Na mente do Zé, foi feita uma rápida análise de custo/beneficio, mas como a outra opção implicava voltar ao carro, o Zé mandou o sentido estético às malvas, aceitando, com gratidão, a máscara que os dedos trémulos e nodosos da idosa lhe endereçavam.

            — Mas tem de ir na mesma para o final da fila! — rosnou o segurança anafado, ainda a massajar o joelho esfolado pela queda.

           Resignado com o seu destino, o Zé voltou a agradecer à sua nova amiga, começando a deslocar-se até ao final da fila. No entanto, com o passar dos minutos, a fila foi crescendo exponencialmente com o aparecimento de cada vez mais gente, pelo que quando o Zé chegou ao final da fila constatou, resignado, que estava a dois passos do sítio onde estava o seu carro. Por um segundo ainda pensou em ir até ao carro para ir buscar uma máscara ligeiramente mais máscula e viril, mas já estava tão cansado que optou manter-se na fila, com a sua bonita máscara rosa choque, de tecido fofinho e com purpurinas.

            Com um suspiro que se ouviu a quilómetros de distância, o Zé abraçou o seu destino, enxugou as lágrimas e ligou para sua querida esposa, para avisar que iria chegar atrasado.

*

            Três horas depois, o Zé entrou finalmente no tão ansiado estabelecimento comercial e mal entrou pela porta adentro ouviu os primeiros acordes do “All I Want for Christmas is You”, da xodona Mariah Carrey, a música de natal que o nosso amigo mais abominava. Fazendo ouvidos moucos à irritante cantilena, o Zé entrou pelo supermercado adentro, decidido a despachar-se rapidamente, de forma a poder voltar a alapar o seu ocioso traseiro no sofá.

            Mas os deuses das compras de natal não estavam com ele. O supermercado estava completamente apinhado, tendo claramente mais gente do que seria seguro. Para onde quer que olhasse, o Zé só via gente e mais gente, inclusive famílias inteiras que acharam que o melhor sítio para passear em família num momento de pandemia era o interior de um centro comercial. Cada um tem os seus destinos de sonho para os seus momentos de ociosidade.

Ao observar as maravilhas que o rodeavam, o Zé não pôde deixar de constatar que no interior daquele Pingo haviam vários tipos de consumidores. Todos eles igualmente irritantes.

Uns eram claramente turistas, contemplando platonicamente as mais diversas prateleiras, repletas dos mais variados tipos de víveres, como se de uma obra de arte se tratasse. O Zé passou mesmo por um senhor de meia idade que contemplava maravilhado os enlatados como se estivesse diante de uma Mona Lisa. No entanto, o Zé não pôde deixar de concordar que eram umas latas de feijão e de salsichas muito bonitas.

Outros transformaram o supermercado num animado fórum de debate. Numa era em que o bom senso indicaria que uma ida às compras deve ser rápida e eficiente, uma vasta panóplia de indivíduos — a maioria já com uma idade avançada — ficavam especados no meio dos corredores a fazer comentários argutos e sagazes sobre assuntos tão importantes e fraturantes para a nossa sociedade, tais como: as capas das revistas cor-de-rosa, a mais recente polémica do Big Brother, as promiscuidades da filha da vizinha do 3ºB, as novidades mórbidas do último funeral de um famoso que a CM TV fez questão de acompanhar ao minuto ou espalhar as mais variadas fake news sobre o Coronavírus. Uma senhora de meia idade proclamava, orgulhosamente, que se ia recusar a tomar a vacina, “porque viu na internet que a vacina estimulava o crescimento do buço”. Ainda bem que existem este tipo de estabelecimento comerciais, onde os grandes pensadores do nosso tempo se podem juntar para debitar pérolas da poesia contemporânea.

Por fim, o Zé encontrava os artistas, sendo possível encontrar dois tipos: os do circo Chen e os malabaristas da máscara. Os primeiros eram os indivíduos dotados de uma agilidade circense, que rodopiavam pelos corredores exíguos, evitando tocar qualquer molécula do seu corpo com o resto do povo. O Zé não pôde deixar de se comover com o bonito bailado que via em alguns corredores. Principalmente com a senhora avantajada que ao desviar-se de uma criança desgovernada escorregou numa parte molhada do piso, ficando meia hora a balançar no corredor dos congelados. Já os malabaristas da máscara gostavam de se bambolear pelos corredores, pondo e tirando a máscara da tromba, como se de um vulgar adereço de moda se tratasse. O Zé nutria particular afeição pelas pessoas que baixavam a máscara para falar com os outros. De destacar o individuo tremendamente suado, de manga cava e com frondosa pilosidade no peito que o Zé encontrou na fila no talho, que achou que seria uma excelente iniciativa retirar a máscara da venta para poder espirrar, limpando depois o nariz repleto de mucosidade no braço peludo. O Zé teve vontade de aplaudir a cidadania e civismo deste seu conterrâneo.

Depois de duas horas dentro daquele bloco de betão, o Zé já estava com vontade de entregar a alma ao Criador.

Quando colocou, finalmente, o último item da lista no carrinho, ouviu um “Aleluia” celestial a ecoar na sua cabeça, precipitando-se rapidamente até à caixa que lhe pareceu ter menos fila. E mesmo essa era tão grande que chegava aos corredores do supermercado.

            Ao menos não passo frio!, constatava, com agrado, ao sentir na nuca o bafo quente de um velho que não sabia cumprir as distâncias sociais. O Zé teve a sorte de ter atrás de si uma daquelas pessoas que gostam de sentir calor humano, pelo que sempre que o Zé dava um passo, o velhote dava dois.

            — Importa-se de se afastar um pouco? — Questionou o Zé, com educação e elevação, quando sentiu a bengala do decano enfiar-se pelo seu rabo adentro.

            — Não seja mariquinhas, meu jovem. Isto do Covid é tudo uma grande palhaçada para os Governos nos poderem controlar! E eu estive na guerra, a mim não há bicho que me afete.

            O Zé teve vontade de tirar uma foto ao patusco senhor. Não é tudo os dias que se encontra uma ave rara. Afastando-se o mais possível do velhote teoricamente imune ao Covid, o Zé aguardou pacientemente pela sua vez para pagar as compras. Foi só uma horita de espera. Atrás de si, o velhote campeão continuou a aproximar-se, abandonando este comportamento de risco apenas quando o Zé, propositadamente, soltou uma flatulência fétida que, embora moralmente reprovável, concedeu-lhe a distância de segurança que tanto desejava.

            Quando finalmente chegou a sua vez, o Zé rejubilou de alegria, vendo a simpática senhora da caixa a passar as suas compras pela maquineta — assustando-se apenas quando viu o valor que iria ter de desembolsar —, pondo a mão no bolso para tirar a carteira para proceder ao pagamento.

            E foi então que sentiu a boca secar, as pernas perderem a força e uma poça de suor a escorrer-lhe pelas costas abaixo. Naquele momento o Zé sentiu que a sua vida acabara de perder todo o sentido. Nada mais valia a pena.

            Vendo que o cliente ficou mais branco do que a cal, a simpática senhora da caixa perguntou:

            — Está tudo bem, senhor?

            Não. Não estava.

            O Zé não tinha deixado apenas a máscara no carro.