Rua Sésamo

Rua Sésamo

Novembro 13, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Desafio do dia: ver este vídeo e não ficar a cantarolar a música o resto do dia

Diz o célebre ditado popular — inventado pela minha pessoa — que quem não viu a Rua Sésamo não teve uma infância digna desse nome.

Esta afirmação pode parecer exagerada, mas a verdade é que o Popas, o Egas e o Becas, o Monstro das Bolachas e o resto da malta são uma verdadeira instituição da História da televisão, sendo os responsáveis por, no final dos anos 60, mostrar às hordas de velhos do restelo, que, ao longo dos anos, teimam em pôr nas novas tecnologias todos os problemas da sociedade — principalmente aqueles que as suas vistas curtas não lhes permitem compreender —, demonstrando assim que a televisão não tinha de, necessariamente, ser um forma de estupidificar pobres e inocentes crianças mas que, nas mãos certas e com objetivos mais nobres do que simplesmente acumular cifrões, era possível criar conteúdo didático, interessante e… capaz de tornar a aprendizagem divertida. Quem diria?

O nascimento da Rua mais importante da televisão

Rua Sésamo é a versão portuguesa do programa infantil norte-americano denominado por “Sesame Street”, criado no final dos anos 60 e montado para as crianças em idade pré-escolar, mas cuja fruição não se esgotava nelas, e que fundia educação e entretenimento com mestria, elevando os padrões de qualidade e criatividade deste tipo de produto televisivo para um nível que não mais foi visto.

Assim, o ensino do alfabeto ou da contagem dos primeiros números era temperada com humor e alegria, num programa que promovia abertamente os valores de igualdade, partilha e fraternidade, entre crianças de todas as cores, credos e extratos sociais. E isto é ainda mais importante do que o alfabeto e os números.

Daí defender que sempre que um político ou outra personalidade pública faz um discurso ou emite um juízo de valor que viole a democracia e os princípios acima descritos, promovendo a violência ou qualquer tipo de discriminação devia ser obrigado a ir para casa e só pode voltar a sair quando vir todas as temporadas da Rua Sésamo, saber de cor as canções e aprender que devemos respeitar todos os meninos e meninas. Haveria, decerto, muito menos ódio e maledicência no ar.

A chegada a Portugal

Em Portugal, os bonecos da “Rua Sésamo” chegaram pela primeira vez à RTP em 1977, num programa chamado “Abre-te Sésamo”, que integrava apenas (ser pobre é tramado) os segmentos animados e com marionetas da sua congénere americana. Embora esta versão tenha tido sucesso entre a pequenada tuga, a verdade é que a verdadeira versão portuguesa apenas haveria de chegar mais de dez anos depois…

Em 1987 (sim, malta! A nossa “Rua Sésamo” é vinte anos requentada!), a RTP finalmente resolveu trazer para este bonito país a versão completa da Rua Sésamo e, para isso, juntou diversos especialistas em várias áreas do desenvolvimento infantil, tanto de Portugal como dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), com o objetivo de estudar qual o melhor processo de produção do programa, de forma a maximizar os seus objetivos educativos. Quantos mais programas se podem gabar deste nível de minúcia, profissionalismo e preocupação com o público-alvo?

Assim de repente só me lembro do Big Brother.

Ah, o outro objetivo deste encontro foi, e fazendo jus à milenar tradição tuga do fazer muito com poucos meios, recorrendo à ancestral técnica do desenrasque, perceber até que ponto se poderia improvisar e reutilizar atores e cenários, de forma a baixar os custos de um formato que era caro.

Nos dois anos seguintes foram formadas equipas de guionistas, animadores, tradutores, compositores e foram contratados pedagogos e educadores que escreveram, desenharam, traduziram e adaptaram os conteúdos americanos, de forma a melhor estarem adequados à realidade portuguesa. O responsável pelas dobragens e pela escolha de alguns atores foi um tal de António Feio, um dos mais talentosos e multifacetados artistas que este país já pariu e que ficou imortalizado pela obra que nos deixou.  O senhor Feio demonstrou todo o seu bom gosto, escolhendo para protagonista uma tal de Alexandra Lencastre, que de feia não tinha nada e levou a que muito adolescente borbulhoso visse esta série educativa com a desculpa de que “nunca era tarde para aprender” e que “vejo a série para fazer companhia à minha irmã mais nova”. E, para isso, prestavam uma atenção tremenda quando a senhorita Alexandra ensinava o abecedário ao Poupas. Bem jogado, sr. Feio!

Um dos componentes fortes da versão portuguesa da “Rua Sésamo”, e que a distinguia das demais, era a ligação com África. Na verdade, durante mais de dois meses uma equipa da RTP partiu para os cinco países dos PALOP com o intuito de trazer das belas paisagens africanas um enorme espolio imagístico e cultural, que tornaram a nossa versão simplesmente única.

A estreia!

A 6 de novembro de 1989 estreava na RTP, finalmente, o primeiro episódio da versão portuguesa de “Rua Sésamo”.

 O sucesso foi instantâneo e de tal forma retumbante que o programa era transmitido de manhã e repetia ao final da tarde, antes do telejornal e do Vitinho — outra instituição! —, para a criançada ir para a cama com uma barrigada de saber. E havia aficionados que viam as duas emissões!

O sucesso levou a todo o tipo de merchadising. Quem teve esta caderneta?

A 27 de maio de 1996 foi exibido o derradeiro episódio desta histórica série (a partir daí, apenas tivemos direito a reposições). No total, a “Rua Sésamo” teve 440 episódios portugueses, cada um com a duração de 30 minutos, passando por lá atores da craveira de um Vitor Norte, Manuel Cavaco, José Pedro Gomes, José Raposo, Miguel Guilherme ou os já citados António Feio e Alexandra Lencastre.

O legado da “Rua Sésamo”

O principal legado deste programa é, indiscutivelmente, os ensinamentos que trouxe a toda uma geração que chegou ao primeiro ano muito melhor preparada e que ensinou miúdos e… graúdos.

E isso é que é verdadeiro serviço público.

E era este tipo de conteúdos que os meios de comunicação deveriam procurar incluir nos seus densos planeamentos. Pelo menos na televisão do Estado, para a qual contribuímos todos alegremente com os nossos impostos (eu quando vejo quanto pago mensalmente de “Contribuição audiovisual” na fatura da EDP fico tão contente que até as minhas nádegas batem palmas!).

Para terem uma ideia da dimensão pedagógica deste programa aconselho a leitura da entrevista que a Sábado fez a Maria Emília, a diretora pedagógica da “Rua Sésamo”:

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/20200204-2147-muitos-adultos-aprenderam-a-ler-com-a-rua-sesamo

O legado da “Rua Sésamo” – os personagens

A “Rua Sésamo” marcou e ensinou várias gerações, apresentando personagens incontornáveis, como o Poupas, o Ferrão, o Egas e o Becas ou ainda o icónico Monstro das Bolachas.

Aproveito esta oportunidade para fazer aqui uma confissão.

Cá vai: algures nos meus três ou quatro anos de existência, o meu objetivo de vida era ser um Monstro das Bolachas. Parecia-me um tipo porreiro, relaxado e com as suas prioridades bem definidas. E com uma alimentação rica e equilibrada. Embora novo, já tinha a noção de que a vida dos adultos era irremediavelmente mais chata que a das crianças — daí nunca ter tido qualquer espécie de pressa para crescer —, pelo que abraçar uma carreira que envolvesse papar bolachas que quisesse me parecesse uma opção lógica e certeira. No entanto, os caminhos e vicissitudes da vida acabaram por me levar para outras paragens, mas a verdade é que, de quando em vez, no silêncio da noite e quando o jantar não me satisfaz em pleno, vou à dispensa e, em honra deste herói infantil que faz da alarvidade a sua subsistência, degusto uma quantidade insana de bolachas.

O legado da “Rua Sésamo” – as músicas

Para além do leque de personagens que irão sempre fazer parte do imaginário coletivo infantil, outro dos legados deste programa eram as canções. Musiquetas orelhudas e viciantes que nunca mais esquecemos e que se impregnaram no nosso cérebro. Lembro-me particularmente de canções que louvavam a importância do desporto, as canções dos números do Conde de Contar ou uma música que me enregelava a espinha, pois louvava o valor nutritivo da sopa, vil caldo de legumes que povoou muitos dos meus mais tenebrosos pesadelos infantis e que era cantada por um puto, claramente psicopata, que falava da sopa como se fosse a oitava maravilha do Mundo. Mas o pináculo das canções importais é mesmo a música do genérico… Desafio-vos a ouvirem esta harmoniosa cantilena e não ficarem a trautear a melodia. Eu há cinco dias que, do nada, exclamo: “Soooool nasceu! Como está (pausa), liiiiindo o céu!”

Mas nem todas as canções da Rua Sésamo envelheceram bem. Aquela era uma época mais pura e ingénua, na qual as nossas mentes não estavam tão poluídas e repletas de maledicência. A música da Rua Sésamo que nunca mais esqueci tem o poético título de ““Eu tenho orgulho em ser uma vaca”.

Hoje era difícil fazer uma canção infantil com um refrão deste calibre.

E assim, uma canção que tinha o nobre objetivo de levar a pequenada a saber aceitar-se e a ter orgulho naquilo que é, acaba por ser prejudicada pela escolha infeliz do animal que serve de protagonista para a cantilena. É que em Portugal este desmedido orgulho bovino pode ser confundido com o orgulho de uma moça em ser promíscua. Nesta era do politicamente correto não se poderia criar canções infantis com tal dubiedade. No tempo da Rua Sésamo toda a gente podia (e devia!) ter orgulho em ser uma vaca. Bons tempos.

Conclusão

Cinquenta anos depois da estreia nos Estados Unidos, a “Rua Sésamo” já conquistou a módica quantia de 189 Emmys (um recorde absoluto), estimando-se que mais de 200 milhões de crianças já viram uma das mais de 160 versões da “Sesame Street”. Absolutamente incrível.

Nunca mais se fez conteúdo desta forma e com esta qualidade, com o intuito de primordial de preparar melhor o nosso amanhã, apostando na qualidade da educação das nossas crianças. E a melhor maneira de garantirmos que o nosso futuro será risonho é exatamente apostando na formação letiva e, essencialmente, humana daqueles que vem depois de nós e que tem a espinhos missão de trazer alguma decência, altruísmo e respeito pelo próximo ao, tantas vezes ignóbil, mundo dos adultos.

E tudo o que possa ajudar na formação de seres humanos mais cultos, informados e mais aptos para exercerem a cidadania na sua plenitude deve ser louvado.

E é por isso que eu louvo tanto o Monstro das Bolachas.