Os salões de jogos

Os salões de jogos

Outubro 20, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Há alguma coisa que grite mais “anos 90!” do que os bons, velhos e fedorentos salões de jogos?

Duvido.

O que são os salões de jogos?

Para aqueles que são novos de mais (ou velhos de mais) para se lembrarem deste local de culto e adoração para amantes dos videojogos eu vou explicar de uma forma muito simples o que eram estes antros de perdição: para quem gostava de videojogos, os salões de jogos eram o céu na Terra.

Para um puto nos anos 90, um videojogo custava o equivalente a um rim no mercado negro. Como tal, ter um jogo novo era um acontecimento excecional e que apenas acontecia em momentos muito especiais, tais como o natal, o nosso aniversário ou os vários planetas do nosso sistema solar se alinharem só para nós, levando a que um dos nossos progenitores nos achasse merecedores de tamanha prenda, fora do período de festas. Esta última aconteceu cerca de uma vez.

Por isso, entrar numa sala repleta de máquinas gigantescas, dentro das quais estavam os últimos gritos do mundo dos videojogos e que estavam ao nosso alcance por uma singela moeda era o sonho molhado da malta que, nos anos 90, era membro da seita conhecida como “videojogos”.

Estas máquinas tinham o nome de Arcades e tocar naqueles manípulos gordurosos era o ponto alto da semana de muito jovem borbulhento. Algumas máquinas de Arcade eram verdadeiras obras primas, tendo dado a possibilidade a muita gente de, pela primeira vez, pegar num volante de automóvel para guiar pelas estradas lamacentas do Sega Rally ou de pegar numa pistola para disparar sobre os mauzões do Virtua Cop.

Para além de nos permitir experiências impensáveis numa consola doméstica, o grafismo dos jogos de Arcade deixava a milhas o que poderíamos ver, por exemplo, na nossa velhinha Mega Drive. Por isso, nos anos 90 um dos maiores trunfos que uma consola podia ter era oferecer aos jogadores uma experiência de jogo semelhante à das Arcades. Quem nunca comprou um jogo para uma consola da Sega ou da Nintendo a pensar que iria ter no conforto do seu humilde lar exatamente o mesmo jogo que jogava nas árcades e acabou a chorar o dinheiro gasto que atire a primeira pedra.

Uma experiência… única

Por alguma razão é que, hoje em dia, cerca de duas décadas após o declínio e respetivo falecimento da grande maioria dos salões de Arcade, ainda existem tantos entusiastas destes tempos, sendo vários os fãs mais fervorosos que chegam ao ponto de construir a sua própria máquina de Arcade caseira. E a vontade de recordar os bons tempos da infância e/ou juventude é tanta que nem se importam em ter um mamarracho hediondo no escritório ou na garagem, mamarracho esse que, provavelmente, só será utilizado meia dúzia de vezes e que estará na génese de inúmeras discussões com a esposa.

Mas se há papalvos saudosistas que querem, a todo o custo, recriar as vivências dos salões de Arcade é porque estas memórias são verdadeiramente especiais. E são especiais não só pela maravilha que era ver tantos jogos diferentes todos alinhados, mas também devido àquilo a que eu chamo de stress de pobre.

O stress de pobre é o fenómeno que do qual quase todos nós padecíamos. Passo a explicar em que consistia: para jogar nas Arcades tínhamos de pagar. Um pagamento menos simbólico do que devia ser e que nos fazia suar as estopinhas cada vez que pegávamos no joystick cheio de muco, suor e lágrimas. É que a moeda que inseríamos na ranhura da máquina fora ganho com suor (pedir dinheiro aos pais não é uma atividade fácil), pelo que nos sentíamos compelidos a ir o mais longe possível no jogo. Tínhamos de chegar ao nível que nunca tínhamos alcançado. Aquela moedinha tinha de render!

Só quem passou pela verdadeira humilhação que era gastar uma moeda e perder logo no primeiro nível é que vivenciou o que é o verdadeiro sofrimento. Era uma sensação que misturava a frustração por termos desbaratado aquela moeda que tanto trabalho nos deu a ganhar com a vergonha por sermos um tosco, com T grande, na Arcade dos Simpsons.

A minha experiência… de caca

Não frequentava estes espaços com a regularidade que gostaria. Afinal de conta, o auge destes salões ocorreu na primeira metade dos anos 90, época em que ainda era demasiado novo para entrar nestes antros de perdição sem a supervisão de um adulto.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que entrei neste mundo. Era um domingo soalheiro, eu já tinha os trabalhos de casa feitos e o céu era o limite. Um dos meus melhores amigos — vamos chamar-lhe Gonçalo — liga-me para ir passar a tarde em sua casa para jogar Mega Drive e brincar com os Legos.

Aceitei de imediato, como não poderia deixar de ser.

Mas fui enganado.

A progenitora do tal colega teve de ir às compras e, embora lhe tenhamos suplicado que nos deixasse sozinhos em casa nos nossos afazeres infantis, a senhora riu-se alarvemente perante essa possibilidade, levando-nos com ela ao centro comercial mais próximo.

Mas é no meio de uma crise que o melhor de cada ser humano tem a oportunidade de vir ao de cima.

E foi aí que o meu amigo demonstrou toda a sua qualidade enquanto agente de manipulação maternal, usando a milenar técnica da birra para convencer a pobre senhora de que era uma excelente ideia deixar-nos no salão de jogos do Oeirasparque (e dar-nos umas moedas!), enquanto ia comprar cenouras (lembro-me, sabe-se lá porque, de ela dizer que tinha de comprar unidades deste simpático vegetal) e outros víveres ao continente.

Ao entrar, com o meu amigo no enorme salão de jogos achei que o mundo me pertencia. Foi a primeira vez que me achei um homem feito. Estava preparado para tudo. Tinha oito anos.

Ainda me recordo plenamente da excitação que senti quando olhei para dezenas de máquinas Arcade e sabia que podia a que eu quisesse. Nem sabia para onde me havia de virar, tal era a oferta de escolha. Todos nós tínhamos um jogo favorito do salão de Arcade, jogo esse que, na maioria das vezes, tinha uma longa fila de jogadores à nossa frente, jogadores esses que eram sempre mais velhos, mais altos, mais brutos e mais malcheirosos do que nós. E, como tal, eu e o meu amigo acabamos por ir para a Arcade com a combinação mais poderosa de todas = Jurassic Park + Pistolas. A Arcade que, naturalmente, tinha a fila maior. Aquela bicha nunca mais acabava.

Depois de um tempo de espera que nos pareceu uma eternidade tão grande que julgamos já ter chegado à idade adulta… o nosso momento chegou! Eu já salivava de ansiedade. Eu e o Gonçalo sentamo-nos naquela espécie de cockpit que tinha como intuito recriar os jipes do famoso filme de Steven Spielberg. Ainda hoje, lembro-me perfeitamente da sensação de completo e profundo êxtase que senti quando alapei o meu jovem traseiro no cadeirão puído e pegajoso da máquina. O assento estava morno, das nádegas dos anteriores ocupantes, e as pistolas de plástico quase que escorregavam da mão, tal era a camada de gordura que as envolvia.

E perdi no primeiro nível.