Duck Tales

Duck Tales

Setembro 10, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Muitos meninos e meninas tem uma relação muito especial com os desenhos animados.

A criançada de hoje — txi soei tão idoso agora! — tem vários canais de televisão que passam bonecada 24 horas por dia. E como se isso não chegasse, tem ainda serviços, como o Youtube, onde podem encontrar de borla milhares de horas de conteúdo para se entreterem. Contaram-me que houve um tipo que queria dedicar o seu serão a escrever um capítulo para o seu próximo livro, mas descobriu que o Youtube tinha vídeos de duas horas com cartoons antigos do Pato Donald e… Bem, nessa noite esse tipo não trabalhou muito.

No meu tempo — cá está de novo o vocabulário tipicamente idoso —, todas as crianças tinham incrustado na cabeça o horário e canal dos seus desenhos animados preferidos. Não havia forma de voltar atrás o programa e para o revermos tínhamos de o gravar numa cassete VHS, cassete essa que custava dinheiro e, como tal, nunca tínhamos todas as que queríamos para gravar tudo o que desejaríamos. Recordo com saudade o dia em que guardei um rancor profundo de meus progenitores porque resolveram que a hora do “Pato Aventuras” era aquela em que eu tinha de ir ao médico. Os adultos têm sempre as prioridades do avesso…

Foram vários os desenhos animados que, ao longo dos anos 90, grudaram o meu traseiro enfezado ao sofá gasto e puído da casa de meus pais. Vários deles já falei por aqui, tais como Dartacão, as Tartarugas Ninja ou o incontornável Dragon Ball, mas como fã inveterado dos filmes e das bandas desenhadas da Disney, houve uma série de aventuras com muitas das minhas personagens favoritas do universo disneyano, cuja visualização era para mim um momento sagrado. Essa série era…

Duck Tales! (Ou Pato Aventuras na excelente adaptação tuga).

DuckTales é uma série de animação dos estúdios da Walt Disney, produzido entre 1987 e 1990. Foi criado por Jymn Magon e Carl Barks, este último o criador de algumas das melhores BDs de sempre da Disney, sendo também o homem que criou o meu segundo personagem preferido desta meca da animação infantil: o Tio Patinhas.

As saudades destas BDs…

Ao contrário dos cartoons clássicos da Disney, Duck Tales diferenciava-se pela sua vertente de aventura e exploração, com alguns episódios a beber inspiração em vários clássicos da Literatura ou da sétima arte, tais como Sherlock Holmes, Indiana Jones ou James Bond, enquanto outros recriavam fielmente algumas das mais aclamadas BDs de Banks, pelo que os patos mais famosos do globo passavam os episódios atrás de artefactos perdidos, tesouros escondidos ou mapas empoeirados.

Comprem isto. Já.

Duck Tales era um projeto muito acarinhado dentro do seio da Disney, sendo nele depositadas grandes esperanças. Não foi, por isso, de estranhar o facto de as aventuras de Tio Patinhas terem contado com um orçamento superior à maioria das séries animadas da época, sendo também das séries animadas mais longas de sempre. Ao todo, Duck Tales teve direito a 100 episódios, divididos em quatro temporadas, no fim das quais foi lançado DuckTales O Filme – O Tesouro da Lâmpada Perdida, que foi só das cassetes VHS que eu mais vezes vi e revi. Adorava aquilo.

As personagens

Quando o Pato Donald decide alistar-se na Marinha (quem diria que um tipo com fato de marinheiro e que gosta de fazer nudismo da cintura para baixo iria apreciar alistar-se num local cheio de homens fardados…), pede ao seu Tio Patinhas para cuidar dos seus sobrinhos, Huguinho, Zezinho e Luizinho.

O velho sovina demonstra ao seu ente querido que tomou a melhor escolha, levando os seus sobrinhos para o ajudarem nas suas perigosas aventuras pelo mundo inteiro. Portanto, um tipo milionário leva os sobrinhos menores a viverem aventuras em que a sua vida é posta em risco, com o nobre motivo de acumular ainda mais capital.

Está encontrado o tio do ano!

Para além deste quarteto, a série apresenta uma vasta panóplia de excelentes personagens, desde aqueles que foram importados das bandas desenhadas, tais como o Professor Pardal ou o próprio Donald, a verdade é que Duck Tales também apresentou novos personagens para o Universo dos Patos, inovando assim face ao que os fãs da Disney conheciam das histórias aos quadradinhos. Assim, Duck Tales estreou Madame Patilda (a babysitter que o Tio Patinhas contrata para tomar conta dos seus sobrinhos); Patrícia (a neta de Patilda); Capitão Boing (o piloto); Asnésio (um admirador do Capitão Boing e um dos amigos dos sobrinhos, sendo portador de um nome próprio belíssimo) ou Leopoldo (o mordomo da Mansão do Tio Patinhas).

Também no domínio dos vilões a equipa de Duck Tales adicionou um novo elemento à contenda e assim, para além dos clássicos Maga Patalógica, Irmãos Metralha e o Mancha Negra, Duck Tales apresentou-nos Mc Money, o arqui-inimigo de Patinhas, que não se contenta por ser apenas o segundo pato mais rico do mundo.

Pato Aventuras em Portugal

Em Portugal, Duck Tales estreou em 1988, no saudoso programa da RTP Clube Amigos Disney, na versão original (com legendas!), repetindo ao longo dos anos 90 nestes mesmos moldes. É verdade criançada, os homens (e mulheres) de barba rija dos anos 90 viam desenhos animados em inglês e com as infames legendas. Lembro-me perfeitamente de, com 4 ou 5 aninhos, ver Duck Tales de forma quase religiosa. Percebia tudo? Claro que não. Mas conseguia acompanhar perfeitamente as aventuras dos patos mais famosos do nosso imaginário infantil. E os vocábulos ingleses começaram a entrar na minha diminuta cabeça.

O Tio Patinhas foi o meu primeiro ‘stor de português. Saudades daquele velhote. Nunca me marcou trabalhos de casa.

Claro que as dobragens tugas tem imensa qualidade e já vários trabalhos nacionais foram galardoados com vários prémios. Duck Tales apenas foi dobrado para a nossa bonita língua em 2002, quando chegou ao Disney Channel, e foi mais um exemplo do que uma boa dobragem deve ser. Mas não deixo de sentir uma certa nostalgia, talvez bacoca, pelo tempo em que a RTP achava que não valia apena apostar ( € ) nas dobragens, dizendo aos putos “é isto que temos: ou queres ou não queres”.

E nós queríamos sempre.

A canção mais orelhuda de sempre? Talvez

A música de abertura é das coisas mais importantes de um desenho animado. Quantos de nós já não nos lembramos de absolutamente nada sobre determinada série, mas temos a letra da canção toda na cabeça? Quem não trauteou toda a canção do Dartacão enquanto esperava na fila para as Finanças que atire a primeira pedra.

A música do Duck Tales é apenas considerada como uma das mais memoráveis para um programa de televisão. Para isso contribui o facto de ser brutalmente orelhuda — ou seja, é daqueles que ouvimos e fica-nos no ouvido o resto do dia —, tendo um dos refrões mais incríveis da história. Quem ouve a música de abertura de Duck Tales e no refrão não entoa com um sorrisinho idiota a onomatopeia “YU- UH” tem de ir ao psicólogo, pois está mergulhado numa depressão profunda e não sabe degustar os pequenos prazeres desta vida terrena.

Duck Tales 4eva

Duck Tales é, indiscutivelmente, uma das séries de animação mais famosas, amadas e emblemáticas de todos os tempos.

O seu retumbante sucesso levou a que fosse lançado todo o tipo de merchandising, brinquedos e incríveis videojogos (Duck Tales na NES ou no Game Boy é um jogo maravilhoso).

Embora a série e os filmes sejam, ainda hoje, perfeitamente atuais e divertidos, em 2017 a Disney lançou um reboot da série com uma nova roupagem e, embora à primeira vista, possa parecer “estranho” para os dinossauros dos anos 80 e 90, a verdade é que a série mantem toda a qualidade de outrora, tendo conseguido por adultos (não vou dizer quem) a papar avidamente vários episódios, enquanto gritava “YU- UH” sempre que lhe apetecia.