O Zé vai desconfinar

O Zé vai desconfinar

Agosto 9, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Pela primeira vez nos últimos quatro meses, o Zé não acordou com o som de parede a ser perfurada, devido às obras do andar de baixo que decorreram durante toda a época do desconfinamento. Depois de cento e vinte dias de cárcere, nos quais ouviu, dia e noite, todo o tipo de sons encantadores oriundos das obras intermináveis e desrespeitadoras do andar de baixo, no dia anterior o seu ignóbil vizinho avisou-o, finalmente, de que as obras tinham chegado ao seu fim.

Numa ocasião normal, o Zé teria aberto meia dúzia de garrafas de champanhe e teria ido correr todo nu para a rotunda, como forma de festejo de tão incrível acontecimento. Mas se Deus existia, olhava para o Zé como aquele filho rançoso que por passar despercebido nunca levava prendas. E, por isso, o final de obras coincidiu exatamente com a data de regresso ao trabalho do Zé.

Naquela manhã, o Zé rejubilou de alegria quando voltou a vestir o fato demasiado incómodo e demasiado quente, sentindo uma lágrima de saudade escorrer-lhe pelo rosto enquanto pensava nas suas amadas calças de fato de treino.

Com o ânimo típico de quem caminhava em direção ao cadafalso, o Zé entrou no carro com a estranha sensação de que se esquecera de algo. Pensou, pensou… E pensou mais um bocadito. Mas tinha ali tudo: chaves, carteira, passe, almoço, uma muda de roupa interior para o caso de os pratos indianos da noite anterior lhe corroerem as entranhas…

Convencendo-se de que tinha tudo o que necessitava e que aquela sensação se devia aos meses em que não saíra de casa para trabalhar, o Zé ajeitou o seu traseiro gelatinoso ao assento, rodou a chave na ignição e arrancou pela estrada fora, rumo à estação para apanhar um comboio a destilar suor, calor e covid. Ao chegar ao estacionamento da estação, o Zé relembrou a agradável sensação de ficar dez minutos à procura de um buraquinho onde pudesse enfiar a sua humilde viatura, acabando por encontrar um espaço esconso entre uma árvore e uma betoneira. Demorou outros dez minutos em manobras delicadas e apertadas, de forma a conseguir estacionar sem violar o seu para-choques.

Após um bonito espetáculo circense, o Zé consegue parquear o seu calhambeque, saindo do carro com um sorriso de vencedor estampado no rosto. Um sorriso que lhe marinou nos lábios por apenas três segundos.

Foi esse o tempo que levou para o Zé se aperceber que não trazia a máscara.

Com o coração nas mãos, rodou sobre os calcanhares e precipitou-se de novo para o carro, orando a todas as entidades divinas de que já ouvira falar para que o saquinho de máscaras que costumava guardava no carro ainda lá estivesse. Em princípio estaria, mas como na tarde anterior a sua esposa tinha pegado no carro…

Mas as entidades divinas não fazem milagres e não conseguiram evitar que a digníssima esposa do Zé tivesse tirado o saco das máscaras do carro com o propósito de “lavar esta coisa nojenta, que já está encardida”.

O propósito era nobre (e necessário). Mas a verdade é que a Maria acabou por nem lavar o saco, nem tão-pouco o voltar a meter no carro.

Enquanto contemplava o divórcio como um bálsamo salvador, o Zé lembrou-se que naquela zona havia uma máquina de máscaras. Com uma centelha de esperança a iluminar-lhe a alma, o Zé correu o mais depressa que o seu corpo balofo lhe permitiu até ao local onde sabia ser possível adquirir tão necessário objeto. Após um sprint que o fez suor dos locais mais recônditos do seu ser, o Zé contemplou o bonito papelito amarrotado que fora colado em cima da máquina de máscaras, que dizia poeticamente: “fora de serviço devido a vandalismo”.

Com a Fé na Humanidade nas ruas da amargura, o Zé encolheu os ombros, deu meia volta e estugou o passo na direção do carro, fazendo um esforço hercúleo para não derramar umas lágrimas pelo seu infortúnio.

Depois de passar outros dez minutos a tirar o carro do espaço esconso onde o tinha enfiado, o Zé voltou para casa, passou outros dez minutos à procura do sítio onde a sua digníssima esposa — que ao telefone não se lembrara do local onde tinha deixado o saco, salvo seja, do marido — e quando finalmente encontrou uma máscara correu desenfreadamente para o carro, conduziu a grande velocidade, foi mandado parar por um simpático senhor agente da autoridade que lhe passou uma multa e voltou a passar outros dez minutos à procura de um lugar para deixar o carro, acabando por o estacionar a quase um quilometro da estação. Quilometro esse que foi percorrido a correr, chegando ao apeadeiro exatamente a um minuto de o próximo comboio chegar.

O esforço pela corrida valeu a pena, arfou o Zé de forma estranhamente semelhante à de um tarado desnudo num parque à noite. Agora tenho um minuto para relaxar até à chegada do comboio…

O Zé suspirou, sentou-se e fechou os olhos por um bocadinho.

Quando os voltou a abrir, limpou o generoso fio de baba que lhe escorria pela queixada e chorou. Não de comoção, mas por ter adormecido e ter perdido não só aquele comboio, mas também todos os que passaram nas duas horas seguintes. E ainda lhe fanaram o saco do almoço que tinha repousado no seu volumoso regaço.

Ciente de que teria de fazer (várias) horas extraordinárias para compensar aquele terrível atraso, o Zé entrou no próximo comboio que apareceu, constatando de imediato que a sorte continuava a sorrir-lhe.

Numa carruagem com muito mais gente do que aquela que seria aconselhada pelas Autoridades de Saúde Pública, estavam amontoados magotes de simpáticos jovens bêbados e cambaleantes, de garrafas na mão e ausência de máscara no rosto. Trocavam beijos, abraços e covid. O Zé afastou-se deles o máximo que pôde, mas a ausência de espaço no comboio não dava margem a que fosse possível pôr em práticas grandes distanciamentos sociais.

À sua volta orbitavam velhotes veraneantes, quase todos de máscara, mas quase nenhum com a dita bemposta. Uns apresentavam-se com a máscara no queixo e o nariz de fora, outros com a máscara na testa e os poucos que a tinham no sítio certo faziam questão de a remover do rosto sempre que queriam falar ou ouvir.

Incrível a etiqueta do povo português…, constatava o Zé com ironia, sentindo-se vulnerável e desprotegido, amaldiçoando o grunho do seu chefe que o obrigara a se deslocar para o escritório, para fazer um trabalho que poderia perfeitamente ser efetuado a partir de casa. O corolário desta insegurança ocorreu quando o tipo anafado que estava em pé ao seu lado retirou cuidadosamente a máscara do rosto para poder tossir. Quando acabou de expelir tudo o que tinha nos pulmões, voltou, com a maior das naturalidades, a colocar a máscara.

O Zé sentiu um arrepio na espinha e afastou-se.

Se esta malta soubesse até onde vai a zaragatoa… Se calhar tinham mais cuidado…

— Mano, tens lume? — Um dos jovens sem máscara aproximou-se do Zé interrompendo-lhe os pensamentos, bamboleando um cigarro de estranhas proporções.

— Mano, tens máscara? — Retorquiu o Zé instintivamente, fazendo depois uma longa dissertação sobre cidadania e sobre o respeito pelo próximo, ato que valeu uma retirada estratégica do seu interlocutor, que voltou para junto de seus pares dizendo com voz de cana rachada que “aquele cota é mais chato que a minha avó”.

Ainda o Zé sentia suores frios pelo encontro de terceiro grau com um ser sem máscara quando sente o ombro ser tocado levemente.

— O bilhete, por favor.

Diante si tinha um individuo de pança proeminente, que envergava uma farda ridiculamente justa para o arcaboiço do seu portador, portador esse que apresentava um farfalhudo e distinto bigode, que apenas era visível porque… A máscara do senhor revisor ia descendo paulatinamente à medida que o gordalhufo falava com o Zé. Mas o nosso amigo quase não o ouvia. A sua mente estava focada na máscara que já se encontrava perigosamente na área do queixo, deixando a descoberta toda a área passível de expelir Covid.

— Percebeu o que eu lhe disse?

— Peço desculpa, mas será que o senhor se importa de colocar a máscara como deve ser quando estiver a falar comigo?

As pupilas do senhor revisor dilataram-se de forma quase inumana. Como se lhe tivessem dito uma qualquer impensável alarvidade. Claramente, aquele agente da autoridade do ramo dos passes de transportes coletivos não estava habituado a ser contrariado. O caso do Zé não melhorou quando o passe apresentado não era o seu, mas sim o de sua esposa.

Depois de o senhor revisor anafado e de máscara no queixo ter obrigado o Zé a sair na estação seguinte o nosso amigo soltou uns impropérios cabeludos para o céu, colocou-se em posição fetal no passeio e chamou um Uber que o levasse até ao trabalho para, finalmente, poder dar início à tão ansiada atividade laboral.

Atividade essa que podia perfeitamente ser efetuada a partir da sua habitação, impedindo assim toda esta manhã dos infernos. Seria de esperar que um dos aspetos da pandemia fosse permitir a modernização do mercado laboral, permitindo a vários postos de trabalho operar mais vezes a partir de casa, trazendo assim mais flexibilidade de horário e mais tempo e qualidade de vida para os colaboradores, assim como menos gases poluentes para o Ambiente.

Infelizmente, muitas entidades patronais são dirigidas por indivíduos com a visão de uma toupeira e a empatia de uma parede de betão. Quem é produtivo tem de estar na empresa. Nem que passe o dia inteiro a fazer intervalos para o café.

Ao menos o seu patrão, o Dr. Salvador D’Lattorre “deu o exemplo” aos seus subalternos. E embora obrigasse o Zé e o resto da equipa a ir trabalhar para a empresa, continuou a trabalhar em casa.

Que líder fantástico.