Fotografar nos anos 90

Fotografar nos anos 90

Julho 26, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Sabes que és um ser pertencente a uma era genealógica longínqua quando constatas, com espanto e algum horror, que o simples ato de tirar uma fotografia mudou drasticamente desde a tua infância até aos dias de hoje.

As mudanças foram de tal forma evidentes que a simples menção das palavras “máquina fotográfica” pode fazer as crianças do século XXI olhar para nós — adultos velhos, decrépitos e quase a precisar de andarilho para se locomoverem — como verdadeiros fósseis.

Fotográfo, logo existo.

Hoje tira-se mil fotografias a tudo.

Vou tomar o pequeno-almoço à pastelaria da moda e quero mostrar ao mundo os víveres que vou ingerir, embora ninguém queira saber disso para nada? Tiro uma foto.

Vou ver os meus avós e tenho de tirar uma foto do momento, pois de outra forma é como se não os tivesse ido ver? Tiro uma selfie com os meus gengibosos parentes.

Vou à casa de banho efetuar o número dois e a cor e consistência da minha obra é de tal forma estranha que acho melhor mostrá-la ao meu gastroenterologista? Tiro uma foto e envio-a pelo whatsapp.

Hoje em dia parece que os momentos que vivemos para efetivamente terem existido têm de vir acoplados com uma fotografia. Sem ela é como se nada se tivesse passado. Podia agora fazer aqui uma profunda reflexão sociológica sobre esta necessidade quase patológica de fotografar tudo o que fazemos, como forma de nos validarmos junto de pessoas que nem conhecemos assim tão bem. Mas pessoal… Este blogue tem a palavra “Caca” no nome. Aqui só falamos de coisas parvas, portanto vamos prosseguir.

Resumindo: os telemóveis vieram banalizar por completo uma atividade que antes era única e especial. Especial porque não podíamos tirar fotografias a tudo o que queríamos. Tínhamos de aplicar um conceito que é cada vez desconhecido para tanta gente e em tantos contextos sociais distintos: poupar.

Para os mais petizes que não sabem como eram as fotografias nos anos 90 permitam-me explicar:

A fotografia era um hóbi caro.

Caro porque cada fotografia que tirávamos tinha um custo associado. Imaginem o que seria se cada foto que tiram com o vosso smartphone fosse paga. Muita modelo de rabos do Instagram tinha de estar na rotunda de Monsanto para angariar fundos para as suas fotos “missing Summer” em biquíni, que são tiradas em catadupa no Verão, de forma a terem stock suficiente para serem publicadas em dezembro.

Numa época em que um smartphone era um objeto de ficção científica, para tirar uma fotografia tínhamos de ter uma máquina especializada para o efeito, chamada, imaginem, máquina fotográfica! É um nome original, não é pequenada? E para tirar fotos tínhamos de comprar rolos para inserir no interior da máquina, rolos esses que tinham de ser adquiridos em lojas de fotografias e que não eram assim tão baratos quanto isso.

Cada rolo permitia tirar apenas um número limitado de fotografias. E, ao contrário dos luxuosos dias de hoje, quando tiravas mal uma fotografia não era possível apagá-la e repetir o processo. Se a fotografia saísse mal (eu era perito em por o dedo à frente da objetiva) era menos uma do rolo que podias usar. E pagavas por ela à mesma.

A pressão sobre o fotógrafo era, por isso, incalculável. Não havia margem de erro. Querem ensinar uma criança a trabalhar sobre pressão? Dêem-lhe uma máquina fotográfica para as mãos e digam-lhe que o rolo foi caro e as fotografias tem de sair boas.

Eu até suava.

O meu primeiro rolo

Lembro-me perfeitamente da primeira máquina que tive e cujo primeiro rolo foi usado sabiamente para tirar fotografias aos animais do Jardim Zoológico. Na minha cabeça as fotografias estavam todas incríveis e mal podia esperar por as revelar! Depois de reveladas, iria colá-las num dossier comprado para o efeito. Estava tudo planeado.

Foi difícil aguentar a espera. Sim, porque na época um rolo de fotografias demorava vários dias a ser revelado! Não era instantâneo. O “fotógrafo” entregava o rolo na loja e depois tinha de esperar mais ou menos uma semana para poder levantar as suas fotografias. Bons tempos.

Para além da poupança, aprendíamos também a ser pacientes. As máquinas de rolo já nos davam muito mais valores do que muitos encarregados de educação por este Portugal fora!

Quando o grande dia finalmente chegou, dirigi-me com minha mãe até à loja da Paco na Parede, com a cabeça cheia de sonhos e expetativas exacerbadas. “Será que aquela foto dos hipopótamos que me pareceu tão boa era digna de ir para uma moldura?”. Com o coração a arfar de ansiedade levantei o envelopezinho com as fotografias que as minhas inaptas manápulas tiraram e deliciei-me….

Durante três segundos.

Que foi o tempo que demorei a perceber que aquelas fotografias eram um monte de fezes putrefatas. Assim de repente, penso que em vinte e tal fotografias só havia uma ou duas que não estavam desfocadas, não tinham dedos à frente da lente e que estavam a focar animais lindos e fofos em vez do chão (sim, lembro-me de que uma das fotografias que tirei foi ao chão acinzentado do Zoo).

Tinha um talento inato para esta arte.

A pressão… era insustentável!

Mas a pressão não estava apenas do lado do fotografo!

Estar do lado do fotografado também não era nada fácil e, no meu caso particular, era uma atividade que se assemelhava a uma vulgar tortura medieval. No papel de individuo que, ainda hoje, gosta tanto de tirar fotografias como arrancar um siso sem anestesia, nos meus tempos de criança imberbe e despreocupada, ter um adulto com a câmara apontada na mesma direção era suficiente para o meu rosto exalar um lampejo de profunda tristeza, pois sentia imediatamente a pressão do mediatismo a encavalitar-se nos meus ombros.

Mas se isto já era mau o suficiente, a situação redobrava o seu tom de calamidade quando o adulto se armava no Mourinho da fotografia, dando-nos todo um naipe de indicações que nos faziam sentir um vulgar macaquinho amestrado:

“Sorri!”

“Mas não mostres tanto os dentes”

“Tira as mãos dos bolsos”

“Tira o dedo do nariz”

“Não abras tanto a boca”

“Não tenhas a boca tão fechada”

“Não olhes para o chão”

“Não olhes para cima”

“Larga a cabeça do teu irmão”

“Vá lá, esta foto é para mandar para aqueles tios-avós que só vemos uma vez por década! E tem de ficar bem senão…”

Quando vinha um “senão” sabíamos que a coisa tinha ficado séria. E era aí que começávamos a suar.

Nunca gostei de tirar fotos. Sentir que tinha uma objetiva apontada à minha pessoa era sinónimo de desconforto. Muitas vezes, a vontade de fazer uma careta era grande e tinha de recorrer a toda a minha força de vontade para não o fazer. Na época, estragar uma foto implicava que havia menos uma daquele rolo por usar. E o rolo custava dinheiro. Uma careta poderia ficar muito cara.

O fotógrafo profissional

Por esta altura, já todos percebemos que eu e fotografias eram duas coisas que não combinavam muito bem. Agora imaginem o que era ir a um fotografo profissional para “tirar o retrato”. E, para mim, por profissional entendia-se “ser quinhentas mil vezes mais chato que o adulto comum”.

Ainda hoje uma das fotos em que estou com o ar mais infeliz e anti-natural deste mundo foi tirada por um destes grandes profissionais, que me impôs uma data de posições de mãos e trejeitos de boca absolutamente ridículas. O trauma foi de tal ordem que me lembro de olhar para a minha mãe e pensar: “mas porque é que me estás a fazer isto? Eu sou bom rapaz e tenho boas notas… Porque raio é que tu queres uma foto minha com um pullover esverdeado, incómodo e amaricado, apresentando o semblante de quem acabou de chupar um limão?”.

Ainda hoje não sei se a fotografia foi emoldurada porque os adultos realmente gostaram dela ou porque, como a pagaram, foi uma questão de orgulho para colocarem aquela cara de traseiro (a minha) na parede.

Mas será que agora é melhor?

Por um lado… sem dúvida! Nem que seja pelo facto de a fotografia se ter democratizado de tal maneira que qualquer “” pode tirar as fotos que quiser e ao que quiser.

Por outro… Não posso deixar de prestar os meus pêsames aos bebés e crianças que nasceram na era da fotografia digital, vendo cada segundo da sua vida imortalizado no ecrã do seu pai ou da sua mãe. Não há bufa que deem que passe despercebida. Não há asneira que façam e que não vá ser recordada para todo o sempre.

Os álbuns de fotografias deixaram de ter dezenas ou centenas de fotos para terem milhares. E se alguém já passou vergonha por ter um progenitor a mostrar as tuas fotos de bebé a alguém imaginem o que seria se o referido progenitor tivesse uma pasta no computador com vários gigas de fotografias que documentam cada instantezinho da nossa insipida existência?

Pobres criaturas. Ninguém merece.