A Expo ’98

A Expo ’98

Junho 17, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Se há evento que se pode gabar de ter conseguido exacerbar o patriotismo nacional sem estar relacionada com o mundo do Futebol foi esta miscelânea de Exposições de todos os cantos do mundo que Portugal reuniu com uma mestria inigualável.

A ideia de organizar uma Exposição Internacional em Portugal surgiu em 1989, com o propósito de comemorar os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses. A zona escolhida para tão ansiado certame foi o limite oriental da cidade de Lisboa, junto ao rio Tejo, uma zona degradada e na qual foi feito um excelente trabalho de requalificação, de tal forma que influenciou as estratégias de reabilitação urbana do panorama português nos anos que se seguiram.

Desejo uma Expo na praceta do Caca

Posto isto, se alguém quiser montar uma mini Expo no relvado à frente de minha casa eu agradeço. Nos últimos cinco anos já liguei para a Câmara tantas vezes que já os pus como o meu contacto de emergência, já falei com uma boa parte dos funcionários dos serviços camarárias e já perdi parte da minha juventude à espera que atendessem a minha chamada. Preenchi formulários. Enviei emails. Mandei fotografias. Até ao momento, é com incontido orgulho que comunico que a Câmara do concelho onde resido defecou na minha pessoa com muita classe e requinte. E o relvado parece uma floresta tropical, cheia de garrafas e poias caninas.

Eu neste momento já nem peço para debastarem o matagal que quase me dá pelo nariz. Ou para limparem os restos de comida que duas idosas acéfalas insistem em despejar na via pública, alegando que “é para alimentar os pombinhos”. Já ficava imensamente satisfeito para colocarem uns caixotes do lixo para os magotes de jovens respeitadores da distância social imposta pelo covid colocarem as suas múltiplas garrafas de cerveja.

Enfim, tenho a tendência a sonhar muito alto.

O que era a Expo?

A Expo ’98 realizou-se em Lisboa de 22 de maio a 30 de setembro de 1998, atraindo cerca de onze milhões de visitantes.

O seu sucesso ficou em parte a dever-se à vitalidade cultural que demonstrou, conseguindo albergar pavilhões de praticamente todas as nações do globo. Assim, num singelo dia, um visitante conseguia calcorrear dezenas ou mesmo centenas de pavilhões, conseguindo assim sorver um pouco da cultura desses países.

Sabem aquela viagem de dar uma volta ao mundo que muitos de nós sonham fazer?

A Expo era uma versão minimalista dessa viagem. Uma espécie de volta ao mundo versão pobre, vá.

Outro dos motivos do sucesso deveu-se também a uma excelente panóplia de pavilhões temáticos, alguns deles com temas tão importantes e visionários que ainda hoje se mantem reais. Lembro-me perfeitamente de, com dez anos acabados de fazer, ficar estarrecido com o que aprendi com a poluição dos Oceanos ou com as consequências que adviriam da escassez da água. Vinte e dois anos depois, estes temas estão mais atuais do que nunca. Os onze milhões de visitantes deveriam ter feito um bocadinho de mais caso relativamente a estes temas tão sensíveis.

Fica então uma listinha dos Pavilhões temáticos deste bonito certame:

– Pavilhão do Futuro

– Pavilhão da Realidade Virtual

– Pavilhão da Utopia (que no fim da Expo mudou de nome para Pavilhão Atlântico e, agora como Altice Arena recebe inúmeros espetáculos)

– Pavilhão de Portugal

– Pavilhão do Conhecimento dos Mares

– Pavilhão dos Oceanos

– Pavilhão da Água

Para além dos Pavilhões Temáticos, a Expo tinha ainda aquele que era, apenas, o maior Oceanário do Mundo da altura, sendo ainda hoje um projeto de referência no âmbito da conservação de espécies e educação ambiental e marinha.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui ao Oceanário, visita essa que foi muito mais apressada do que eu gostaria, mas os meus progenitores queriam muito ver aqueles pavilhões de países que ninguém se lembra, pelo que tive de me despedir da Amália e do Eusébio (que para quem não se lembra era o nome das duas lontras) com uma lagrimita no canto do olho.

Ainda hoje é um dos meus locais de referência na capital. Uma vénia para os senhores e senhoras do Oceanário.

A Expo aos olhos de uma criança

A Expo ’98 foi um evento de magnitude mundial. Portugal foi elogiado em todos os recantos do mundo pela sua organização, competência e hospitalidade. Turistas de todo o mundo vieram no verão de 1998 a este pedaço de terra à beira-mar plantado para visitar a exposição do momento.

E eu, criança acabada de chegar à primeira década de existência, sorvi o melhor que pude este momento único da nossa História. E, como tal, a minha melhor e mais nítida recordação da Expo ’98 é, como não poderia deixar de ser, aqueles vulcões que, volta e meia, cuspiam potentes jatos de água que encharcavam toda a gente. Se fizessem uma Expo 2020 só com vulcões de água aquilo ia estar sempre cheio.

Eu, pelo menos, estaria lá na abertura

A segunda coisa que melhor me lembro desta exposição era… o meu passaporte da Expo. Para quem não se lembra, era dados (ou vendido?) aos visitantes um passaporte, no qual podíamos marcar o carimbo de cada um dos pavilhões dos países que visitássemos! O objetivo? Ter o passaporte rubricado com o maior número possível de carimbos! Eu avisei que a Expo era uma espécie de “Viajar pelo Mundo – edição especial para pobres”.

Mais uma vez, para um miúdo (tanso) de dez anos, o mais importante não era absorver as maravilhas culturais que cada pavilhão gentilmente nos ofertava, mas sim carimbar o passaporte e ir a correr para o pavilhão seguinte.

Tenho tanto orgulho em mim.

A mascote – o Gil

A mascote foi selecionada entre 309 propostas e batizada de Gil (em homenagem ao navegador Gil Eanes) por um estudante, num concurso que envolveu escolas de todo o país. Se a minha proposta tivesse sido aceite, o nosso amigo Gil chamar-se-ia Cão (em homenagem ao navegador Diogo Cão). Ainda hoje estou para saber como não ganhei… Houve de certeza subornos e compadrio. Enfim é o país que temos.

Mais do que uma mascote, o Gil transformou-se num símbolo da Exposição, estando à entrada com um sorriso e uma posição altamente castiça, estando de braços abertos, parecendo esperar um abracinho de cada um dos visitantes.

Claro que o tuga, reconhecido mundialmente pelo seu elevadíssimo requinte humorístico, aproveitou esta pose para tirar uma foto a fingir que fazia cócegas ao boneco. Quantos gordos suados, de mariconera à tiracolo e sandálias entregaram a sua camara fotográfica à esposa para, entre risinhos grunhos, fingir que fazia cocegas ao sr. Gil? Eu vi bem mais do que queria.

No meio de toda a estrangeirada era assim que encontrávamos os portugueses: eram aqueles que tiravam fotografias a fazerem cócegas ao Gil, os que se punham em cuecas para tomarem banho nos vulcões e os que se punham em todas as filas em que estavam a oferecer brindes.

As bichas

Mas nem tudo era bom no mundo encantado da Expo.

Decorrendo em pleno verão lisboeta, a Expo era sinonimo de suor. Suor em todo o lado e em todos os refegos. Suor nas costas, nas pernas e nas axilas. Suor nas têmporas, na face e nas partes baixas. E, por vezes admitamos, suor no rabo. Se me pedissem para resumir a Expo em três palavras eu teria de falar em: lontras, vulcões de água e suor. É isto o que uma criança de dez anos retém, desculpem lá.

A grande afluência de visitantes à Expo levava a que muitas das principais atrações tivessem longas e sinuosas filas à entrada. E eu quando digo longas e sinuosas não estou a falar de bichinhas de vinte ou trinta minutos. Eram mesmo senhoras bichas.

Recordo com particular carinho as três horas ao sol, escaldado e desidratado, à espera de entrar no Pavilhão da Água. A ironia deste momento foi fantástica. A certa altura já nem sabemos bem quem somos ou o que fazemos ali. E quando estamos tão fartinhos de estar numa fila que começamos a evocar Paulo de Carvalho é porque a situação está feia.

Conclusão

Findada a Expo, o recinto esteve fechado ao público durante uns tempos, reabrindo já com o epíteto pelo qual todos os conhecemos atualmente: Parque das Nações.

Tenha-se vivido mais ou menos intensamente o evento que, uma vez mais, colocou Portugal nas bocas do mundo, é inegável que a Expo ’98 é apenas mais uma prova de que Portugal e os portugueses são capazes de coisas fantásticas.