Sandra Carvalho

Sandra Carvalho

Abril 25, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Esta é uma entrevista muito especial para mim.

Esta distinta senhora, a par do igualmente distinto Filipe Faria (já entrevistado para o Caca, relembra a entrevista aqui) são das maiores referências nacionais no que ao Fantástico diz respeito, esse género Literário que eu tanto gosto e que ainda continua a ser tão desvalorizado,

A Sandra, para quem não a conhece, para além de ter um espólio livreiro bastante assinalável (que eu convido a conhecer nas linhas abaixo) é ainda a personificação da simpatia, com uma simplicidade e afabilidade no trato, só ao alcance daqueles que estão aptos a receber o epíteto mais honroso de todos. A Sandra é, definitivamente, “boa gente”.

A SAGA DAS PEDRAS MÁGICAS

CRÓNICAS DA TERRA E DO MAR

A NOITE DO CAÇADOR

Olá Sandra! Muito obrigado por te disponibilizares para esta entrevista!

SC – Olá Francisco! Eu é que agradeço pela gentileza do convite e pela oportunidade de dar a conhecer o meu trabalho aos leitores do Caca Gambuzinos!

Porque é que começaste a escrever?

SC – Comecei a escrever ainda criança, porque tinha imensas histórias a fervilhar na mente e sentia a necessidade de lhes dar vida. Olhando para trás, julgo que essa foi a maneira que descobri de viver grandes aventuras, e de incorporar as personagens que idealizava e não encontrava nos livros que tinha. Rapidamente, para além de um vício, a escrita tornou-se uma paixão. E assim continua a ser.

Como te surgiu a ideia para a série “A Saga das Pedras Mágicas”?

SC – A minha mãe contava-me contos de inspiração Celta e eu também lhe pedia histórias sobre os Viquingues, porque, penso que teria os meus três ou quatro anos, estreou na televisão a série de animação Vickie, o Viking (acho que essa foi a minha primeira caderneta de cromos!). Eu gostava dos Celtas por causa da magia dos druidas, e dos Viquingues por serem guerreiros e navegadores exímios. À medida que fui crescendo, a minha curiosidade por esses povos foi aumentando. Então, como a escola não me deu as respostas que buscava, devorei livros de História para aprender mais acerca da sua cultura… E quanto mais pesquisava, mais ideias surgiam. A Saga começou a tomar forma a partir de pequenos contos aleatórios que raramente chegavam ao fim… Até que tudo se encaixou como as peças de um puzzle! De repente, tornou-se impossível esquecer as personagens e o enredo que se entranhavam na minha pele e povoavam os meus sonhos, e já não consegui parar de escrever.

Tinhas, desde o início, noção de que a série seria assim tão grande?

SC – Sabia que a história seria grande, pois estava estruturada para se desenrolar ao longo de três gerações. Porém, talvez porque jamais imaginei publicar um livro, pensava que tudo se resumiria a três resmas de papel que, um dia, eu daria a ler aos meus amigos. Quando a Editorial Presença me informou de que a primeira parte da história seria dividida em dois volumes, fiz contas ao que já estava planeado e combinei a entrega de seis livros. No entanto, conforme a escrita foi progredindo e exigindo mais investigação, a imaginação foi galopando e a série terminou com oito volumes… Por vontade dos meus leitores seriam mais, pois existe a curiosidade de descobrir o que poderia acontecer numa quarta geração! Eles estão constantemente a pedir-me para continuar a história!

Quais foram as tuas principais inspirações na criação de um novo universo fantástico?

SC – Desde sempre, as raízes da minha inspiração estão ligadas ao meu amor pela natureza. Por isso, os meus cenários são floresta luxuriantes, ilhas deslumbrantes, montanhas escarpadas, pântanos sombrios, o mar… De igual modo, a minha curiosidade pelas relações humanas ajuda-me a criar personagens complexas; homens e mulheres “reais”, com os quais os leitores se identificam. Nunca racionalizei em demasia o porquê de escrever como escrevo. Simplesmente, visualizo uma cena e dou-lhe vida através das palavras. Escrevo as histórias que gostaria de ler, e, num primeiro momento, escrevo para mim. O processo envolve muitas gargalhadas e lágrimas, prazer e dor, porque é visceral. Eu mergulho nas personagens e exploro as suas emoções até ao limite… Em suma, julgo que me inspiro em tudo o que já vivi e aprendi, e combino essa experiência com os devaneios da minha imaginação irrequieta e uma grande dose de paixão. É por isso que o desafio de pegar em elementos fantásticos e torná-los reais me dá tanto gozo! Só assim a escrita me faz sentido. Se eu não estiver apaixonada e satisfeita, sei que não vou conseguir apaixonar e satisfazer os meus leitores.

E quais são as tuas principais referências literárias?

SC – Nunca é fácil responder a essa pergunta, porque recebi lições preciosas de dezenas de escritores maravilhosos através da sua escrita. Mas, como muitas crianças da minha geração, cresci fascinada pelas histórias de Enid Blyton, dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen, de Edgar Rice Borroughs, de Alexandre Dumas… Os livros do italiano Emilio Salgari também me marcaram imenso, pois inflamaram o meu entusiasmo por piratas e corsários, plantando na minha imaginação as sementes da história que, trinta anos mais tarde, originaria as “Crónicas da Terra e do Mar”! Quando se gosta de fantasia, é impossível não mencionar Tolkien, mas existem dois autores que me marcaram infinitamente mais: Michael Crichton, pela mestria com que misturava a ciência com a ficção, e Marion Zimmer Bradley, pela paixão presente nas suas palavras e pela força imensurável das suas personagens femininas. Por isso, eles são os meus escritores de eleição.

Como certamente estás ao corrente, o mercado editorial em Portugal não é fácil, sendo muito difícil as editoras nacionais apostarem em autores portugueses desconhecidos e que não garantam, à partida, um volume de vendas jeitoso. Como começou a tua relação com a Editorial Presença?

SC – Essa é uma história muito especial! Como já referi, nunca me passou pela cabeça que pudesse publicar um livro. Para mim, os escritores eram criaturas iluminadas e inatingíveis, e eu era só a Sandra, uma menina tímida que se divertia a inventar histórias. Imensas vezes gracejei, dizendo que esse era “o sonho que eu não me atrevia a sonhar”. Poucas pessoas sabiam que eu escrevia, além dos meus pais e de meia dúzia de amigos… Até que, um dia, o meu marido leu o manuscrito que haveria de dar origem aos dois primeiros livros da “Saga das Pedras Mágicas”, e insistiu para que eu o enviasse para uma editora. De imediato, respondi que isso estava fora de questão. Não queria submeter a minha história à apreciação de um profissional, porque, se a resposta fosse negativa, seria o fim do sonho. Eu não voltaria a sentir prazer quando me sentasse para escrever, pois ficaria assombrada pelo facto de o meu trabalho já ter sido rejeitado. Porém, o meu marido insistiu e insistiu, até que se cansou de esperar que eu mudasse de ideias. Informou-se sobre que editoras estavam a apostar na Literatura Fantástica e em autores portugueses… e enviou o meu manuscrito para a Editorial Presença, sem a minha autorização! Como podes imaginar, fiquei tão, tão zangada… Mas depois, quando a resposta chegou positiva, vivi um momento de felicidade indescritível! Por isso, voltando à questão inicial, embora seja verdade que é difícil para um autor desconhecido publicar através uma boa editora, vale sempre a pena tentar. Eu sou o exemplo de que os sonhos impossíveis se podem concretizar !

Que conselhos gostarias de dar aos escritores novatos que se queiram aventurar pelo inóspito mundo da Literatura Fantástica?

SC – Ainda existe no nosso país a estranhíssima ideia de que a Literatura Fantástica é um género menor, porque qualquer pessoa pode escrever um punhado de tolices e chamar-lhe “fantasia”… Meus caros, isso é totalmente falso! É muito, mesmo muito difícil escrever uma história fantástica! Porquê? Porque o maior atrativo que esse empreendimento pode ter para um escritor, que é o facto de nos dar a hipótese de explorar todos os géneros literários, tendo por único limite a nossa imaginação, acaba inevitavelmente por se transformar numa dificuldade a tender para o infinito, pois, para nos orgulharmos do nosso trabalho, temos a obrigação de nos exceder em todas as frentes. Ou seja, os intrépidos escritores que decidirem abraçar essa aventura devem ter consciência de que terão muitas horas de trabalho diante deles, e de que necessitarão de possuir uma determinação férrea para levarem a tarefa até ao fim. Sejam extremamente cuidadosos com a escolha das palavras, de modo a evitar erros e repetições. Pesquisem bastante sobre os assuntos que estão a explorar, para colorirem o vosso mundo. Vistam a pele das personagens e não tenham medo de esmiuçar as suas emoções, para que os leitores as sintam com a mesma intensidade que vocês as sentiram. Peçam a alguém próximo, capaz de vos fazer uma critica construtiva, que vá acompanhando o processo e vos diga se algo está incorreto ou pode ser melhorado. Depois, quando concluírem que já não existe mais nada que precise de ser alterado, procurem quais as editoras que poderão interessar-se pelo vosso trabalho, ou seja, as que publicam fantasia e apostam em autores portugueses. Logo que tenham reunido os elementos por elas requeridos para a avaliação do projeto, arrisquem… Simplesmente arrisquem! Como se costuma dizer, o “não” está garantido à partida; logo, não têm nada a perder. Ao guardarmos os nossos projetos na gaveta, estamos a ser os primeiros a dar o “não” ao nosso trabalho.

Pessoalmente sou grande fã das Crónicas da Terra e do Mar. Tens na calha voltar a enveredar pelo mundo dos romances históricos? Tens outros projetos na gaveta?

SC – Tenho imensos projetos guardados!!! Durante anos, fui iniciando histórias que nunca conheceram um fim, e tomando nota de ideias para explorar posteriormente… Quando concluo um livro, a maior dificuldade que enfrento é a escolha da aventura que irei abraçar a seguir, porque existem tantas a chamar por mim! E atendendo a que a minha paixão pelo romance histórico navega em paralelo com a paixão pela fantasia, há sempre a possibilidade de uma fusão. As “Crónicas da Terra e do Mar” já provaram que esse casamento é possível e acarinhado pelos leitores… E eu fiquei sôfrega por mais J!

Há autores portugueses que afirmam sentir uma certa desvalorização do seu trabalho em detrimento de obras estrangeiras, pelos próprios portugueses. Partilhas desta opinião?

SC – Já me aconteceu estar numa conversa animada com leitores apaixonados pelos meus livros que, de repente, me pedem desculpa por terem demorado tanto tempo a “descobri-los”. E a razão dessa demora é, invariavelmente, a seguinte: «Há muitos anos que ouvia falar dos livros da Sandra, mas hesitava em comprá-los, porque achava que, por ser portuguesa, a Sandra não conseguiria escrever histórias tão boas como aquelas que eu estava habituado a ler de autores estrangeiros.» A primeira vez que escutei isto, fiquei perplexa. Agora, já me habituei e recebo o comentário com carinho, pois a intenção do leitor é elogiar o meu trabalho. Logo, sim, sei que existe entre nós a convicção de que os autores estrangeiros são melhores do que os nacionais… E espero continuar a dar o meu contributo para “exterminar” esse preconceito!

Que ingredientes consideras essencial para se escrever um bom livro?

SC – Na minha opinião, não existem “fórmulas mágicas” para essa empresa. Se alguém sente o desejo veemente de escrever uma história, pois que a escreva pelo prazer e pela diversão que o processo criativo lhe dará, sem o peso de estar constantemente a cismar se o que está a fazer é bom ou mau. No que ao romance concerne, julgo mesmo que a escrita perde parte do seu encanto se for excessivamente racional. Deve existir sinceridade, emoção, uma entrega incondicional do autor à sua história, para que o leitor assimile tudo isso nas palavras, se deixe absorver pela leitura e esqueça a realidade.

Podes relatar a história mais engraçada que tiveste com um leitor?

SC – Aquando da publicação d’“O Olhar do Açor”, o primeiro livro das “Crónicas da Terra e do Mar”, alguns amigos-leitores convidaram-me para celebrar… Convém explicar que essa trilogia é inspirada na descoberta dos Açores, e combina a realidade histórica de Portugal, no séc. XV, com uma bela história de amor, e as atribuladas aventuras de corsários e piratas. Pois bem, a anfitriã decidiu fazer uma brincadeira e, em poucos minutos, os participantes cortaram em tiras aqueles sacos de plástico preto, que se usam para o lixo, e juntaram e moldaram essas fitas com agrafos e cola, para improvisarem enormes perucas e barbas. Quando eu cheguei, deparei com um grupo medonho de piratas, de copos na mão, a cantarem a plenos pulmões: «Somos piratas, vamos navegar… Ho! Ho-ho! Ho-ho! Sem temer as ondas do mar…» Foi hilariante, porque não consegui reconhecer quase ninguém debaixo daquele monte aparatoso de perucas e barbas negras… E foi muito querido, não só pela fabulosa surpresa e o trabalhão que eles tiveram, mas também porque sabiam a letra quase toda da canção que eu inventei como hino dos piratas do Rouxinol! Nessa noite, tive a honra e o prazer de jantar com um grupo maravilhoso de “Corvos” J!

Qual o melhor elogio que já fizeram ao teu trabalho?

SC – Eu não me canso de repetir que os meus Companheiros de Aventura são os melhores leitores do mundo! Muitas vezes me asseguram que já leram os meus livros cinco ou seis vezes e não se cansam, pois a emoção que retiram da história vai sendo diferente à medida que vão amadurecendo, e porque também descobrem sempre pequenos pormenores que, anteriormente, lhes passaram despercebidos. Acho imensa graça quando alguém comenta que fez uma direta por causa de um livro meu, porque não conseguia adormecer sem saber como a história ia terminar… E também gosto particularmente quando dizem que ler uma história minha é como ver um filme, pois esquecem-se da realidade e mergulham no mundo que criei, distinguem as cores, desfrutam dos cheiros e dos sabores, vibram com as emoções… Eu experimento todas essas sensações enquanto escrevo, por isso, saber que as consegui transmitir através das palavras, é o maior elogio que posso receber.

Obrigado

SC – Muito obrigada, Francisco. Foi um prazer! Desejo-te muita sorte e sucesso para os teus projetos… E despeço-me com abraços e beijos para os leitores do Caça Gambozinos!

Até breve J!!!

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