Hugo

Hugo

Abril 22, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Atualmente no Youtube pululam por todo o lado canais de malta a jogar para outra malta ver.

Os da velha guarda, como eu, gozam com os mais jovens por gostarem de estar sentados a olhar para um ecrã a ver outros a jogar. Consideramos, no alto da nossa imaculada sabedoria, que é ridículo perder o nosso tempo precioso a ver outro “Zé” a jogar enquanto nós ficamos apenas a mirar.

Mas a malta dos anos 90 esquece-se que, no final da década, nós fizemos exatamente a mesma coisa. E adorávamos.

Lembram-se do Hugo?

Mas o que raio era o Hugo?

Hugo era um concurso interativo, destinado ao público infanto-juvenil, criado por uma equipa de talentosos dinamarqueses que conseguiram exportar o seu produto um pouco por todo o Mundo. Em Portugal foi transmitido entre 1996 e 2000, alternando em ambos os canais da RTP. Saudosa a época em que a RTP2 tinha mais de duas pessoas a dar audiência. Estes tempos já não voltam.

O Hugo era, no fundo, um videojogo de plataformas, tão em voga no Game Boy, Mega Drive ou PlayStation, jogo que não apresentava um grafismo particularmente atraente, uma jogabilidade particularmente precisa ou divertida ou um enredo particularmente interessante. Então como é que teve tanto sucesso e conseguiu apaixonar a petizada?

Porque este videojogo era o centro nevrálgico de um programa de televisão!

No programa podíamos ver jogadores de toda a Nação a controlarem o Hugo, em direto (!) pelos mais inóspitos locais, sendo que o pequeno e feio troll era controlado pelos participantes à distância pelo… telefone! Então eu carrego na tecla 4 e o Hugo vai para esquerda? Parecia feitiçaria!

E, na época, até era.

Para nós, aquilo era um vislumbre do futuro dos videojogos! Um futuro cheio de lag — esse inimigo invisível e matreiro — mas, ainda assim, o futuro. Quantas vezes a criançada participante se queixou que carregou no botão certo e que, mesmo assim, o Hugo, teimosamente, resolveu falecer em vez de saltar por cima do penhasco? Criança essa que, se calhar, tentou centenas de vezes ligar para o programa para poder participar (tentativas essas que eram, naturalmente, custeadas por seus pais), pois naquela época, participar no Hugo era o máximo que um jovem podia aspirar para a sua vida. E depois de tantos escudos gastos, tempo em espera quando a chamada finalmente era atendida e êxtase e euforia por irmos participar num programa de televisão… perdíamos uma vida na primeira curva porque a #$&+# do telefone demorava uns segundos a processar a informação!

Os filhos dos anos 90 rapidamente aprenderam que a vida nem sempre é justa.

Hugo e Filosofia

O Hugo é um troll que vive na Hugolândia (mais narcisista era impossível…). Num belo dia a sua esposa trolla e os seus filhos são raptados pela bruxa Maldiva , que os esconde na Caverna das Caveiras. Cabe ao nosso herói salvá-los! Estamos todos de acordo que o enredo é merecedor de um Óscar, certo?.

Mas antes de chegarmos à Caverna das Caveiras para podermos salvar a famelga, os participantes tinham de conduzir o Hugo através de um dos vários níveis do jogo. Havia níveis para todos os gostos: o da montanha, do mergulho, aviões, skate, na neve… Embora houvessem pequenas variações de nível para nível, a verdade é que a jogabilidade era muito simples, baseando-se em desviar para a esquerda e para a direita, para se desviar dos obstáculos e apanhar os saquinhos com pontos.

No entanto, a verdade é que… eu dava por mim a vibrar com os pinotes daquele troll de sorriso patusco, torcendo veementemente que Hugo conseguisse salvar a sua amada e as suas crias, partilhando a dor dos participantes quando perdiam, sendo que as derrotas mais dolorosas eram, definitivamente, aquelas que ocorriam já demasiado perto do final. Mas a tristeza passava depressa, quando ouvia aquela vozinha esganiçada do troll de penteado oleoso, que abrilhantava sempre a hora da derrota com um “É tramado, mas este jogo está acabado” ou “Continha lentinho e vais de carrinho”.

Se há coisa que o Hugo me ensinou foi que a derrota faz parte da vida. E que na hora da derrota é preciso ser magnânimo, para nos rirmos e a aceitarmos como parte integrante da nossa existência.

Quem diria que Hugo e Filosofia bacoca do final do século XX não podiam coexistir?

Hugo em Portugal

A Hugomânia apanhou Portugal desprevenido e, quando dei conta, toda a gente no recreio da minha escola era espetador atento do programa e tinha como sonho molhado ter a honra suprema de ser um dos concorrentes do Hugo. Quem não achava piada a este nobre objetivo de vida eram os nossos progenitores, que viam os seus petizes gastar rios de dinheiro na linha telefónica, na ânsia de poder controlar um troll.

Como é natural, o bom e velho capitalismo não poderia deixar de aproveitar o embalo desta febre infantil, pondo no mercado todo o tipo de traquitanas inúteis do Hugo: era camisolas, lancheiras, peluches, bonecos em PVC, videojogos…

Hoje, diante vós, me confesso que, com oito/nove aninhos o meu grande objetivo de vida era ter o jogo PlayStation do Hugo. Queria controlar aquele troll as vezes que me apetecesse e chegar à Caverna das Caveiras sempre que me aprouvesse.

Era um sonho ambicioso, reconheço. Mas na vida, se queremos ser grandes, temos de sonhar em grande.

Mas nunca tive. Não fui bafejado pela sorte suprema que era ter em casa o videojogo do Hugo. Ainda hoje penso em como a minha vida poderia ter sido se aquele meu capricho tivesse sido atendido. Ou então ter-me-ia acontecido o mesmo que a um dos meus melhores amigos que, num natal particularmente feliz, recebeu tão almejado artefacto: jogaria o jogo de forma quase ininterrupta durante três dias, no fim dos quais iria chegar à conclusão que o jogo era limitado e, sem o lag do programa, demasiado fácil. E rapidamente voltaria para o Final Fantasy ou para o Crash Bandicoot.

PS: acabei por ter o jogo para o Game Boy. Fartei-me em dois dias e voltei a ir buscar o cartucho do Pokemon Red.

Reviver a infância.

Rever na idade adulta conteúdos que fizeram as nossas delícias enquanto crianças pode ser perigoso. Perigoso porque as nossas enternecedoras memorias podem ser seriamente danificadas quando constatamos o quão datado ou o quão pateta é aquele conteúdo.

Eu para escrever este artigo absolutamente incrível tive de ir pesquisar vídeos sobre o Hugo. E vi-os.

E sabem que mais…?

Não é que voltei a gostar? Sim, o Hugo que antes era adorável agora é tremendamente irritante mas a verdade é que, dei por mim a degustar com alegria o pequeno troll a saltitar de plataforma em plataforma, torcendo para que a miúda que estava a jogar — e que agora já deve ter mais de trinta anos — conseguisse chegar à Caverna das Caveiras.

Há coisas que não mudam.