Trabalhos de grupo

Trabalhos de grupo

Abril 10, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Estamos em plena época pascal que, este ano, se reverte de condições excecionais, devido à quarentena que todos os cidadãos responsáveis e de bem têm de fazer. Esta é, portanto, a ocasião ideal para se falar de… trabalhos de grupo nos tempos da escola.

Se há alguma coisa que nos transporta imediatamente para as nossas memórias da escola são as memórias das visitas de estudo, da comida da cantina, do regresso às aulas e… dos trabalhos de grupo!

Do ponto de vista meramente educativo, é facilmente percetível quais os benefícios de propor aos alunos este tipo de empreendimento. Afinal de contas, fomenta o trabalho em equipa, a entreajuda e a solidariedade, valores que se revestem de cada vez maior importância num contexto social onde o egoísmo e a competitividade pouco saudável ameaçam a que os colaboradores do amanhã não tenham as skills necessárias para trabalhar em equipa.

Mas quando éramos simples e singelos alunos não queríamos saber disto para nada. Nos tempos de meninice, os trabalhos de grupo eram encarados como um maná de diversão para o fim-de-semana, caso ficássemos no mesmo grupo que o nosso grupo de amigos, sendo a desculpa perfeita para nos encontrarmos na casa de um de nós para “fazer” o “trabalho”. E um trabalho de grupo digno desse epíteto tinha lanches muito nutritivos (com gomas e bolos), jogatanas de videojogos e invenção de brincadeiras tremendamente idiotas, tais como “brincar com a pressão de ar do pai do nosso amigo”, “ir para o monte e deixar lá um pobre coitado que não soubesse o caminho de volta para casa” ou, o meu predileto, “jogar ao quarto escuro”, jogo cujas características — o estar escuro — inviabilizariam, à partida, qualquer tipo de trabalho.

Nos intervalos disto, lá se “trabalhava” um bocadinho.

Saudades.

Os melhores tempos

Os melhores trabalhos de grupo são, indubitavelmente, os dos tempos da primária. E o primeiro ciclo ganha este prémio por uma razão muito simples: eram os trabalhos mais fáceis de fazer.

E o ser humano quer é coisas simples e que lhe deem o mínimo de trabalho possível.

Nos gloriosos tempos da quarta classe, bastava uma cartolina, uma consulta rápida à Diciopédia ‘99 e um tubo de cola para fazer umas colagens manhosas e voilá!

Acho que perdíamos mais tempo a escolher o tipo de Word Art que queríamos para o título de que propriamente a fazer o trabalho

Recordo com saudade um trabalho de grupo de Ciências da Natureza, em que o que retive da fotossíntese foi como se apanhavam algumas estrelas difíceis no Super Mario 64 , que a porta da garagem do nosso amigo não era adequada para servir de baliza e que não é aconselhável participar num inocente e singelo concurso de flatos quando se padece de diarreia (isto não me aconteceu a mim! Foi a um amigo). 

Quando um trabalho de grupo se transformava em pesadelo

No entanto, um trabalho de grupo poderia transformar-se numa odisseia dos infernos quando… era o professor a fazer os grupos. Bastava isso para retirar toda e qualquer magia a esta instituição do modelo educativo escolar.

E se agora percebo que esta técnica serve para garantir que todos os grupos da turma são equilibrados e justos, a verdade é que na época esta informação era recebida como se o professor fosse um arauto da Idade Média, que comunicava às suas gentes que a Peste Negra tinha acabado de chegar à cidade.

Podem achar a comparação exagerada, mas lembrem-se lá daquele trabalho em que tiveram a felicidade de calhar no grupo de um Zé Tolas, que não quer trabalhar e tem o QI de um bocado de contraplacado, e da miúda mais irritante da turma, que é mais controladora que uma fusão à lá Dragon Ball da nossa mãe com as nossas duas avós.

Era tramado não era?

Ou quando se dividia o trabalho pelos vários membros do grupo, e nos esfalfávamos todos para efetuar a nossa quota parte e depois havia sempre um cagalhão que “se esquecia”, lixando assim a nota do grupo todo?

Mesmo assim, o referido cagalhão fazia questão de assinar o trabalho, evocando o mandamento da Escola “Não bufarás ao stor que eu não mexi uma palha para fazer este diorama sobre os planetas solares”. Assim, quem merecia um “Muito bom” tinha um “Satisfaz” e quem merecia um redondo zero tinha um “Satisfaz”.

Querem uma melhor lição de vida que esta para um petiz perceber que a sua existência nem sempre é justa.

Para terminar, vou listar os oito tipos de colegas que é possível ter num trabalho de grupo:

  1. O D. Sebastião – este é aquele que desaparece mal é feita a divisão de tarefas. Não atende o telefone, nem responde a mensagens. Reza a lenda que aparecerá numa manhã de nevoeiro, apenas quando o trabalho está concluído, ostentando o semblante mais natural do mundo e exigindo que o seu nome apareça no trabalho. Este tipo de postura ignóbil garantirá ao D. Sebastião um cargo de chefia no futuro.
  2. O Manoel de Oliveira – este é aquele que em vez de trabalhar, passa o tempo todo a mostrar vídeos do Youtube aos restantes convivas, distraindo-os sistematicamente com peliculas que, muitas vezes, nem tem assim tanta piada.
  3. O Chefe – este é aquele que tem uma vida incrivelmente atarefada e nunca tem disponibilidade para se juntar ao restante grupo para fazer o trabalho. Ora é o batizado de uma prima, ora é o casamento do javali de estimação do melhor amigo, ora tem de treinar a equipa de futsal do lar onde está a avó… Por norma, este tipo muito ocupado depois passa o tempo nas redes sociais a pôr likes nas fotos da tesuda da turma.
  4. O Covid – este é a antítese do anterior. Com este ser é complicado marcar alguma coisa porque ele nunca pode sair de casa, arranjando sempre uma desculpa para o facto de não poder, naquele dia, abandonar a sua habitação. Nunca chegamos a descobrir se esta quarentena forçada se deve a pais estupidamente zelosos ou se a criatura é, puro e simplesmente, preguiçosa demais para arranjar desculpas melhores do que a ímpia “hoje não dá. Não posso sair de casa”.
  5. O McGyver – este é aquele artista que tem a mania que desenrasca tudo e não stressa com nada. O mundo pode estar a acabar que ele está na boa, na dele, a comer um aperitivo enquanto descasca as unhas dos pés. É preciso cortar a cartolina e ninguém tem uma tesoura? O McGyver corta com as unhas dos pés. É preciso fazer colagens e ninguém trouxe cola? O Mc Gyver tira a pastilha da boca, mistura com o puré da avó e cria um boião de cola. É preciso fazer uma pesquisa na net e o router faleceu? O Mc Gyver faz respiração boca-a-boca.
  6. A Mónica Geller– esta é aquela stressadinha (ou stressadinho) que arranca cabelos com toda e qualquer minudencia, fazendo um escândalo de proporções épicas sempre que os seus planos se desviam um milímetro do que foi idealizado. Este tipo de gente é isolá-los a todos num só grupo de Mónicas, de forma a poderem stressar todos juntos e em harmonia. E assim só se estraga uma casa (ou um grupo).Nunca (mas nunca!) juntem uma Mónica a um D. Sebastião. Já houve Guerras Mundiais a eclodirem por menos.
  7. O Cavaco – este é aquele que faz de múmia. Está calado durante todo o processo de discussão e de realização do trabalho, não se comprometendo com nada e trabalhando apenas o mínimo dos mínimos. Está completamente a leste do que se passa no grupo e é menino para assegurar à professora para que não se preocupe, porque no dia seguinte o seu grupo vai apresentar em aula um trabalho de excelência, quando o grupo está na iminência de falir.
  8. O Trump – este é aquele que não se preocupa com nada durante o tempo dado pelo professor para fazer o trabalho, seguindo a sua vida como se nada fosse. Na véspera lá se apercebe que há um trabalho para entregar e faz qualquer coisa à pressa, para desenrascar. No dia da entrega fica muito surpreso por ter tido uma péssima nota e culpa toda a gente (menos ele próprio) pelo seu fracasso e irresponsabilidade.