O diário da quarentena do Zé

O diário da quarentena do Zé

Março 22, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Dia 1 – sábado

Passei o dia a dormir, a descansar e a ver filmes. Até agora, avalio esta quarentena com um sólido 10/10.

Dia 2 – domingo

Acordei às 6h da manhã com o meu filho mais novo a pedir se podia não ir à catequese. A razão que ele sabiamente evocou é que “estava muito cansado”. Quando lhe disse que tão cedo não iria ele disse que eu era, e passo a citar, “o melhor pai do mundo”. No entanto, a minha alegria durou apenas três segundos. É que o catraio ficou tão entusiasmado que já não conseguiu dormir mais. Só nessa manhã partiu uma cristaleira a jogar à bola no corredor e vimos cinco vezes, e em loop, o Rei Leão. Nunca pensei começar a detestar o Timon e Pumba.

No final da tarde, a Maria mandou-me ao supermercado comprar bens essenciais. Estive 1 hora e meia na fila e tive de fazer um desvio à ninja de um espirro repleto de mucosidade de uma septuagenária.

A avaliação de hoje da quarentena tem de baixar para um 7/10.

Dia 3 – segunda-feira

Tenho obras no andar de baixo, daquelas onde se partem paredes e tudo. Antes da quarentena, como estava a trabalhar, o incómodo das obras era mínimo. Tivemos das 8h30 até às 18h a ouvir marteladas, perfurações e paredes a serem mandadas abaixo. Não sei expressar por palavras o quão agradável foi.

Doí-me a cabeça, mas ao menos a malta dos canais desportivos disse que este mês ofereciam a mensalidade! Malta simpática, sempre a pensar no bem do próximo.

Hoje começou a chegar o trabalho para fazer em casa. Nunca pensei que fosse tão difícil trabalhar em casa. Quem diria que os filhos e até a própria esposa me iriam passar a vida a chamar, interromper e a perguntar se aquela chamada com o patrão “era importante ou se eu a podia interromper para ver se a sopa estava azeda ou não”. A resposta era sim, estava azeda.

Às 22h da noite fomos todos para a janela aplaudir os heróis do SNS e os profissionais de saúde que puseram toda a sua existência ao serviço de um povo. Do seu povo. Foi comovente e confesso que me senti a lacrimejar, tal como sinto quando o Benfica marca o golo da vitória no último minuto.

Agora é aguardar que esta malta que esteve a aplaudir não seja hipócrita e da próxima vez que os profissionais de saúde reclamarem os seus direitos não sejam linchados pela opinião pública.

A avaliação de hoje da quarentena é um sólido 5/10.

Sonhei com as obras.

         

Dia 4 – terça-feira

As obras continuam. Pelo barulho que fazem cada vez estou mais convencido de que fazem ali rituais satânicos. Levei o cão à rua e levei um encontrão de um senhor entroncado e empapado em suor. Fiquei todo molhadinho. E cheio de Corona, caso o simpático senhor estivesse infetado. Tentei não pensar muito nisso. E mesmo que quisesse não conseguia. O barulho das obras não deixa ninguém pensar.

Passei a manhã nas compras para os meus pais. Quando as fui levar descobri que os dois decanos foram dar uma voltinha de carro. Foi só para espairecer, filho!, grasnou a senhora minha mãe. Ralhei com eles como se fossem dois gaiatos. Nunca pensei ter de ralhar com os meus pais e proibir-lhes de sair de casa. Raio dos velhos.

A malta dos canais desportivos disse que ia oferecer a mensalidade… Mas também não há jogos para transmitir e passam o dia inteiro a passar reposições. Demorou um dia, mas já percebi a razão de tamanha generosidade.

Devido ao barulho, a reunião de trabalho em videoconferências teve de ser adiada para as 19h. Os meus colegas e clientes adoraram. Principalmente porque teve como barulho de fundo a música “Eu mal posso esperar para ser rei”.

Como estão a ver, o dia até estava a ser calmo até o meu mai novo, o João, ter resolvido enfiar um coto de um lápis de cera no nariz. A minha primeira reação foi rir, reação essa que a Maria me fez ver que foi desajustada, ofertando-me gentilmente o sofá para dormir naquela noite.

Tentámos tudo, mas o lápis de cera tinha-se fundido com o tímpano do meu filho. Eu já suava de locais onde nem sequer sabia ser possível suar. Já estávamos a preparamo-nos para irmos para as urgências banharmo-nos em Corona, quando Manuel, o meu mais velho, deu um calduço épico no cachaço do irmão, fazendo soltar o coto do malfadado lápis.

A Maria mostrou aos nossos filhos a importância de mantermos as nossas promessas e nessa noite dormi no sofá.

Deixei de avaliar a quarentena. E sonhei com obras.

           

Dia 5 – quarta-feira

Acordei cheio de dores nas costas. As obras continuavam. Demasiado cansado para escrever um texto corrido, por isso vai em modo telegrama.

Queixei-me a minha esposa de que padecia de dores insuportáveis.

Ela encheu-se de compaixão.

Resultado: passei o dia em arrumações e limpezas.

Pelo menos o som do aspirador era abafado pelas obras.

Passei a noite a fazer o trabalho que não pude fazer durante o dia.

Ao menos ninguém enfiou lápis de cera em nenhum orifício. Há que salientar as coisas belas desta vida.

À noite, o tio Marcelo decretou Estado de Emergência. A partir de agora, só podemos sair de casa em situações muito especificas. Infelizmente, escapar da mania das limpezas da mulher não é uma delas. Já reorganizei as gavetas da casa toda 15 vezes, já limpei o sótão outras 20 e já mudamos os moveis da sala de sítio outras tantas. Pergunto-me se a minha situação me torna elegível para uma candidatura a ser eutanasiado.

Ao menos agora as obras devem pausar! Yupi! Todas as células do meu ser rejubilam de alegria.

Antes de ir para a cama vi O Rei Leão. Sonhei com as obras.

           

Dia 6 – quinta-feira

Para variar um pouco, não acordei com o barulho das obras. Desta vez, acordei ainda mais cedo com o som da enorme carripana que carrega o entulho das obras a fazer um barulho ensurdecedor enquanto pousava o contentor. Depois, os amáveis senhores das obras proferiram caralhadas a decibéis muito elevados e os meus filhos acordaram e perguntaram-me o que era uma “cona”. Eu disfarcei muita bem e disse que era um diminutivo para o vírus: o Corona. Eles acreditaram.

O problema é que passaram o resto do dia a tratar a doença pelo diminutivo, para gáudio de minha esposa. Tive de decretar uma Lei severa no meu Império e proibir o uso de diminutivos. Tempos difíceis exigem medidas corajosas.

Como era dia do pai, liguei ao meu, tendo de lhe dar na cabeça por, aos 75 anos, continuar a sair para ir tomar café e ver a empregada gostosa do Mini-preço. Lá em casa, a Maria cozinhou o meu prato favorito e fez bolo de iogurte. O favorito dela.

Como era dia do pai pensei que fosse ter direito a uma prenda, digamos, mais íntima. Mas parece que o Covid substituiu a clássica “hoje não que me doi a cabeça”.

Ao menos não sonhei com as obras. Também não posso relatar aqui aquilo com que sonhei.

Dia 7 – sexta-feira

Acordei às 8h30 com o som calmante de um berbequim a perfurar tijolo. As obras continuam e em força e eu só tenho vontade de ir pedir aos seus obreiros que me enfiem o berbequim pelos ouvidos adentro.

Nos últimos dias vi mais noticiários do que tinha visto em toda a minha vida. Noutros países infetados, os Governos estão a facilitar a vida à população sob a forma dos mais diversos tipos de medidas. Uma delas, que acho que seria muito vantajoso para os portugueses, é a redução dos custos com a eletricidade. Numa época que o emprego atingiu níveis de precariedade nunca vistos e que as pessoas são obrigadas a ficar em casa (aumentando, consequentemente, a conta da luz) parece-me uma medida justa e de enorme relevância social.

Eu sei que pertenço aquilo a que as ditas classes superiores apelidam de “labrego”, mas fui investigar sobre a possibilidade de esta útil medida ser implementada em Portugal.

Mas, com tristeza, conclui que é muito difícil.

Senão vejamos: em 2019, os lucros da EDP baixaram, impossibilitando assim que a empresa possa ajudar os portugueses. Afinal de contas, no ano passado a empresa apenas lucrou 512 milhões de euros. Com estas ninharias ninguém se consegue governar. Para além disto, o presidente executivo da EDP, António Mexia, recebeu o ano passado 2,17 milhões de euros. O que dá, mais coisa, menos coisa, cerca de seis mil euros por dia. Nem dá para os gastos em papel higiénico e álcool etílico. Proponho a criação de uma linha de apoio para ajudar este pobre sujeito.

Já eu, pobre Zé, ganho seis mil euros em oito meses. Sinto um ligeiro travo a injustiça nos lábios. Muito ligeiro.

Relembro que em Portugal, a eletricidade mantém um IVA de 23% (aquele que deve ser dedicado a produtos de luxo), pelo que se percebe o porque de o nosso Governo ainda não se ter debruçado sobre este assunto. Afinal, ligar um interruptor à noite não passa de um luxo. Depois da panca com o papel higiénico prevejo que a próxima histeria coletiva será com as velas.

Mas… finalmente é sexta-feira! Chegou o fim-de-semana para poder ficar em casa! Estava a ver que nunca mais.

Dia 7 – sábado

Hoje eu e os meus filhos discutimos sobre quem ia levar o cão à rua. Todos queriam ir passear o Bolinhas. A quarentena têm coisas giras: por norma ninguém quer levar o meigo canídeo a dar um passeio. Principalmente quando chove ou está frio. Mas agora que sair de casa é um luxo, as idas do Bolinhas ao mato passaram a ser o nosso momento alto do dia.

O meu patrão, o Dr. Salvador d’Latorre pediu-me para ir ao escritório. A um sábado. Durante um Estado de Emergência.

Ainda por cima, o que ele queria de mim era algo que podia ser feito remotamente. Rejeitei. Ele ameaçou-me. Eu não o ouvia bem por causa das obras. Parece que também trabalham ao sábado.

Acabei a chamada a dizer para mim que o meu chefe devia ir apanhar no diminutivo do Coronavírus. A Maria aplaudiu de pé a minha classe e requinte.

Dia 8 – domingo

Não ouvi um berbequim o dia todo! DEUS É GRANDE!

Hoje dei por mim a conseguir pensar. O que pode ser perigoso.

Cheguei à conclusão de que para sobrevivermos, as profissões que são indispensáveis são aquelas que tem os piores salários ou que não são devidamente remuneradas! Médicos e restantes profissionais de saúde, polícias, professores, malta da indústria alimentar, camionistas, pessoal que recolhe o lixo, etc.

Já a malta da banca, alta-finança ou do futebol recebe milhões e pouco produzem de verdadeiramente essencial.

Não há dúvida de que esta coisa a que chamamos de sociedade está mal-organizada. E injusta.

Será que depois desta terrível pandemia a Humanidade vai aprender alguma coisa? Reajustar comportamentos e redefinir prioridades?

Provavelmente não. Faz-se uma ou outra homenagem bacoca e volta tudo ao mesmo.

Mas há que ter esperança no futuro! Se tudo correr bem, dentro de poucos anos havemos de ter dinheiro para podermos voltar a salvar bancos geridos por banqueiros incompetentes que, entretanto, nos vão deixar ainda mais endividados com empréstimos para sobrevivermos ao Covid!

Mal posso esperar.