O Zé vai para a quarentena

O Zé vai para a quarentena

Março 15, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Após dias infindáveis a roçar-se em meia Lisboa enquanto viajava de Coronavírus ambulante (vulgo metro e comboio), levando no lombo com suor, perdigotos e espirros de todo o lado, o Zé recebeu finalmente a notícia que já vinha com mais de duas semanas de atraso: iria começar a trabalhar em casa.

            Esta boa nova não adveio do bom senso do seu chefe, o Dr. Salvador D’Latorre (que, já agora, está em casa há mais de duas semanas), mas sim porque alguém do departamento do Zé foi diagnosticado com o vírus. A empresa do Zé é o espelho de Portugal: só atua depois da fatalidade chegar. Prevenção é um conceito desconhecido. E quem o defende é um mariquinhas alarmista.

            Quando o Zé apanhou o comboio para voltar a casa, não pode deixar de reparar no semblante dos seus colegas companheiros de armas. Homens, Mulheres. Novos, menos novos. A carruagem entreolhava-se preocupada, sendo quase audível o pensamento coletivo que abominava a sua entidade patronal por os obrigar a sair de casa durante uma pandemia. Quase todos ostentavam o mesmo esgar preocupado e amedrontado, olhando para todos os lados, como se todos os que o rodeassem fossem portadores do infame vírus. A exceção era um grupo de meia dúzia de jovens, que falavam alto e tossiam para o ar, que de toalha ao ombro demonstravam que eram, de forma muito resumida, uma grande merda de pessoa.

            Revoltado com o egoísmo e inconsciência de uma minoria, que iria prejudicar a qualidade de vida da maioria, o Zé olhou pela janela, procurando distrair-se e abstrair-se daquele atentado ao bom senso. Vivendo na linha de Cascais, o Zé têm a sorte de poder desfrutar de uma belíssima paisagem enquanto anda de comboio e leva com magotes de gente no colo. Mas, desta vez, a beleza paisagística teve o condão de fazer a bílis subir até à boca do nosso amigo. Ao longo da viagem, são várias as praias que compõem o percurso entre o Cais do Sodré e Cascais e, em quase todas, veraneantes idiotas e desprovidos de qualquer tipo de consciência social compunham o vasto areal, mandando as recomendações da Direção Geral de Saúde às malvas, assumindo-se publicamente como seres humanos estúpidos e execráveis.

            Se houve altura em que o Zé ficou com vontade de chorar devido à estupidez e mesquinhez humana foi aquela. Mas, infelizmente, o espetáculo de degradação da moral e dos bons costumes estava ainda a começar.

            Antes de ir para casa e se barricar com a sua esposa e os seus dois filhos, o Zé tinha algumas coisas a fazer.

            A primeira era ir ao supermercado. Havia bens de primeira necessidade que faltavam lá em casa e que era imprescindível adquirir. Enquanto estacionava o carro, o Zé ia-se preparando mentalmente para filas maiores que o costume e para andar a evitar roçar-se em septuagenárias.

            Pior que o comboio não há-de ser…, dizia, ingenuamente, para si mesmo.

            Mas era.

            O Zé apenas queria adquirir leite, pão e umas conservas. Eventualmente uma embalagem de iogurtes e uma saca de maçãs. Mas as prateleiras estavam mais carecas que o seu couro cabeludo. Por todo o lado, indivíduos merecedores de uma lambada ostentavam orgulhosamente carrinhos cheios de bens, levando em excesso o que a outros poderá fazer falta. Na caixa, uma senhora passava dois carrinhos repletos de rolos de papel higiénico, aos quais se agarrava como se a sua vida dependesse disso.

            E ainda diz a minha Maria que eu cago muito…

            Repugnado com a falta de noção de comunidade que os seus conterrâneos apresentavam, o Zé esteve três horas no supermercado, no fim das quais acabou por sair com apenas um saquinho com meia dúzia de vitualhas. Mesmo que quisesse mais, não havia.

            O facto de ter estado o dia inteiro a suar no interior de um fato e rodeado de calor humano, quer no comboio, quer no supermercado, o Zé começou a sentir a zona das virilhas causar-lhe um prurido cada vez mais incómodo…

            Que raio de altura para ficar assado! Talvez a minha Maria tenha razão e eu esteja mesmo a precisar de perder uns quilitos…

            Assim, antes de ir para casa o Zé decidiu que iria passar rapidamente pela farmácia. Mal entrou no estabelecimento farmacêutico, foi bafejado com a terna visão de duas idosas a beijarem-se e trocarem cuspe nas bochechas uma da outra como se nada fosse. Uma delas, a que apresentava mais do que um neurónio em funcionamento, ainda retorquiu ao início:

            — Oh Maria Adelaide, mas agora não é suposto cortarmos o contacto social?

            — Não sejas parvinha, Maria Odete — retorquiu a idosa sem qualquer neurónio em funcionamento. — Isso é tudo uma grande mariquice! Ora dá cá dois xoxos, minha querida, que eu já não te via há muito tempo.

            — Mas vimo-nos ontem Maria Adelaide. Vemo-nos todos os dias na farmácia.

            E depois vieram os infames beijinhos.

            O Zé queria sair o mais depressa possível daquele antro de bactérias e falta de noção, e à sua frente apenas estava uma cliente! O Zé suspirou de alívio, pensando que, em breve, estaria no conforto do seu lar, a ouvir os ralhetes de sua esposa enquanto ralhava com os filhos e aplicava Halibut nas áreas assadas.

            No entanto, a cliente que estava à sua frente não era uma pessoa qualquer. À frente do Zé estava uma senhora para quem o tempo nada diz. Uma senhora carente de interação social e que faz da ida à farmácia um momento de partilha e comunhão. Uma pessoa que não se deixa atemorizar pela quarentena e mesmo assim vai à farmácia comprar medicamentos que, naquele momento, não precisa assim tanto. Assim, à frente do Zé encontrava-se uma simpática e amável reformada que, naquele momento, já aviada e com o saquinho dos benurons na mão, se encontrava a contar todos os pormenores do seu dia: o que comera, o que lhe doera, a mais recente patifaria que o seu neto Luís Miguel tinha feito… O seu interlocutor era um farmacêutico que também já denotava uma certa idade — e que claramente devia estar em casa em vez de se estar ali exposto aos vírus —, dando uma trela incrível à simpática reformada, falando de tal forma alto que toda a gente naquela farmácia estava naquele momento a saber que ele era portador de um quisto sebáceo num local recôndito.

            O Zé sentiu-se ignorado e pensou em tossir como forma subtil de demonstrar que estava ali à espera. Mas à última da hora a sua consciência entrou em campo e relembrou-o de que fingir uma tosse em momento de pandemia é algo que requer requintes de malvadez, pelo que o simpático balofo abafou a tosse falsa, o que o fez fazer uma careta típica de quem está com prisão de ventre.

            — O próximo — exclamou o idoso farmacêutico, numa voz débil.

            O Zé aproximou-se do balcão, sentindo o embaraço trepar por si acima, sussurrando de forma quase inaudível:

            — Bom dia, queria uma embalagem de Halibut, se faz favor.

            — Quer o quê?

            — Halibut — sibilou o Zé, um nadinha mais alto.

            — HALIBUT? — quinchou o decano farmacêutico, num tom de voz suficientemente alto para toda a gente que estava no interior daquele estabelecimento tomar conhecimento que o Zé padecia de assaduras.

            — Sim, Halibut. Mas pode falar mais baixo, por favor? — Suplicou o Zé, mantendo o tom sussurante.

            — Falei muito baixo? — Guinchou o ancião mouco. — PERGUNTEI SE QUERIA HALIBUT!

            — Sim, eu só queria um frasquinho…

            — É PARA PÔR NO RABINHO? FAZ MUITO BEM, SENHOR! VAI VER QUE DAQUI A DOIS DIAS ESTÁ COMO NOVO!

            — Fale baixo, por favor…. Eu só quero que me dê a bisnaga…

            — Exatamente! É ESFREGAR BEM O CREME NA NÁDEGA! Vai ver que a assadura passa num instante.

O Zé sentiu atrás de si Maria Odete e a Maria Adelaide a rirem descontroladamente. A última até se engasgou com a dentadura. Temendo encetar qualquer tipo de diálogo com o farmacêutico surdo, o Zé limitou-se a pegar no Halibut, agradecer com um aceno de cabeça e pagar o creme mais humilhante que alguma vez tinha adquirido. Ao virar-se repentinamente para trás para sair do estabelecimento, deu um pontapé involuntário na dentadura da Maria Adelaide, marcando um tento de belo efeito, pois o aglomerado de dentes postiços entrou direitinho numa fenda do balcão adjacente:

— AFORA FENS DE AFANHAR A DENFAFURA, SEU FOSCO! EU NÃO ME FOSSO FAIXAR! — Gritou a velhinha gengibosa, enfurecida por ver os seus dentes desaparecerem num buraco.

Repugnado até à medula, o Zézito baixou-se — sentindo um ardor colossal nas virilhas —, enfiou uma luva que o farmacêutico mouco lhe endereçou e pôs a mão na cavidade demasiado semelhante com uma toca de rato de um cartoon tradicional, sentindo imediatamente uma substância esponjosa e irregular, que apenas poderia ser o tão importante objeto. Ostentando um esgar de nojo épico, o Zé devolveu a dentadura à sua legitima dona — que o pôs logo na boca, sem qualquer tipo de limpeza, enojando todos os presentes —, despediu-se da pandilha da farmácia e, finalmente, saiu porta fora.

Ao sair, o Zé sentia-se mais assado, enojado e conspurcado que nunca. A ideia de passar os próximos dias em casa, de repente, parecia-lhe deveras tentador… E os próximos dias são mesmo para ficar em casa. Portugal e o Mundo tem pela frente um enorme teste de cidadania. Chumbar neste teste não é solução. E, para isso, precisamos que todos tenham bom senso, sentido de solidariedade e respeito pelo próximo.

Mas, como é obvio, a quarentena caseira do Zé teve alguns, digamos percalços. E o nosso amigo resolveu escrever um diário para o acompanhar neste período. Estejam atentos!