O Zé vai ao cinema

O Zé vai ao cinema

Fevereiro 22, 2020 2 Por Francisco Ramalheira
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A semana foi longa.

Tudo o que o Zé desejava para aquela tempestuosa noite de sexta-feira era encher o bandulho e relaxar em frente à televisão, vendo um programa qualquer que lhe entorpecesse os sentidos e o fizesse entrar num gostoso estado de sonolência. Por isso, não foi com particular alegria que, quando chegou a casa, recebeu a boa nova que sua esposa lhe deu. Parece que, afinal, naquela noite o Zé não iria passar o serão a tirar cotão do umbigo defronte da televisão. Naquela noite, Maria queria sair.

Começou então o debate, no qual o Zé suou mais do que havia suado a semana inteira. A Maria queria ir dançar. Só de pensar nisto, o nosso amigo tinha suores frios. Se havia coisa que ele abominava era dançar, pois sentia que ao bambolear o seu corpo gelatinoso pela pista de dança parecia um manatim com espasmos. E ninguém quer parecer um manatim com espasmos em público.

Felizmente, o bom senso prevaleceu e o Zé conseguiu convencer a sua digníssima esposa a abortar o plano da dança, adotando na sua vez uma ida romântica ao cinema.

“E escolhes tu o filme. Eu vejo o que tu quiseres!” — dissera o Zé para rematar a discussão, ciente que o bom gosto de cinéfila de Maria iria prevalecer, feliz com a perspetiva de passar a noite com o rabo alapado a uma cadeira confortável, enquanto enfardava um balde de pipocas.

Mas talvez ainda ressentida pelo facto de não ter arranjado par para dar o seu pezinho de dança, a Maria resolveu optar pelo único filme do cartaz que sabia que o seu esposo iria abominar, optando por um dramalhão romântico e insípido, no qual o par de apaixonados se ama muito, depois zangam-se e, no fim — e de forma completamente inesperada! — acabam por perceber que são almas gémeas, com o elemento masculino do casal a declamar o seu amor eterno no centro de um cenário idílico onde o sol brilha, os passarinhos cantam afinadamente e os unicórnios defecam gomas de ursinhos.

Resignado com o seu destino para as próximas duas horas, o Zé foi para a fila das pipocas. À sua frente estava um homem com mais de dois metros e com uma cabeçorra gigantesca, totalmente calva e devidamente adornada com o maior par de orelhas que o Zé alguma vez vira.

Se este cabeçudo se senta à minha frente só vejo um terço do filme, pensou para si, enquanto ouvia a esposa do senhor alto, cabeçudo, careca e orelhudo dizer ao seu encantador marido para não pedir nachos com as pipocas “porque depois ficas a noite toda a deitar foguetes”. O senhor alto, cabeçudo, careca e orelhudo provou ser um grande amante de pirotecnia, pois limitou-se a encolher os ombros e a encomendar uma dose XL de nachos.

Adquiridas as pipocas, o Zé preparava-se para entrar na sala do cinema, quando sentiu um delicado puxão na camisola:

— Zé vou só num instante à casa-de-banho. Segura nisto.

Em poucos segundos, o Zé viu ir-lhe parar às mãos uma mala, uma camisola de malha, um casaco mais comprido que as orelhas do senhor da fila das pipocas, uma embalagem de coca-cola e um cachecol. Esta tralha toda juntamente com o enorme balde de pipocas que já tinha em mãos, levou a que o nosso amigo desse início a um intrincado número de malabarismo, para o qual teve de aplicar todo o seu talento circense para evitar que o seu adorado pacote de pipocas fosse parar ao chão. Foi quando o Zé conseguiu, finalmente, atingir o difícil equilíbrio e segurar todos os objetos de forma confortável que a tragédia aconteceu.

Ao início foi apenas uma impressão. Uma muito ligeira comichão no nariz, à qual o Zé não quis dar importância.

É uma comichão insignificante. Eu sou forte. Não preciso de me coçar, tentava a pobre alma convencer-se a si própria, enquanto sentia uma gotícula de suor a descer-lhe pela fronte e uma enxurrada delas a descer o sinuoso percurso que começa no cachaço e desagua no rego. Cada vez mais aflito, o Zé perscrutava avidamente as imediações, na esperança de que a Maria chegasse a tempo de pegar nas suas coisas antes que uma tragédia acontecesse.

Mas a Maria teimava em não aparecer.

E a comichão estava cada vez mais difícil de controlar. Na ânsia de atenuar aquele terrível sofrimento, o Zé fez uns inúteis trejeitos com a cara, com o objetivo de movimentar o nariz recorrendo apenas aos músculos faciais. Esta ideia, embora na teoria fosse absolutamente fantástica, acabou por revelar um desfecho atroz. Na verdade, estes movimentos não só não minguaram a comichão como ainda trouxeram ao nosso amigo uma tremenda vontade de espirrar. Daquelas que não é possível conter. Daquelas que saem sem aviso.

E foi por isso que, quando a Maria estava a sair da casa-de-banho, viu o homem com quem prometera passar o resto da vida espirrar com a violência de um tufão para o interior de um enorme pacote de pipocas, conspurcando todo o seu conteúdo com os mais variados tipos de mucosidades.

Maria ainda tentou fazer de conta que não conhecia aquele badocha que tinha acabado de encher uma malga de pipocas com ranhoca, mas acabou por ter pena do sujeito com duas estalactites a sair do nariz que veio a grunhir na sua direção, em busca de socorro e consolo.

Depois de resolvida a crise das pipocas caramelizadas, o Zé adquiriu novo pacote e encaminhou-se, finalmente, para a sala do cinema. Ainda com a autoestima dorida por aquele momento embaraçoso, o Zé sentou-se no seu lugar, alongou as nádegas para melhor se adequarem ao assento e aguardou pelo início do filme. Quando acabou de se aninhar, um grupo de donzelas adolescentes aproximou-se, falando alto como se estivessem numa discoteca, preparando-se para se sentar ao seu lado, quando ouviu uma das miúdas do grupo sussurrar de forma a que fosse audível para toda a sala:

— Este aqui não é o gordo que espirrou para dentro das pipocas?

As restantes confirmaram a terrível suspeita e depois tiraram à sorte quem se iria sentar naquele lugar. Quem perdeu ficou ao lado do Zé.

Mas o pior não foi este momento de humilhação gratuito: foi mesmo o facto de a trupe de adolescentes emitir risinhos de hiena a cada cinco segundos, olhando para o telemóvel com ainda mais regularidade e comendo as suas pipocas de forma tão ruidosa que parecia que tinham misturado umas porcas e parafusos no meio do pacote. Assim, o Zé teve o prazer de contemplar os múltiplos trailers dos filmes por estrear enquanto ouvia tiradas como “Não estás a ver bem! A Micaela engordou, pelo menos, uns 2 quilos! Parece uma almondega com pernas!”.

Enquanto as hienas faziam tudo menos prestar atenção ao que se passava no ecrã, uma jovem família de três elementos sentava-se imediatamente atrás do Zé. Assim, enquanto uma pobre Micaela estava com as orelhas a arder, o Zé ouvia uma mãe de timbre finório dizer:

“Não pode ser Bernardo Maria. O menino não pode brincar mais com o telemóvel topo de gama porque ficou sem bateria! Ainda por cima a mamã está irritada porque a sair daquela casa-de-banho N-O-J-E-N-T-A viu um gordo a espirrar para dentro das suas pipocas. Não volte a insistir, Bernardo Maria, senão a mamã diz à ama para o pôr de castigo! Estou a começar a ficar possessa.

A criança, que não devia ter mais de seis anos, optou pela sempre excelente opção de desatar a chorar, dando início a uma birra épica, que teve dos seus progenitores a reação esperada. Quer a mãe, quer o pai demonstraram que sabiam lidar com aquela situação delicada, optando pela sábia postura de fazer de conta de que não ouviam os gritos lancinantes do ser que conceberam em conjunto e que estava num espaço público no qual era expectável que os seres civilizados estivessem em silêncio. Assim, enquanto o adorável Bernardo Maria esperneava, guinchava e dava murros no pai, o Zé apurou a audição, mas não conseguiu ouvir qualquer tipo de atitude parental para por termo aquele espetáculo dantesco.

Assim, quando o filme estava a começar e as primeiras notas da banda sonora soaram, os ouvidos do Zé captavam a música da pelicula, uma conversa juvenil sobre o quão cabra era a professora de Matemática e o choro convulsivo do menino Bernardo Maria, que teimava que querer jogar num smartphone sem bateria.

Nada pode piorar esta situação…

Mas podia.

Um senhor alto, cabeçudo, careca e orelhudo arrastava-se por entre as cadeiras, acabando por se sentar exatamente à frente do Zé, tapando metade do ecrã com a sua enorme cabeçorra e os seus abanos de dimensões estratosféricas.

Desesperado, o Zé olhou para a sua amada, em busca de carinho e compreensão, mas apenas encontrou um sorriso traquina, de quem estava a gostar muito mais do espetáculo do que do filme.

Mas o sorriso de Maria também não durou muito. De repente, um odor nauseabundo e putrefacto invadiu barbaramente as narinas de todos os presentes, sendo audível uma voz aguda e tímida:

— Amílcar! Que cheiro é este? Foste tu, não foste? Eu disse-te que os nachos te davam a volta à barriga! Mas tu nem com essas orelhorras me dás ouvidos!

Mas ao menos as adolescentes e o Bernardo Maria calaram-se.