Big Show Sic

Big Show Sic

Janeiro 30, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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Se houvesse um prémio para o programa dos anos 90 que mais litros de azeite jorrou na televisão portuguesa, este épico apresentando por João Baião (e devidamente coadjuvado pelo Macaco Adriano, o mais brilhante símio da televisão nacional) é o mais forte dos candidatos a receber o galardão.  

A música do macaco Adriano – um Hino dos anos 90

Para poder escrever este artigo tive de me sacrificar por uma causa maior e pelo bem-comum submetendo-me a uma tortura sem fim que passou por… rever partes do Big Show SIC.

E foi então que tudo voltou.

As náuseas. As dores nas córneas. O palpitar titubeante de um coração massacrado por doses industriais de parolice. E, por fim, o intenso cheiro a azeite que me remeteu logo para a infância, para os tempos em que uma qualquer televisão estava a transmitir esta pérola da SIC, conspurcando a nossa vista, enquanto proclamava uma ode sentida ao labreguismo.

Atentem na farpela de João Baião e tentem escolher a peça de roupa mais ridícula. É difícil não é?

Em que consistia o Big Show?

Mas afinal o que era o Big Show SIC?

Sabem quando se esquecem de ir às compras e não tem nada de jeito em casa, então começam a fazer umas misturadas esquisitas enquanto oram a Deus Nosso Senhor para que daquela mistela saia alguma coisa comestível?

O Big Show é isso, mas em formato televisão.

Alguns iluminados pegaram em várias características de vários formatos televisivos, meteram tudo na Bimby e… voilá! Saiu um programa que tinha um bocadinho de tudo, mas que não era nada.

Pagaria de bom grado meia dúzia de euros (eu sou assim, um magnata) para ter estado presente na reunião criativa da qual saiu o alinhamento do Big Show SIC. Deve ter sido qualquer coisa do género:

— Antunes o que é que as velhotas gostam?

— Segundo os nossos dados, apreciam um apresentador de aspeto jovial aos pinotes como se fosse um potro hiperativo.

— Feito, conheço o tipo ideal. E os velhotes, Costa?

— Esses gostam de jovens desnudas a abanar o traseiro, exibindo no rosto sempre o mesmo sorriso amarelo.

— Feito. E a malta da epilepsia, Pereira?

— Esses adoram luzes psicadélicas e fatos garridos cheios de cor. Proponho que o apresentador de aspeto jovial tenha um desses!

— Feito. E o que podemos oferecer aos eruditos que tem a mania que são cultos, Rodrigues?

— Para esses selecionamos momentos musicais de elevada índole cultural. Para o primeiro episódio já convidamos um miúdo de seis anos que canta “O Bacalhau quer alho”.

— Esplêndido! Agora falta agarrar a pequenada. Tens alguma ideia, Ferreira?

— Segundo as minhas pesquisas, a criançada gosta de macacos. E se puséssemos um desgraçado qualquer a envergar um quentíssimo fato de gorila? Depois era só pô-lo a deambular no meio do programa, só porque sim!

— Que maravilha! Até já estou a magicar uma canção-tema para o macaco…

Na minha cabeça, esta reunião acaba com todos os participantes a tirarem cera do ouvido com o mindinho, enquanto arrotam e bebem uma mini. Quem me dera ter lá estado…

Mas a verdade é que esta malta são uns génios porque… o programa teve um sucesso retumbante (ao ponto de ser várias vezes referido pelos personagens da versão portuguesa do Dragon Ball) . A SIC apenas deu aos portugueses aquilo que os portugueses queriam. E os portugueses queriam o João Baião a fazer amizade com um símio enquanto os Excesso se roçavam nas bailarinas e o pequeno Saul declamava o belíssimo e enternecedor poema, denominado por “O Bacalhau quer Alho”, que o imortalizou na cultura popular nacional.

O programa

O Big Show SIC foi um programa semanal exibido na SIC entre 26 de março de 1995 e 3 de junho de 2001 com a duração de aproximadamente três horas (livra…!), tendo um total de 316 programas. Pelas minhas contas, o Big Show SIC teve cerca de 316 programas a mais do que aqueles que deveria ter tido.

Assim, uma grande parte das tardes de sábado eram dedicadas a esta miscelânea de conteúdos, apresentando um sorridente João Baião a pular e saltitar o programa inteiro, envergando um bonito fato florescente e de cores berrantes.

Uma das particularidades do Big Show SIC era a já mencionada participação de um simpático símio que se apresentava como a única criatura em todo o programa que tinha, efetivamente, bom gosto. Para quem não se lembra, uma das rubricas do programa consistia em convidar cidadãos anónimos para “cantar”. Como seria de esperar, a qualidade destas interpretações era, na maioria dos casos, um atentado aos tímpanos, cabendo ao provedor da qualidade musical – o Macaco Adriano – irromper pelo estúdio sempre que a qualidade musical descia para níveis abomináveis, levando às costas a voz de cana rachada que estava a assassinar uma qualquer canção conhecida.

O tipo que vestia a máscara do Adriano acabou o Big Show SIC com uma musculatura nos costados que lhe valeriam a entrada em qualquer ganadaria de renome, tal a quantidade de gente que levou às costas ao longo dos anos.

A amizade de uma vida

O tema de abertura

Qualquer programa de televisão na década de 90 apenas poderia aspirar a subsistir no difícil mundo do audiovisual caso tivesse uma música de abertura orelhuda e de fácil memorização. E o Big Show tinha.

Como não podia deixar de ser, rapidamente no pátio da minha escola primária a belíssima letra da canção foi profanada por um iluminado tremendamente ingénuo, que numa idade em que o Humor Escatológico (vulgo piadas de cocó e xixi) era o centro das nossas jovens vidas, achou que seria hilariante substituir as palavras “Big Show Sic” por “a pilinha do Santos”.

Era bonito quando todo o recreio cantava em uníssono que “A pilinha do Santos está no ar”, num tom angélico e celestial, que ainda não atingia a perversidade desta afirmação.

Todos adorávamos este momento.

Exceto, talvez, o Santos.

Por razões que a razão desconhece, o rapaz nunca apreciava quando o seu órgão genital era alvo de louvor coletivo, oferecendo sopapos aos trovadores. Há gente que nunca está satisfeita.

O contributo do Big Show Sic para a Música Nacional

Um exemplo da qualidade cultural do Programa e da promoção da boa música junto da pequenada

Este programa dos nossos amigos Baião e Adriano foi responsável por apostar e lançar para a ribalta alguns dos maiores nomes da música e da cultura portuguesa. Assim, eram presença regular no programa génios da canção como Emanuel, os Excesso, os Milénio, Ruth Marlene, Toni Carreira, Iran Costa, as Antilook, Ágata ou o já mencionado Saúl. Até fiquei com pele de galinha ao enunciar todos estas personalidades.

Aqui está, sem dúvida, a nata do cancioneiro nacional.

Podemos, por isso, concluir que a contribuição do Big Show Sic para a promoção e divulgação da cultura nacional foi imensurável.

Já não se fazem programas destes…

(e ainda bem!).

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