As Tartarugas Ninja

As Tartarugas Ninja

Janeiro 17, 2020 1 Por Francisco Ramalheira
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A mítica abertura

Sabem qual é a fórmula secreta para criar um desenho-animado de culto?

É muito simples: peguem em vários conceitos patetas e aparentemente impossíveis de correlacionar, misturem tudo e voilá! Não acreditam? Querem um exemplo concreto?

Era uma vez quatro tartarugas mutantes, que viviam no esgoto, são ávidas praticantes de artes marciais e protegem a cidade dos mauzões. O seu mestre de luta é (obviamente) uma ratazana peluda e o seu prato predileto é (naturalmente) pizza. Esta miscelânea de conceitos peculiares e aparentemente idiota só poderia resultar num dos mais icónicos desenhos animados para a minha geração.

As Tartarugas Ninja foram um grande fenómeno cultural no início dos anos 90. Começando por ser uma BD publicada nos Estados Unidos em 1984, criada por Kevin Eastman e Peter Laird, o sucesso das tartarugas mutantes foi de tal forma que levou a que os quadradinhos chegassem à televisão em 1987. No entanto, ao contrário do que se poderia antever, a série não teve sucesso imediato, e apenas após o lançamento do primeiro filme em 1990 é que a turtlemania se instaurou por todo mundo. No total, entre 1987 e 1996 foram produzidos 193 episódios.

A suberba História

Splinter é um mestre ninja que vivia no Japão e que, após ser banido do clã, mudou-se para Nova Iorque, onde é obrigado a viver nos esgotos, na companhia das sempre adoráveis ratazanas. Um dia caem acidentalmente na sua humilde habitação (vulgo esgoto) quatro tartarugas estranhamente cobertas por uma estranha substância que as transforma em humanoides. Quando Splinter as tenta salvar acaba por tocar nessa substância, tornando-se numa ratazana.

Chupa Hollywood.

Splinter adota as quatro tartarugas como seus filhos e ensina-os a combater, tornando-os capazes para derrotarem a horda de vilões que, por coincidência, chega a Nova Iorque exatamente na mesma altura que o treino das tartarugas acaba. Estes inimigos são liderados por Shredder, o vilão típico com músculos, máscara e um capacete demasiado parecido com um penico da era vitoriana. Mas o pior — e mais ridículo — inimigo era mesmo o Krang, uma espécie de lombriga gigante cor-de-rosa que usa um corpo mecânico enorme para se locomover.

Shredder (o tipo com o penico da era vitoriana) e Krang (a lombriga)

Na sua demanda heroica, as tartarugas podem contar com a ajuda da sua amiga repórter April O’Neil, uma moça que apresenta uma paixão tórrida pelo amarelo.

A caracterização das tartarugas

Para se distinguirem umas das outras, cada tartaruga tem uma máscara de cor diferente, empunhando a sua arma característica, tendo em comum apenas a paixão assolapada por pizza.

Splinter dá a cada uma das tartarugas um nome de um grande artista da época do renascimento italiano: Leonardo, Donatello, Rafaello e Michelangelo.

Estes quatro senhores já tiveram a honra de receber inúmeras homenagens ao longo dos anos (principalmente a título póstumo, que, como todos sabemos, é quando os artistas merecem ver o seu trabalho reconhecido), mas duvido que tenham ficado tão orgulhosos como verem o seu nome ser associado a um desenho animado infantil.

Se daqui a uns anos houver uma animação para crianças com uma ténia chamada Ramalheira, que gosta de couve de bruxelas e combate o crime com umas maracas… Aí sim, atingirei a plenitude da felicidade.

Quanto às tartarugas, Donatello era a que tinha a bandana roxa, tinha como arma um bastão e era o engenhocas do grupo, Leonardo tinha a bandana azul e era o líder do quarteto mutante, sempre sério e responsável, tendo como arma duas katanas, enquanto Rafaello era o guerreiro da trupe, lutava com duas adagas e tinha a bandana vermelha. Por último, Michelangelo tinha uma bandana laranja e usava umas matracas sendo o palhaço do grupo.

Escusado será dizer qual era a minha tartaruga preferida.

Em Portugal

A série estreou em Portugal em 1991, sendo transmitida pela RTP1, aos sábados de manhã, na versão original com legendas em português. Em 1994, a série passou na SIC no Buéréré, desta feita já com dobragem portuguesa, tendo sido aqui que conheci as aventuras destas tartarugas mutantes. Daí que quando ouça falar dos grandes artistas renascentistas, os associe imediatamente a essa figura icónica da cultura pop nacional que é a Ana Malhoa. Estes pintores não mereciam. Aliás, ninguém merecia.

Na minha humilde opinião, As Tartarugas Ninja fazem parte daquilo que, para mim, é a Santíssima Trindade dos desenhos animados dos anos 90, sendo os outros dois lugares ocupados pelo mais popular anime de sempre (Dragon Ball) e pelo clássico que apresenta a obra literária de Alexandre Dumas sob a forma de meigos canídeos (Dartacão). Façam reposições destes clássicos que eu papo tudo.

A turtlemania invadiu os lares nacionais com todo o tipo de bonecada, armas de plástico, cassetes de VHS, cadernetas de cromos e videojogos. Recordo com particular saudade o jogo para a Mega Drive que um dos meus melhores amigos possuía. Se houve um momento nesta vida madrasta em que me foi ensinado o que era sucumbir à perfídia da inveja foi este.

Hyperstone Heist, o famoso jogo da Mega Drive das Tartarugas

Podia não ter o videojogo, mas fui o feliz possuidor das figuras de plástico articuladas e com armas amovíveis das quatro tartarugas, com as quais passei horas infindáveis de aventuras que só existiam na minha cabeça. Até o dia em que o braço do Donatello se perdeu e eu tive de passar a ter de arranjar desculpas criativas para, nas histórias que eu magicava, uma das tartarugas ser maneta.

E depois fazia piadas parvas do género “Donatello dá-me aqui uma mãozinha!” ou “Dava uma mão por uma fatia de pizza”.

E ria-me sozinho.

Era um puto muita parvo.