O Zé e a passagem de ano

O Zé e a passagem de ano

Janeiro 1, 2020 0 Por Francisco Ramalheira
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O Zé, enquanto ser simples que tem na arte de encher o bandulho uma das suas maiores alegrias, fica plenamente satisfeito caso a passagem de ano seja efetuada dentro de portas, enchendo a pança com os mais variados víveres, devidamente regados por bebidas que entorpecem gostosamente os sentidos.

Por isso, o Zé queria passar a passagem de ano no aconchego do seu humilde lar, mas a Maria convenceu-o (através da milenar técnica matrimonial na qual a mulher simula que o casal vai decidir o que vão fazer em conjunto, o marido cai na simulação e acabam por fazer aquilo que o elemento feminino do casal quer) a irem para um hotel finório para o Réveillon, que é como a malta que pensa que é erudita diz “passagem de ano”.

Embora amuado e carrancudo por estar a arrotar mais de 100 euros por poder ter o privilégio de participar naquele Réveillon e por ter de vestir um incómodo fato de gala, o Zé estava a tirar a etiqueta das calças que lhe irritavam o rego com um gesto rude quando o seu amigo Tozé apontou para uma enorme mesa tapada com um lençol de uma alvura imaculada. E cheia de comida.

Os olhos do Zé brilharam e resfolegaram de alegria:

— É agora que vamos recuperar o nosso dinheiro, Tozé — exclamou, exibindo no rosto a determinação férrea de quem sabia que tinha uma missão para cumprir.

Os dois anafados amigos precipitaram-se para a mesa do buffet, qual hienas a atacarem vorazmente uma carcaça, começando rapidamente a pôr à boca os mais variados tipos de croquetes, rissóis, enchidos e pasteis.

— Gostas disso? — Inquiriu Tozé com um semblante de repulsa, enquanto via o Zé a enfiar ostras pela garganta abaixo.

— Nem por isso — concedeu. — Mas está incluído no preço, por isso é para comer.

Diz a sabedoria popular que “de borla o tuga até aceita injeções nos olhos”. O Zé é a personificação do quão certo é este futuro ditado.

Com um pouco mais de argúcia, a parelha de amigos teria achado estranho serem os únicos lambões que se encontravam de volta da mesa. Mas como a argúcia não era propriamente uma das qualidades do Zé, foi necessária uma voz grave e cerimoniosa vir ao microfone fazer o seguinte anúncio:

— Boa noite a todos. Venho por este meio comunicar que, tal como estava anunciado no horário deste Reveillon, a mesa do buffet abre apenas pelas 20h30, pelo que agradecemos que cumpram esta diretiva. Muito obrigado pela vossa atenção e colaboração.

O instinto suicida do Zé levou-o a olhar imediatamente para a sua esposa. Maria estava linda naquela noite, envergando um bonito vestido de alças azul-marinho, que combinava perfeitamente com a cor dos seus olhos e lhe realçava a delgada figura. Esta bonita imagem do vestuário e do bonito penteado contrastava fortemente com o semblante ruborizado, marcado por um olhar assassino que rapidamente disse ao Zé que as suas próximas noites seriam passadas no sofá. A esposa do Tozé envergava a mesma aura assassina, pelo que os dois amigos se entreolharam, suspiraram em conjunto e partiram para a dura batalha que os aguardava.

Cabisbaixos e com o mesmo olhar que os cachorrinhos brindam os donos quando roem os seus chinelos prediletos, os dois amigos acercaram-se das suas caras metades, desculpando-se com uma emoção desmesurada, simulando que a culpa lhe estava a corroer as entranhas, enquanto faziam promessas de um comportamento exemplar para o resto da noite.

Este comportamento exemplar apenas sofreu um ligeiro desvio quando chegaram as 20h30 e o buffet abriu oficialmente, com o Zé e o Tozé a estugarem o passo na direção da mesa, com os olhos vidrados na vasta miríade de gostosos alimentos que estavam à sua disposição, sendo o corolário desta alarvidade o momento em que o Zé quase atropelou uma decana que lhe queria roubar a coxinha de frango que ele estava a galar.

Findada a sumptuosa refeição — na qual quer o Zé, quer o Tozé conseguiram reaver os euros investidos na inscrição para este Reveillon, — teve lugar o momento que o nosso amigo Zé tanto temia: chegara o momento da dança.

Numa noite normal, o Zé invocaria uma antiga lesão no joelho para justificar junto de sua esposa a impossibilidade de a acompanhar naquele momento. Maria adorava dançar, enquanto o Zé tinha a graciosidade de movimentos de um hipopótamo com trissomia. No entanto, apesar da notória falta de jeito do seu marido, a Maria fazia questão de dançar com ele em todas as oportunidades. Após tantos anos de casamento o Zé ainda não conseguira perceber este masoquismo da sua mulher.

Porém, naquela noite, depois do infeliz episódio de alarvidade precoce, o Zé sabia que não tinha margem de manobra para fugir da dança. Por isso, foi um homem resignado que, de mão dada com a esposa, se encaminhou para a pista de dança.

A esperança do nosso amigo era que a quantidade de casais idosos presentes levasse a que ele não fosse o maior pé de chumbo daquela festa. Mas era. Havia até um velhinho de andarilho que conseguia ter mais estilo a dançar do que ele.

E a noite passou-se entre deprimentes sessões de dança, momentos de alarvidade tóxica junto da mesa da comida e amena cavaqueira entre os quatro amigos. Numa altura em que a sua digníssima esposa já apresentava algum cansaço, o Zé rejubilava de alegria perante a perspetiva de já não ter de pôr os presuntos na pista de dança. Mas, com o aproximar das doze badaladas, o nosso pobre amigo ouviu as palavras que mais temia:

— É quase meia-noite, Zé. Vamos dançar pela última vez neste ano?

Ainda assombrado pela promessa que fez de se transformar numa cavalheiro exemplar para aquela noite, o Zé assentiu, enquanto o sabor da bílis fluía-lhe por entre os lábios, fazendo-o sentir-se o ser mais miserável do universo enquanto pegava na mão de Maria e se encaminhava para a pista. Como a música era mais mexida, o Zé efetuava uma dança que o aproximava perigosamente de uma galinha epilética, enquanto orava a todos os santinhos para que houvesse alguma forma de se escapar daquele martírio.

E os santinhos ouviram o Zé. Mas os santinhos tem um sentido de humor bastante retorcido.                     

Uma repentina pontada estomacal comunicou ao Zé que nem tudo estava bem no interior das suas entranhas. Depois da dor, veio uma tremenda má disposição, que lhe esverdeou o rosto e amarelou os olhos. A indisposição foi de tal forma genuína, que nem a Maria pensou tratar-se de (mais) um estratagema do marido para se livrar da tarefa de dançar consigo.

— Estás bem? — Perguntou a zelosa esposa, preocupada com a tonalidade colorida da fronte do homem com quem partilhava o leito.

O Zé abanou a cabeça, e sentindo um refluxo gástrico a querer vir conhecer o mundo exterior, correu desenfreadamente na direção da casa de banho mais próxima. Ao chegar à simpática instalação sanitária, constatou, horrorizado, que todas as sanitas estavam ocupadas, ouvindo o indisfarçável e desagradável som de indivíduos a regurgitarem o jantar. Muitas das portas estavam abertas e o Zé reconheceu o rosto de alguns daqueles vomitadores em série: eram os seus companheiros de refeição que, tal como ele, se açambarcaram da mesa das ostras.

Ao lembrar-se das ostras e o seu sabor, o Zé não aguentou mais, precipitando-se para o lavatório mais perto, despejando os restos dos meigos moluscos que residiam no seu estômago.

Esta foi, portanto, uma passagem de ano diferente para o Zé. Assim, enquanto a sua esposa e amigos faziam a famosa contagem decrescente, característica no final de cada ano, o Zé passou os derradeiros instantes do ano e os primeiros momentos do novo ano sentado numa poltrona de loiça, evacuando de forma ruidosa o resultado de tão desastrosa refeição.

Há piores maneiras de entrar num novo ano.

Mas como o Zé é um homem muito afeto das tradições, não foi pelo facto de entrar no novo ano com as calças para baixo que isso o impediu de fazer as suas resoluções para o prometedor ano que se iniciava.

A primeira resolução de ano novo que o Zé alguma vez fizera foi ainda em criança, quando sua mãe o obrigou a comer doze passas. E a sua primeira resolução foi: nunca mais comer passas.

As passas, no fundo, são uvas idosas, já carcomidas e chupadas pela inevitabilidade do tempo. É como se um canibal preferisse degustar uma simpática velhinha do que um jovem na flor da idade. Há rituais parvos, mas comer passas na viragem do ano bate quase todos.

Assim, e como as dores lancinantes na barriga o impediam de raciocinar em termos, o Zé acabou por fazer as resoluções tradicionais desta quadra, que nunca são cumpridas:

  1. Perder peso – por norma, o Zé costuma prometer isto enquanto está a enfardar uma taça de pudim, com uma rabanada, um cheesecake e ainda está de olho na tigela da mousse. Esta resolução faz com que o Zé acabe por se inscrever no ginásio, local de culto para quem pensa que vai perder peso e se vai transformar num atleta, mas que a partir de fevereiro deixa de aparecer.
  2. Dedicar mais tempo aos idosos da família – esta resolução leva a que, no início de janeiro o Zé fosse lanchar com a sua avó, lanche esse que servia para o relembrar que a pobre senhora era um pouco, digamos, chata, levando a que avó e neto apenas se voltassem a ver no natal seguinte.
  3. Ler mais – numa tentativa opaca de se tornar num ser mais culto e interessante, era regular o Zé prometer a si mesmo que iria ler mais. Mas, invariavelmente, acabava sempre por se confinar à A Bola e ao Record, essas bíblias da boa literatura.
  4. Fazer voluntariado – amiúde, o Zé prometia a si mesmo que iria pensar mais no próximo e iria dedicar umas horas da sua semana a ser melhor pessoa. Mas depois vem o frio da rua e o apelo do sofá, e esta bonita resolução que nos faz pensar que somos melhores pessoas acaba sempre por ser substituída pela visualização dos educados debates futebolísticos da CM TV.