As aulas de Educação Física

As aulas de Educação Física

Dezembro 27, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Para a grande maioria das crianças e jovens portadoras de um pénis, as aulas de Educação Física representavam um verdadeiro maná no mundo escolar. A razão primordial era simples: não tínhamos de estar encafuados numa sala de aula. Só por isso estas aulas já eram libertadoras e motivo mais do que suficiente para ser alvo da nossa mais profunda admiração. Não é por acaso que sempre que havia uma visita de estudo os rapazes iam logo aferir se coincidia com um dia de Educação Física. As viagens de estudo eram o pináculo da vida escolar — pois perdia-se, por vezes, um dia inteiro de aulas! — e se desse com essa visita perder apenas aulas de Matemática ou de Química seria o ideal.

Mas, para além da fantástica componente de não estarmos sentados numa sala de aula bafienta, a Educação Física tinha outro chamariz: o desporto. Uma boa parte das crianças e jovens gosta de praticar os mais variados tipos de desportos e jogos coletivos, pelo que estas aulas eram sempre sinonimo de diversão. Eu junto-me a este coro de amantes do desporto, embora adotasse uma atitude bastante bipolar quanto à Educação Fisica. Passo a explicar: quando o tema da aula era desporto (futebol, vólei, mata, etc) era um dos campeões e adorava as aulas, mas quando a aula incidia sobre…

ginástica

e me obrigavam a praticar uma variada miríade de artes circenses — tais como enrolamentos, salto à corda, pontes, etc — aí já era o trambolho com maior descoordenação motora de toda a região de Lisboa.

Para mim, o mais assustador não era o exercício em si: era a fila para o mesmo, enquanto aguardávamos pela nossa vez para nos esbardalharmos ao comprido num colchão que se queria fofo, mas que, por norma, era mais fino que muitas alcatifas. Durante a longa e penosa fila tínhamos tempo para passar em revista os momentos bem passados na nossa jovem vida, lamentando o facto de não termos passado mais tempo com os nossos entes mais queridos à medida que nos aproximávamos do plinto.

Foi exatamente este objeto criado nas profundezas mais recônditas do inferno que me fez duvidar da sanidade mental do meu professor de então. Lembro-me perfeitamente do quão atónito fiquei quando saltei para cima deste artefacto criado por Belzebu e, o tal professor, com uma descontração e naturalidade quase doentias, informa-me que é suposto eu fazer um enrolamento para a frente, em cima do plinto. Ri-me com gosto, pensando tratar-se de uma piada.

Não era.

Suando mais que o gordo da turma quando corria à volta do campo de futebol, respirei fundo, entoei uma prece à entidade divina responsável pelo departamento dos plintos e atirei-me. Foi um momento bonito para o resto da turma. Para mim nem por isso.

Ainda no âmbito plintiano, recordo que a altura deste trambolho era ajustável, sendo a mesma regulada de acordo com o nível de sadismo do/a professor/a. Recordo um dia em que a nossa professora achou que a turma era arraçada de lebre, pondo o plinto a uma altura aparentemente inalcançável. Abraçando o desafio os alunos foram, um a um, conseguindo saltar por cima daquele obstáculo, até que chegou a altura do individuo da turma que era conhecido por ser o menos dotado de todos para aquele tipo de malabarismos. Talvez se sentindo ferido no orgulho por todos os colegas estarem a conseguir cumprir o desafio, o “António” (vamos chamar-lhe assim para não ferir suscetibilidades) correu como se calhar nunca tinha corrido na vida, saltando no momento certo, preparando-se para dar o impulso necessário para ultrapassar aquele obstáculo. Mas, no último momento, uma das mãos falhou-lhe e a pobre alma embateu com os seus imberbes testículos com toda a força no plinto, ficando prostrado no chão durantes largos minutos, agarrado às suas miudezas maceradas. Hoje o “António” já é pai, pelo que o infame plinto não conseguiu levar a melhor.

Podemos por isso concluir que, para mim, as aulas de ginástica eram tão divertidas como levar um pontapé certeiro no escroto. Mas no meio de toda a minha falta de jeito e descoordenação para estes pinotes acrobáticos havia algo que me incomodava verdadeiramente: o calçado. Aquelas sapatilhas brancas eram o cúmulo da falta de estilo e da parolice.

E olhem que para eu reparar que estava a ser parolo é porque o caso era mesmo grave.

Os testes de Educação Física

Algures no meu quinto ano, o meu professor de Educação Física da altura teve uma atitude reprovável, que ainda hoje não sei como foi aprovada pela escola: fazer testes escritos de Educação Física. Como é possível que uma disciplina que apresenta como principal valência o facto de não termos de estar na sala de aula de repente fica igual às outras? Isto era legal? Não haverá uma alínea sobre isto nos Direitos da Criança?

Quando apresentou o primeiro (ainda por cima sob a forma de teste surpresa), toda a turma ficou largos minutos a contemplar o vazio, ansiando pelo momento em que o sádico stor nos diria que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto.  Mas esse momento nunca chegou.

E a nossa infância nunca mais foi a mesma.

A correlação parva entre Educação Física e a foto de turma

As minhas fotos de turma calhavam sempre num dia em que também tínhamos Educação Física. Resultado? Quase todas as fotos de turma que tenho parece uma agremiação de parolos de fato de treino coloridos, sendo que alguns ainda apresentam as maçãs do rosto rosadas, gotículas de suor na testa e poças nos sovacos. Seria muito difícil trazer o raio de fotógrafo num dia de aulas em que não parecíamos bacorinhos rosados na objetiva? Ainda hoje acho que a minha escola fazia de propósito, de forma a poder ter fotos com elevado índice de labreguice, ficando ali com uma poderosa arma de chantagem, caso fosse necessário.

Era só a minha escola que tinha este incrível sentido de oportunidade?

A dança

Quando cheguei ao secundário, a minha professora de Educação Física de então resolveu brindar-nos com uma atividade que a grande maioria dos rapazes abominava com todas as suas forças: dança. E não era uma dança qualquer! Era rancho! Daquele mesmo folclórico e tudo. Mais parolo só se tivéssemos de dançar rancho com as infames sapatilhas brancas.

Obviamente que, tive de fazer aquilo que qualquer macho alfa digno desse nome teria de fazer numa situação desesperada e delicada como esta: invocar uma lesão no joelho, de tal forma paralisante que me impediria, com grande pena minha, de dançar o malhão. Se uma colega minha podia evocar a vinda do período (sendo que a menstruação afetava a capacidade desta alma fazer desporto umas 3 a 4 vezes por mês), porque não podia eu usar o joelho para evitar parecer uma galinha epilética nestas aulas de dança?