Sozinho em Casa

Sozinho em Casa

Dezembro 6, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Neste belíssimo país à beira-mar plantado, Natal é sinónimo de encher o bandulho alarvemente, de um consumismo exacerbado e acéfalo e … Sozinho em Casa. E vá, embora em menores doses, também de paz, amor e a família reunida.

Sozinho em Casa já tomou de assalto de tal forma a grelha televisiva nacional deste período festivo que, hoje em dia, até já nos sentimos incompletos se não virmos o menino Kevin a desancar na melhor parelha de bandidos de sempre. Já faz parte da tradição nacional e, como tal, é um momento que deve ser eternizado e preservado.

Os anos 90 arrancam …

…com o aparecimento desta comédia que tinha tudo para passar despercebida, mas que se revelou de tal forma bem-recebida pelo público que acabou por marcar a sétima arte desta década

O guião de Sozinho em Casa foi escrito por John Hughes (Breakfast Club, Ferris Bueller’s Day Off, She’s Having a Baby ou Uncle Buck) e dirigido por Chris Columbus (Gremlins, Goonies, Mrs. Doubtfire ou os três primeiros filmes de Harry Potter), contando ainda com a banda sonora de luxo do mítico John Williams (Jaws, Star Wars, Indiana Jones ou Jurassic Park), Sozinho em Casa relata a história de uma família que vai de férias e esquece-se do filho mais novo em casa. Antes de julgarem o par de negligentes progenitores, olhem primeiro para vocês. Quem nunca se esqueceu de um petiz que atire a primeira pedra! Muitos de vós, pelo menos, já tiveram vontade de o fazer. A família McCallister apenas passou das palavras aos atos. Valentes.

A teimosia vence sempre

O filme marcou a diferença desde a sua génese, ao ter sido decidido que a personagem principal seria uma criança de apenas 9 anos. Jogada arriscada, pois por muito bom que fosse o ator (e era), o público iria sempre olhar com desconfiança para esta escolha.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, os filmes vendiam muito ou pouco consoante a estrela de cinema que tinha a sua fuça estampada no cartaz. Um filme com o Mel Gibson ou o Harrison Ford vendia bem nem que contasse a história de um corretor de seguros a preencher apólices durante duas horas. Já a maior epopeia de sempre, com enredos fantásticos, personagens carismáticos e reviravoltas mirabolantes, se tivesse como ator principal, por exemplo, um Camilo de Oliveira a única pessoa que estaria na sala do cinema seria a mãe do Camilo de Oliveira. Com uma criança (ainda) desconhecida como cabeça de cartaz a probabilidade de o filme ter sucesso estava, teoricamente, condenado à partida.

John Hughes e Chris Columbus ainda foram pressionados a mudar ligeiramente a temática do filme, de forma a poder aparecer ao lado da criança um adulto que fosse uma estrela de Hollywood ou, pelo menos, dar mais destaque aos ladrões.

Eles recusaram.

Depois a Warner Bros. — receosa em apostar num filme que parecia destinado ao obscurantismo — recusou-se a dar-lhes o montante pedido para o filme, exigindo cortes orçamentais ou algumas alterações no guião.

Eles recusaram.

Foi quando a Warner já tinha tomado a decisão de cancelar o filme e estava a mandar a equipa de Sozinho em Casa para… casa, quando apareceu a 20 Century Fox, que acreditou no projeto e deu liberdade financeira para os criativos avançarem da forma que queriam.

Mas devido a estas decisões pouco recomendáveis do ponto de vista comercial, os meus amigos John e Chris acreditavam que o seu filme iria receber boas críticas e ser apreciado pelas massas, mas estavam mentalizados para alcançarem, na melhor das hipóteses, um modesto sucesso comercial.

(Estavam tão enganados).

Sozinho em Casa é um filme de baixo orçamento, que não foi planeado para deixar uma marca no mundo do cinema. O objetivo era simples: ser um filme divertido. Mas a verdade é que conseguiu revolucionar o conceito de filmes de natal que, até então, eram na sua grande maioria filmes com muita paz, amor e luz.

Filmes chatos, portanto.

Die Hard (traduzido para português de forma soberba para “O Assalto ao Arranha Céus”) já tinha mostrado, uns anos antes, que no natal também é possível degustar uma bonita pelicula de ação, enquanto Sozinho em Casa nos demonstra que no natal também há espaço para a negligência parental e para vermos dois adultos a levarem porrada no lombo. Obviamente que esta mistura de conceitos vencedores tinha de ter sucesso.

E tem dos melhores slogans de sempre: “A family comedy… without the family”.

O casting

Um dos aspetos mais fortes do filme é, indubitavelmente, o carisma e qualidade dos atores que ficaram com os três papeis principais.

Para este filme funcionar era imperativo que o menino escolhido para o papel principal tivesse uma atuação simplesmente magistral. Sem pressão. Na verdade, o papel de Kevin fora escrito desde o início com o nome de Macaulay Culkin em mente, com John Hughes a caracterizar a personagem tendo o jovem ator que brilhara em Uncle Bem como primeira e única opção para o interpretar.

E Culkin conseguiu a proeza de cumprir todas as altas expetativas que os diretores tinham para ele, revelando-se a alma do filme, alternando os momentos de comédia com os mais fofinhos com a facilidade que apenas está ao alcance de uma criança.

Para completar o bonito ramalhete, era necessário selecionar atores muito especiais para encarnarem o par de ladrões mais azarado e fustigado da História da Sétima Arte.

Na verdade, é difícil imaginar alguém melhor que Daniel Stern para interpretar o papel do desengonçado e pouco inteligente Marv, ou melhor do que o lendário Joe Pesci para dar vida a Harry Lime.

Para o papel de Harry Lime os diretores pensaram ainda em Robert De Niro, Rowan Atkinson, Danny DeVito e Christopher Lloyd, mas a escolha acabou por recair na estrela de Goodfellas e Casino. Pessoalmente, não trocaria Pesci e Stern por ninguém, mas num mundo ideal teria aumentado o número de ladrões para três e acrescentaria à contenda Rowan Atkinson. Se o filme já é bom assim, imaginem ter ainda o Mr. Bean a cair de escadas abaixo, levar com ferros em brasa na mona e levar com pés de cabra nos dentes?

Não sei se Hollywood iria aguentar tamanha epicidade.

Eu pelo menos já tenho as calças molhadas.

A história

A família McCallister prepara-se para passar o dia 25 de dezembro em Paris. Há malta com sorte. Já eu passo numa casa antiga e de paredes finas, por entre as quais o frio siberiano das estepes dos Olivais nos penetra violentamente o lombo. Cada um tem o que merece.

O filme começa com Kevin (interpretado de forma magistral por Macaulay Culkin) a ser alvo de simpáticos ataques de bullying dos seus irmãos e primos, acabando por se chatear e ser indelicado com o seu irmão mais velho Buzz. Os seus pais apanham-no a ser rude com o seu irmão, mandando-o, injustamente diga-se, de castigo para o quarto. A fervilhar com a injustiça que se abateu sobre a sua cabeça loura, Kevin deseja que a família desapareça.

E, no dia seguinte, ela efetivamente desapareceu. Milagre! Feliz Natal Kevin.

Nessa noite, a luz foi abaixo, o que levou a que os despertadores não fizessem a sua função, pelo que a família inteira dormiu muito mais do que seria suposto. Quando finalmente acordaram e constataram que estavam quase irremediavelmente atrasados para perderem o voo, o pânico instalou-se. Assim, no meio de toda a confusão e azafama matinal, os McCallisters saem de casa à pressa, esquecendo-se de Kevin. E, pior do que isso, sem tomarem o pequeno-almoço. Que como toda a gente sabe, é a refeição mais importante do dia.

Que péssimo exemplo para a pequenada.

Quando Kevin acorda e encontra a casa vazia, pensa que seu desejo se tornou realidade e fica tão feliz como… bom… uma criança no dia de natal.

No entanto, esta felicidade é de pouca duração, pois uma parelha de ladrões anda a rondar pela vizinhança e quer aproveitar que a casa dos McCallister está “vazia” para a poderem assaltar tranquilamente.

Cabe ao jovem Kevin a nobre a árdua tarefa de defender o seu “castelo”.

Porrada sem efeitos especiais

E para defender a sua casa da “horda” de convidados indesejados, Kevin só tem uma alternativa: armadilhar a habitação de cima a baixo. Armadilhas essas que vão ser a causa das quedas mais bonitas da História do Cinema.

Numa época em que o CGI não era como hoje, toda a aquela violência desnecessária e tremendamente divertida foi filmada… sem efeitos especiais. Vão lá rever o filme e apreciar a quantidade insana de tralhos majestosos e quedas aparatosas. É um pitéu.

As quedas de Sozinho em Casa são de tal forma espetaculares e majestosas que, ainda hoje, quando os duplos de cinema têm de dar uma queda que envolva, por exemplo, rodopiar pelo ar, esse tralho é apelidado de “Queda à Sozinho em Casa”. Prestígio.

Este foi um dos últimos filmes que tiveram a participação de John Candy

Conclusão

Sozinho em Casa é daqueles raros filmes em que se nota que cada segundo de filmagem foi feito com alma e dedicação. Com amor.

Os conselhos financeiros foram mandados às malvas e John Hughes e Chris Columbus fizeram o filme que eles quiseram. O filme que na sua cabeça era o certo. E quando um criativo tem o privilégio de mostrar a sua criação da forma que a idealizou, a possibilidade de nascer algo de muito especial é muito maior. E só assim seria possível realizar um excelente filme de comédia que consegue harmonizar de forma quase irónica as cenas de pancada gratuita e a enternecedora negligência parental com os valores familiares e humanistas que polvilham o espírito natalício.

Após seu lançamento, “Sozinho em Casa” tornou-se o filme de comédia com maior receita bilheteria de todos os tempos (sendo apenas ultrapassado por “A Ressaca Parte II” em 2011), sendo também, até à data, o terceiro filme mais lucrativo no geral, perdendo apenas para Star Wars e ET.

Nada mau para um filme de baixo orçamento. E com uma criança no papel principal.

E, para mim, será sempre daqueles filmes que recordo com um sorrisinho parolo no rosto. E basta ouvir a soberba banda sonora do senhor Williams para esse sorrisinho parolo vir à janela.