As rotundas

As rotundas

Novembro 23, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Bem-vindos ao mundo encantado das rotundas onde há reis, princesas e parvalhões.

“Heróis” que merecem uma lambada e estão com os copos, dando muitos trambolhões.

O reino das rotundas não é em Portugal, onde fazer uma rotunda corretamente é fantasia!

Rotundas, rotundas, fazê-las bem dá-me uma grande alergia!

Roubando a preciosa letra dessa pérola do nacional cançonetismo que é a música de natal da Leopoldina, venho aqui deixar um desabafo junto da comunidade cacaniana: serei eu ou o único choninhas tanso que faz as rotundas como deve de ser? Ou temos mais algum choninhas desse lado? Manifestem-se que eu não quero estar sozinho.

A mais recente edição do Código de Estrada (livro soberbo, aconselho vivamente a aquisição) entrou em vigor em 2014, e, desde então, os condutores resolveram defecar nas novas normas, havendo ainda acéfalos que vão sair na quarta saída da rotunda mas, pelo sim pelo não, fazem todo o caminho pela faixa da direita, obrigando os choninhas tansos que se metem corretamente na faixa da esquerda quando não querem sair na primeira saída a ter de travar e a olhar para os dois espelhos para não levarem com ninguém em cima, quando na sua saída tem um campeão a fazer a “volta à rotunda na faixa de saída”.

Como esta fraturante questão rodoviária se assume como muito sensível para o intelecto nacional, o Caca vem por este meio, uma vez mais, fazer serviço público, explicando ao seu vasto auditório de meia dúzia de leitores tudo o que necessita de saber sobre este intrincado labirinto que são as rotundas.

Ora atentem:

O que é uma rotunda?

Uma rotunda é um espaço de circulação rodoviário, onde o trânsito se processa em sentido giratório, num único sentido e sempre na direção oposta à dos ponteiros do relógio.

Para os mais broncos: é uma estrada em forma de bola. Antes de entrarem vejam em que direção veem os outros carros e não entrem em contra-mão.

A prioridade

Quando um condutor se aproxima de uma rotunda perde prioridade, devendo ceder a passagem a quem nela circula. A entrada na rotunda, portanto, só pode ser efetuada quando estiverem reunidas as elementares condições de segurança.

Isto significa que aqueles campeões que ao entrar na rotunda aceleram, obrigando aos transeuntes que se passeiam no interior deste belíssimo espaço de circulação rodoviário a efetuar uma travagem estão errados e são, não vamos ter medo das palavras, umas bestas.

A besta da rotunda é uma espécie invasora e que causa mal-estar e repugnância junto das restantes espécies que habitam neste espaço, pelo que é necessário adotar medidas para acabar com este flagelo. Assim de repente, ocorre-me a castração química.

O pisca

Todos os automóveis estão munidos de uma traquitana muito engraçada, cuja utilização acaba por se revelar muito útil para quem anda na estrada. Essa traquitana são as luzes de sinalização (também conhecidas como pisca, no bonito vernáculo tuga) e podem ser usadas e abusadas sem medo! O pisca não magoa, não aleija e não causa vicio. E evita ainda que os condutores que partilham contigo as estradas digam que a tua mãe tem uma atividade laboral noturna e isenta de impostos. É só vantagens!

E se em qualquer espaço de circulação rodoviário o pisca é obrigatório, no imbróglio desorganizado que são as rotundas tugas a sua utilização reveste-se de ainda maior importância.

Passo agora a explicar como devem usar esta moderna e complicada inovação:

  1. À entrada da rotunda, o condutor deve usar o pisca da direita caso queira sair na primeira saída da rotunda ou o pisca da esquerda caso queira prosseguir viagem por qualquer uma das outras saídas. É só isto.
  2. Já dentro da rotunda, enquanto circula na mesma via, deve manter ligado o sinal de mudança de direção à esquerda, exceto quando pretender sair ou mudar para uma via mais à direita, caso em que deve utilizar o sinal de mudança de direção para a direita.

Para quem ainda tenha dúvidas, podem enviar email com as vossas dúvidas. Terei o maior prazer em responder.

É tão bom apitar…

Outro comportamento adorável no condutor português é a sua adoração desmesurada pela buzina.

Claro que se há um caramelo distraído que se está a mandar para cima de nós, temos de apitar com a violência de uma claque de futebol. É para isso que a buzina serve.

Agora aqueles que se servem da buzina como um bálsamo de alívio de stress, após um longo dia de trabalho… Essas pessoas mereciam ser fulminados com um ataque agudo de fezes líquidas. A buzina não é uma bolinha anti-stress. Não é bonito apitar só porque estamos chateados pelo facto de Carla da Contabilidade nos ter traído com o Carlão das obras do lado. Para além de que a buzina parece ter um efeito de repetição, e quando um grunho começa a buzinar, há sempre mais um ou dois que não o querem deixar sozinho, buzinando também. A solidariedade entre os grunhos é um fenómeno cultural muito interessante e merecedora de maior atenção por parte da comunidade científica.

O pináculo da idiotice buzinadeira ocorre nas rotundas. Não no seu interior (e os que fazem a rotunda toda pela direita bem mereciam um coro de buzinas desafinadas a violarem-lhe os tímpanos), mas sim na entrada para as rotundas. Naquelas horas de maior tráfego, e tendo as pessoas que estão fora da rotunda de dar prioridade às que estão dentro, acaba por ser natural que a malta que ainda não entrou neste espaço de circulação rodoviário ter de esperar um bocadinho — às vezes bastante — para terem o privilégio de andar às voltinhas na rotunda.

E claro que é chato esperar. Ninguém gosta. Já estive em vários engarrafamentos em que contemplei o suicídio. Mas amigo… achas que é por buzinares que os coitados que estão à tua frente vão entrar mais depressa na rotunda? Achas que é por ouvirem o Pi-pi efeminado do teu smart que vão mandar a prudência às malvas e se vão atirar de cabeça para o meio daquela selvageria rotundal? E se eles têm um acidente por causa disso? Como te sentirias? Pior que isso: um acidente vai entupir ainda mais a rotunda! E se isso acontece só vais chegar a casa a tempo de tomar um banho, comer uma sopinha e voltar a vestires-te para o trabalho.

Não malbaratem o uso da buzina, meus compinchas.

É esta a minha mensagem para hoje.

Mas em que faixa é que enfio a minha viatura, Meu Deus?

Ao entrar na rotunda, se pretender sair na primeira via de saída, deve ocupar a via da direita;

Se pretender sair da rotunda por qualquer das outras vias de saída, deve ocupar a via da esquerda, metendo os coutos na via de trânsito mais à direita apenas após passar a via de saída imediatamente anterior àquela por onde pretende sair, aproximando-se progressivamente desta e mudando de via depois de tomadas as devidas precauções.

Sabem aquela máxima do “percebeste ou queres que te faça um desenho?”.

Ora aqui está. E ainda por cima é um desenho todo oficialão, oriundo do Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT).

O meu sonho era entrar numa rotunda sem o sentimento de quem vai para uma batalha da qual pode não voltar com vida.

O meu sonho é que à noite a Rotunda do Relógio ou a Segunda Circular pareçam uma concentração de pirilampos e causem o pânico entre os epiléticos, devido às luzinhas dos piscas, todas a serem usadas corretamente.

É um sonho irrealista, eu sei. Mas um homem tem direito a ter as suas fantasias.