O Zé vai à oficina

O Zé vai à oficina

Novembro 16, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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O Zé acordou feliz, como há muito não acontecia. Quase que poderia jurar que conseguia ouvir o alegre e melodioso chilrear dos passarinhos, embora a única bicharada que habitava no seu T0 fossem as amáveis melgas e as simpáticas moscas e não houvesse arvoredo num raio de vários quilómetros, impossibilitando assim a existência de passarada.

E o motivo para a felicidade do Zé era muito simples e plenamente justificado: o Zé estava de folga! A única tarefa que o nosso amigo tinha para aquele dia, que se previa de ócio e diversão, era levar o seu automóvel ao mecânico pelas 09h30, de forma a que o seu amigo Tozé lhe pudesse analisar a luzinha irritante e intermitente que estava ligada no painel. Mas a oficina do seu melhor amigo Tozé ficava a escassos 10 minutos da sua habitação, pelo que o Zé não estava a contar perder mais do que 30 minutos nesta tarefa simples e rotineira.

Com a calma e pacatez impossível de reunir num dia normal de trabalho, o Zé tomou o seu pequeno-almoço sentado, tomou um banho sem ser à pressa e vestiu-se com calma.

Se fosse assim todos os dias, se calhar não andava sempre com a tensão a mil, pensava para si mesmo, enquanto culpava a azafama acéfala do dia-a-dia como a principal causa dos seus problemas de saúde.

Com a calma de um monge tibetano, o Zé saiu de casa pelas 10h15, com margem de tempo mais do que suficiente para guiar com calma e em paz até à oficina. Com um sorriso banana no rosto, o Zé meteu a chave na ignição e rodou-a, sorrindo quando o motor começou a ronronar.

Mas este sorriso banana foi vítima de morte prematura.

Na primeira reta, o Zé constatou, com repudio, que à sua frente estava uma carripana cor de cocó, que se locomovia à estonteante velocidade de 25 km/h. Esticando o seu gorduroso pescoço, o Zé espreitou para fora da janela, na ânsia de descobrir a identidade do Ayrton Senna que estava à sua frente

Tinha de ser um velhote…, constatou resignado ao ver a careca e o cabelo branco do condutor, sabendo que nas ruinhas e ruelas das estradas daquela localidade não teria hipótese de fazer nenhuma ultrapassagem em segurança. É rezar a todos os santinhos que este simpático ancião vire já na próxima saída.

Mas o simpático ancião não só não virou, como achou que 25 km/h era demasiado rebelde para a sua taquicardia, pelo que resolveu optar pela responsabilidade e segurança, baixando o velocímetro da sua farrunca para uns inacreditáveis 20 km/h.

O Zé olhou para o relógio, constatou que estava a ficar atrasado e suspirou fundo, enquanto contava até dez, determinado em não deixar aquele pequenino contratempo estragar o seu tão ansiado dia de folga. E foi assim, num profundo estado de meditação que o Zé foi seguindo o carro cor de cocó a 20km/h, formando-se atrás de si já uma fila jeitosa de meia dúzia de carros, fenómeno para o qual o condutor do carro cor de cocó era totalmente imune, mantendo-se na rota que queria, à velocidade que queria. Já não se fazem homens assim.

Mas a paciência do Zé e dos seus camaradas de transito ridículo estava prestes a conhecer um novo e imponente desafio quando o velhinho do calhambeque causador de tráfico encontrou na rua um amigalhaço da sua geração.

E o que fez o velhote, imbuído de boa cidadania e bom senso?

Obviamente que travou a fundo — causando uma reação em cadeia de travagens a fundo, — parou o carro exatamente no meio da estrada sem qualquer tipo de piscas, baixou o vidro da janela à velocidade de um paralímpico a saltar 200m em barreiras e chamou pelo seu amigalhaço. Amigalhaço esse que devia ter problemas de audição, porque não ouviu o chamamento rouco do perigo público que guiava o automóvel cor de cocó. E o que é o consciencioso condutor resolveu fazer? Obviamente que a resposta mais correta do ponto de vista cívico é sair do carro todo corcunda e manco — deixando-o parado no meio da estrada, como não podia deixar de ser, — e ir atrás do amigo.

Embora tenha sido enternecedor ver dois indivíduos oriundos do período jurássico a darem um sentido abraço, a paciência da fila de carros parados estava a esgotar-se, pelo que o Zé foi o maestro de uma bonita orquestra de buzinas e palavrões cabeludos que as gargantas dos condutores engarrafados entoaram afinadamente e a plenos pulmões. Esta cantoria comoveu os dois amigos velhotes, mas não o suficiente para que se despedissem imediatamente, de forma a deixarem de obrigar toda a gente a perder o seu tempo. Com a calma típica dos grandes caras de pau da história das personalidades sem vergonha, os dois amigos ignoraram estoicamente a fila cada vez mais interminável de carros, deram novo aperto de mão e trocaram mais umas palavras, num tom ameno e acolhedor, que fez com que o Zé sentisse vontade de vazar as vistas com o travão de mão.

Novo coro de buzinadelas misturadas com vozes angelicais a proferir impropérios e o idoso careca e curvado lá se dirigiu para o seu carro à velocidade de um cágado, preparando-se para retomar a marcha.

Estamos a chegar à rotunda, dizia o Zé a si mesmo, enquanto olhava para as horas e uma gotícula de suor lhe escorria pela fronte abaixo. Tem 4 saídas, pelo que a probabilidade de ir atrás deste senhor é de apenas ¼! Por favor, meu Deus, lembra-te de todas as missas a que fui obrigado a ir pela minha avó e livra-me deste terrível flagelo!

Mas o Zé devia ter ido a mais celebrações eucarísticas durante a sua juventude. Pelo menos nesta questão, Deus fez orelhas moucas ao seu pedido e o calhambeque cor de cocó foi exatamente para a saída que levava até à oficina do Tozé.

O Zé teve de ser muito forte para não verter uma lágrima. Naquela altura um miúdo ultrapassou-o com a sua trotinete elétrica. Olhou para o velocímetro e contatou que o ponteiro estava nos 15km/h. Quando se encontrava no limiar do desespero, ouviu o barulho de uma buzina. Atónito, esfregou os olhos para garantir que não estava a sonhar e que o buzinador era mesmo o condutor idoso do carro cor de cocó.

E era.

Parece que o culpado para a redução acentuada da velocidade de 20 km/h para 15 km/h não era o velhote, mas sim o carro lilás e cheio de mossas que, vindo sabe-se lá de onde, entretanto conseguira a proeza de ir à sua frente. Concluindo: naquele momento o Zé ia atrás de duas empatas-trânsito, sendo que o nosso amigo era capaz de apostar o seu testículo direito — o seu predileto — em como no carro lilás estava outro individuo que já chegara à Terceira Idade.

E efetivamente chegara. No carro lilás era possível vislumbrar o famoso penteado em forma de ninho de codorniz — que tanta idosa adotou por esse Portugal fora — que confirmava que o carro lilás tinha uma condutora que ia acelerando e travando bruscamente ao longo da travessia, como se fosse uma criança a aprender a andar de bicicleta.

Naquela altura, o telemóvel do Zé toca. Era o Tozé, certamente alarmado com o seu atraso.

— Então, meu? Onde te meteste? Moras aqui ao lado e estás atrasado! Ficaste encalhado enquanto mandavas uma cagada?

— Não pá… Até sai de casa mais cedo e tudo…

— Não digas mais nada… Apanhaste um avô da estrada, foi isso? Eles gostam de sair à rua a esta hora para apanharem a abertura dos supermercados.

— Pior… Apanhei um avô e uma avó! Estou a andar entre os 15 e os 18 km/h. Se fosse de carroça ia mais depressa… E como sabes, nestas estradas é impossível ultrapassar.

— Txi… um casalinho. Boa sorte, meu amigo. Sê forte. Vou ficar aqui a orar por ti. Muita força e diverte-te aí na procissão.

Carrancudo, o Zé desligou o telefonema do amigo, olhou para o ponteiro do velocímetro que mal passava dos 15 km/h e suspirou fundo. E foi então que um milagre aconteceu.

Com uma sincronização quase perfeita, o carro lilás e o carro cor de cocó galgaram o passeio adjacente e os seus condutores estacionaram desajeitadamente as suas viaturas. Na cabeça do Zé, uma luz celestial apareceu por entre as nuvens acinzentadas e banhou as carripanas causadoras de trânsito, devidamente acompanhada pelo som melodioso de uma harpa. Finalmente iria poder acelerar e chegar à oficina! Mas que maravilha! Deus é grande!

Com o doce aroma da alegria e da liberdade a marinar-lhe nos lábios, o Zé calcou com violência o pedal do acelerador, preparando-se para partir rumo ao horizonte.

Mas o carro do Zé não contribuiu, começando a engasgar-se como se tivesse ficado com uma espinha no goto, estrebuchando durante alguns metros até soltar a flatulência final, recusando-se a dar mais um passo. A luzinha irritante e intermitente que estava ligada no painel acendeu-se com redobrada luminosidade e o Zé deixou tombar a sua cabeça sobre o volante, soluçando descontroladamente.

Atrás de si, formou-se uma enorme fila de carros, que buzinaram em uníssono. Um deles era o carro cor de cocó.