Susana Romana

Susana Romana

Novembro 2, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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A Susana pertence a uma espécie que se encontra em vias de extinção e, como tal, deve ser preservada numa redoma de vidro para não apanhar um vírus, enquanto se procura nos pântanos da Patagónia por um espécime compatível, com quem a Susana se possa reproduzir, de forma a que a Ciência consiga evitar a sua extinção.

E porque é que a Susana Romana é um espécime de inegável raridade? Porque trabalha no mundo do Humor e… Faz questão de não querer ser conhecida.

Obviamente que, como qualquer ser humano, gosta de ser reconhecida pelo seu trabalho. Simplesmente não quer usar o Humor para angariar exposição pública, ganhar mais seguidores ou ter mais Likes. E numa época onde o mediatismo é o sonho molhado de tanta gente, havendo muitos que trocariam de bom grado um testículo perfeitamente funcional por um punhado de seguidores no Instagram ou por uma proveitosa parceria com a Prozis, esta vontade de preservar o anonimato é algo que já não se usa e que, muito em breve, será conversa de velhos ranzinzas nos bancos de jardim.

Na qualidade de pessoa que preza enormemente o anonimato e as maravilhas que é poder ir às compras com calças de fato de treino desbotadas, tshirt largueirona e com buracos e sapatilhas mais velhas que o último título do Sporting, eu percebo perfeitamente a Susana. Se há coisa pela qual nutro particular afeição é não ser chateado.

Escrever: uma paixão antiga

A Susana diz que “apenas” quer escrever.

É disso que gosta.

Esta paixão foi descoberta muito cedo. Era umas oito da manhã quando pela ocasião do seu nono aniversário o seu sapiente progenitor lhe ofertou uma máquina de escrever, traquitana que a Susana fazia questão de levar para todo o lado, de forma a poder dar asas à sua imaginação. A primeira discussão de que se lembra ter tido com o pai, foi exatamente sobre a proibição desumana que lhe foi imposta, que a impedia de levar a máquina de escrever para a praia. Embora o argumento parental se focasse no fundamento de que “a areia estragaria a máquina”, a Susana de nove singelos anos sentiu, pela primeira vez, que no maravilhoso mundo da escrita havia obstáculos que apenas os mais afoitos dos escritores conseguiam ultrapassar ou contornar.

Ainda nos tempos de meninice, a Susana conheceu duas séries que a apaixonaram e que a fizeram ter uma ideia mais concreta do que queria “fazer quando fosse grande”. E se Os Simpsons a deixaram obcecada e a pensar na hipótese de vir, um dia, escrever conteúdos humorísticos, foi Murphy Brown que a levou a pensar que queria ser jornalista, dando-lhe a mão rumo a este curso universitário. No entanto, o curso de jornalismo foi estupendo para a Susana constatar que… não queria ser jornalista. Assim, no último ano de faculdade, inscreveu-se numa vasta miríade de workshops, tais como publicidade, escrita criativa ou teatro, tendo sido nesta última formação que foi convidada a escrever uma peça.

A rampa de lançamento

Sendo o teatro um meio muitas vezes conhecido pelo grande público como uma forma de arte privilegiada para apresentar conteúdo dramático de elevada índole cultural — aliás, (AVISO PARA MOMENTO DE SNOBISMO CULTURAL) as próprias comédias dos primórdios do teatro greco-romano tinham uma forte componente trágica —, a Susana aproveitou esta oportunidade para, naturalmente… escrever uma peça cómica.

Embora a peça tenha sido elogiada pelos seus professores, nunca a Susana pensou que daí poderia advir alguma coisa mais que não fosse o ocasional elogio de corredor. Até que, num belo e soalheiro dia, estava a Susana na fila da cantina, pronta para enfardar uma pratada de rissóis de camarão quando é chamada para uma reunião por um dos professores que lhe elogiara a peça.

A Susana entrou nessa sala desconfiada, com hálito a rissol e não fazendo a mínima ideia da razão para tão inesperada convocatória. Saiu de lá com um convite para trabalhar nas Produções Fictícias.

Não sei como festejou tão feliz sequência de eventos, mas cheira-me que houve rissóis à mistura.

O guionismo

E teve desta forma início a carreira da Susana no guionismo, estando presente no início das Produções Fictícias, o que lhe permitiu trabalhar em vários projetos, assim como estar presente em muitos dos principais momentos desta entidade.

E falar das Produções Fictícias e não mencionar os Gato Fedorento é tarefa complicada, com o grupo de quatro humoristas a conseguir granjear fama de tal forma no mundo da comédia nacional, que houve quem os apelidasse de “Os Monty Python de Portugal”. Para quem trabalha em comédia é difícil obter maior elogio que este. É como quem está a começar a jogar à bola ser comparado ao Ronaldo ou quem se está a iniciar nas lides da música azeiteira ser comparado à Maria Leal. São o pináculo da excelência em cada um dos ramos.

Segundo a Susana, nas Produções Fictícias houve um “antes” e um “depois” dos Gatos, pois este grupo de jovens pândegos mostrou que, em Portugal, era possível ser conhecido fazendo humor, não se chamando Raul Solnado ou Herman. E assim, para alguns guionistas, teve início uma odisseia mediática, na busca desenfreada por um espacinho de luz no palco da fama o que levou a que, na opinião da nossa amiga, tenha havido um certo decréscimo na qualidade de alguns conteúdos.

Mas, por outro lado, o crescimento dos Gato Fedorento levou ao próprio crescimento das Produções Fictícias, levando a que a Susana tivesse a oportunidade de escrever para vários programas e para vários formatos. De todos os projetos em que participou, destaca o “Filho da Mãe” do programa que escreveu em conjunto com Rui Pêgo, assim como o nascimento do canal Q, reconhecendo que foi o trabalho que lhe deu uma maior bagagem profissional.

A rádio

Pouco tempo depois de ter começado a colaborar com as Produções Fictícias, a Susana tem também oportunidade de se estrear no mundo da rádio, primeiramente como copy na Comercial e na Cidade FM e, mais recentemente, fazendo parte da equipa das manhãs da M80, juntamente com a Vanda Miranda e o Paulo Fernandes, sendo a responsável pela rúbrica “Macaquinhos no Sotão”, um espaço para falar de tudo aquilo que tem o condão de enervar o mais pacato dos seres.

Quando convidada para fazer esta rubrica, o instinto da Susana informou-a que a melhor decisão era rejeitar, oferecendo-se para escrever os textos para outra alma iluminada ler. Coube a Vanda Miranda a árdua tarefa de convencer a nossa amiga a sair de trás do teclado do portátil e a deslocar-se, diariamente, à M80 para ser ela mesma a narrar os conteúdos que escrevia.

Embora esta rúbrica seja a responsável por ter trazido um enorme flagelo à sua vida (ninguém merece ter uma rubrica de rádio às 08h50), a Susana reconhece que o facto de ter de entregar diariamente conteúdo humorístico a levou a desenvolver exponencialmente as suas habilidades de escrita, assim como a metodologia do seu trabalho.

A Susana também defende que teve sorte de entrar para o mundo radiofónico numa altura de grande mudança, para a qual contribuíram pessoas como Pedro Ribeiro, que defendem que na rádio moderna não há espaço para discursos demasiadamente elaboradoras e tons de voz de tal forma eloquentes que parecem fantasiosos. A rádio era “muito perfeitinha”, pelo que era urgente humanizá-la. Assim, na rádio atual, os locutores devem “falar como as pessoas” e de “assuntos que as pessoas se identifiquem”, máximas que levaram com que a rádio conseguisse manter o seu espaço, numa era dominada pela imagem.

Os sonhos para o futuro

No mundo encantado da escrita humorística, a Susana diz que há muita coisa que ainda gostaria de fazer, nomeadamente na área da ficção, um ramo que em Portugal o número de oportunidades anda ali pela casa das zero unidades. No entanto, o grande objetivo profissional da guionista é assinar uma grande série de comédia, com boa narrativa e personagens carismáticos, que conseguisse ombrear com a qualidade que já é apresentada em muitos países europeus.

Susana, se precisares de ajuda para o projeto, conta com este humilde escriba. Tenho uma dezena de ideias fantásticas, todas elas passíveis de serem chumbadas numa futura consulta pública da RTP.

A dificuldade em escrever ficção em Portugal originou uma conversa amena — e ligeiramente depressiva — sobre o estado do humor e da ficção em Portugal e da dificuldade em criar conteúdos que fujam das tradicionais (e baratas) telenovelas, devido essencialmente ao facto de que não termos uma indústria de conteúdos organizada e com uma planificação para o futuro, sendo um ramo onde ainda impera o amadorismo e que mereceria uma maior atenção por parte do Ministério da Cultura.

Talvez quando as Touradas deixarem de ser consideradas Cultura, os senhores engravatados consigam alocar nas suas preenchidas agendas um espacinho para estas temáticas. Até lá, a grelha televisiva nacional continuará a passar meia dúzia de novelas por serão, todas elas com a palavra “amor” algures no nome.

Conclusão

Trabalhando agora como guionista freelancer e dando aulas sobre escrita humorística, a Susana terminou a entrevista afirmando que “gosta de escrever em esquizofrenia, escrevendo várias coisas diferentes ao mesmo tempo”, fazendo questão de permanecer no seleto grupo de guionistas que faz um frondoso pirete à exposição pública, apresentando-se como uma profissional como mais de quinze anos de experiencia no ramo, tendo um currículo com passagem pelos mais variados tipos de formatos, desde o programa de humor mais obscuro do Canal Q, até ao êxito nacional que foi o Inspetor Max.

Mas aqui no Caca, para além do trabalho, eu gosto também de falar da pessoa. E num mundo em constante mutação e movimento e onde as pessoas gostam de dizer que não tem tempo para nada e que não gostam de se comprometer com coisa nenhuma, a Susana revelou-se como aquele tipo de pessoa que diz logo que “sim” quando um dos seus alunos a convida para uma entrevista. Não sabia o formato nem para o que era, nem se desculpou com a terrível azafama do dia-a-dia para escapar graciosamente deste convite.

Obrigado por isso.

E espero, sinceramente, que este humilde amontoado de caracteres compilado neste espaço recôndito da internet não te traga qualquer tipo de fama. Afinal de contas, só quero o teu bem.