As festas de anos

As festas de anos

Outubro 19, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Um dos grandes momentos no quotidiano de qualquer criança é saber que no fim-de-semana seguinte para além de, naturalmente, não haver aulas (o que só por si transformava o sábado e o domingo nos melhores dias da semana), haveria ainda espaço para a festa de anos de um dos nossos colegas de turma.  

Mal recebíamos o convite — normalmente um daqueles cartões baratuchos com um trocadilho básico ou uma frase lamechas — ficávamos logo em êxtase, a ansiar por uma tarde de brincadeiras com os amigos, jogos parvos e pausas para enfardar doces e bebidas com gás, que nos entretinham na meia hora seguinte sob a forma de libertação de potentes arrotos.

Saudades das festas de anos dos tempos de meninice.

Como chegar à festa

Nos anos 90 ainda não se usava um objeto que hoje em dia é absolutamente vital para a nossa existência: o GPS. É verdade, quando eu era uma criança, o GPS da época era um croqui muito mal-amanhado, muitas vezes desenhado pelo aniversariante no seu convite, croqui esse que raramente tinha algum efeito prático. Isto significava que, quando íamos pela primeira vez a casa de um colega, era certo de que tínhamos de sair de casa mais cedo, porque era inevitável que o nosso progenitor tivesse de andar meia hora às voltas, por ruinhas e ruelas, à procura da porcaria da morada que vinha indicado no convite.

Às vezes, esta tarefa era ligeiramente simplificada pelos anfitriões da festa, que decoravam a entrada de sua casa com balões e letreiros coloridos com a palavra “Parabéns”. Mas mesmo quando víamos uma porta cheia de balões era perigoso assumir que aquela era a nossa festa. Afinal de contas poderia haver outra festa infantil naquele bairro e seria muito chato entrarmos por uma casa adentro, constatando, só depois de comer umas miniaturas de bola de berlim, que não conhecíamos nenhum dos miúdos que ali estavam.

O local da festa

Por norma, a festa decorria na habitação do aniversariante. Mas se havia amigos com casas com espaço suficiente para duas dezenas de trogloditas “brincarem”, também me lembro de outros que viviam em humildes casebres e que, mesmo assim, albergavam corajosamente mais de 20 crianças. Todas ao mesmo tempo. Mais a família do aniversariante, que continha quase sempre uma tia-avó que mal se mexia e que passava a tarde alapada à mesa a enfardar todo o tipo de víveres, enquanto se queixava “dos miúdos de agora”, sempre que uma pobre e inocente criança passava por si. Uma das memórias mais vividas que tenho é de estar a fazer corridas de patins (porque não?) num corredor de tal forma exíguo que não sei como é que não partimos nada naquela pluviosa tarde de inverno.

Havia também quem optasse para alugar espaços para as festas de anos. Eu, que para alem de ter uma casa de modestas dimensões, muitas vezes festejava o aniversario em conjunto com o meu irmão (tenho a certeza de que os nossos pais programaram isto muito bem para não terem de pagar duas festas de anos em separado… Saúdo-lhes a esperteza e inteligência financeira), pelo que muitas vezes os meus progenitores alugavam um campo de futebol para os putos todos.

Saudades daquelas tardes de início de verão, em que estávamos a jogar à bola das 15h até ao sol se pôr, fazendo apenas pequenos intervalos para beber refrigerantes, comer doces e arrotar o gás em excesso. O momento de cantar os parabéns nestas festas era um martírio, não só por nunca ter sido particular apreciador deste momento em que somos o centro das atenções durante aquela irritante canção de parabenização, mas também porque era a altura em que se juntavam uns 30 e tal putos suados e fedorentos num espaço fechado, abrindo e fechando os sovacos enquanto batiam palmas. Na altura, enquanto elemento pertencente aos putos suados e fedorentos, nunca me queixei, mas os pobres adultos que tinham de levar com o nosso odor certamente prefeririam estar a cantar o “Parabéns a você” no meio de um aterro sanitário.

Os perigos de levar vândalos para a nossa amada habitação

Primeiramente temos a questão clássica do conjunto de bárbaros poder partir alguma coisa. Aliás, a não ser que estejamos a falar de uma festa de anos cujo universo infantil fosse, na sua maioria, composto por meninas, o mais provável é que a festa não acabasse sem que algum objeto acabasse por entregar a alma ao Criador. E este flagelo poderia ocorrer a um simples prato, até aquela terrina de incalculável valor monetário e/ou sentimental, que estava há gerações na família do nosso colega e que tinha sido o único item que a sua corajosa avó judia tinha conseguido trazer consigo, quando escapou da Gestapo nas cordilheiras de Andorra.

Mas partir coisas não era a única calamidade que podia ocorrer numa festa de anos. Recordo-me de uma festa em que descobrimos uma barbie debaixo da cama do aniversariante. “Mas podia ser da irmã!”, dizem vocês. Pois podia, mas ele era filho único. Ou aquela vez que, durante a minha festa de anos, o meu vizinho do lado partiu o vidro da sua janela com uma soberba bolada e o seu eloquente pai saiu disparado para o terraço, com os olhos marejados de raiva, dizendo, a alto e bom som, que o seu querido filho era um grande filho de uma meretriz (a palavra usada não foi bem esta, mas vocês percebem a ideia). De seguida, veio disparada para o terraço a sua esposa e mãe da criança partidora de janelas, clamando por uma justificação para o epiteto de meretriz, utilizando um linguajar capaz de corar as freiras do convento.

Bons tempos. Mudei de casa pouco tempo depois.

E para terminar, vou listar os vários tipos de putos numa festa:

  1. Os que não largam a mesa da comida

Estes são aqueles que se apresentam numa festa como se fossem um etíope subnutrido, pregando o seu olhar na mesa dos doces como se fossem um leão esfomeado a olhar para o traseiro suculento de uma gazela. Estes indivíduos não desalapam de frente da mesa enquanto não devorarem toda a mousse instantânea que a mãe do aniversariante preparou com tanto carinho, fazendo questão de dizer que é caseira.

Uma combinação perigosa é quando um destes putos esfaimados vai correr logo depois de encher o bandulho, aumentando exponencialmente o risco de jatos de vomito jorrarem que nem uma fonte do interior da sua jovem goela.

2. Os que fazem birra para ir embora

Que um miúdo faça birra para se ir embora… até pode ser considerado um elogio para os anfitriões. Que os pais da criancinha birrenta não consigam pôr o trambolho no carro e levá-lo para casa é que já é mais chato.

Isto porque depois os anfitriões ficam lá em casa com dois pais sem mão no seu adorável rebento. Por norma, estas situações acabam com os pais a desistirem, acabando por “ir ficando na festa”, saindo apenas com a sua enternecedora cria adormecer por exaustão com a cabeça encostada ao bidé.

E isto só acontece quando os anfitriões há estão de pijama e prontos para lavarem os dentes.

3. Os que querem sempre jogar à bola, seja em que sítio for

Fazer desporto é saudável e, como tal, tremendamente aconselhável para os mais novos. No entanto, poucos são os portugueses que tem a sorte de ter uma habitação na qual várias crianças com a destreza do Fernando Aguiar possam jogar à bola.

E se há crianças que tem o discernimento de pensar “ok, o meu amigo mora num T0, que ainda por cima está atafulhado de loiças e tralha de cristal. Se calhar jogamos à bola na 2ª feira, na escola”, outras não tinham este bom senso e, quando os adultos davam conta, tinham meia dúzia de manfios encafuados na casa de banho a disputar um derby do 3ºA.

Spoiler Alert: estes jogos de futebol indoor nunca acabavam bem.

4. Os que tem um sentido de humor requintado

Estes são aqueles que se regozijam de alegria cada vez que alguém faz a milenar piada da “festa de ânus”, trocando habilmente um “o” pelo “u”, num trocadilho simples e brejeiro que fazia as delícias das mentes imberbes e imaturas. Muitos homens adultos ainda soltam uma risadinha grunha quando ouvem falar em “festas de ânus”.

Este flagelo levou a que muitos de nós se começassem a referir ao seu evento de parabenização como uma “festa de aniversário”. Tudo para conseguirem evitar os “grunhos dos ânus”.

5. Os que tem capacidade de liderança e que propõem sempre que se jogue um jogo tremendamente idiota

Há pessoas que tem a qualidade inata de serem líderes, arrastando consigo multidões. Na primária, estes líderes fajutos conseguiam arrastar consigo multidões para as brincadeiras mais idiotas de sempre, que, por norma, acabavam sempre com alguém a chorar, joelhos esfolados e o sentimento de culpa a remoer as entranhas dos participantes.

“Pessoal, querem ver se consigo daqui acertar naquele vaso com a pistola de água?”

Conseguiu. Era uma vez um vaso caro.

Bravo.