Templo dos Jogos

Templo dos Jogos

Outubro 5, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Há muitos anos atrás, numa Era longínqua e inóspita, o Homem sobrevivia heroicamente sem Internet, tendo de, por exemplo, passar pelo trauma de ingerir víveres sem os fotografar previamente para o Instagram. Foram tempos difíceis. Muitos ainda não recuperaram das privações desta Era negra para a Humanidade.

Quando a Internet começou a aparecer, para além de a sua utilização ser paga ao minuto (o que a tornava um artigo de luxo para os pelintras tugas), fazer o download de um simples vídeo de 1 minuto era coisa para demorar mais de um dia. Eu não estava a brincar quando avisei que estes foram tempos de enorme privação. Eu ainda hoje verto uma lágrima quando me lembro dos tempos em que fazia um download que demorava horas e que aos 99% a Internet ia abaixo apenas e só porque sim.

Por isso,

a malta que queria estar a par do que se passava no mundo dos videojogos só tinha duas opções: ou comprava as revistas da especialidade ou… esperava pela 6ªfeira para ver o episódio semanal do mítico programa “Templo dos Jogos”.

Hoje em dia, ver vídeos do jogo que tanto aguardamos é a coisa mais natural do mundo, mas nos anos 90 era algo que era exclusivo dos “portões do templo”. E quando constatávamos que iam exibir um vídeo de um jogo que há tanto aguardávamos quase que entravamos em êxtase.

Há relatos de malta a correr pela casa em cuecas, histéricos depois de verem o primeiro trailer de Final Fantasy VIII (e não, por acaso não fui eu).

Com o avançar da idade, percebíamos que o Templo era muito mais do que jogos

O que era o Templo?

Em 1995 a SIC introduziu na sua grelha televisiva um programa absolutamente imperdível sobre a temática dos videojogos. Esse programa era “O Templo dos Jogos”, espaço de culto para todos aqueles que eram apreciadores desta indústria.

O primeiro episódio do Templo

Semanalmente, eram apresentadas as críticas aos jogos mais recentes, divulgavam-se as novidades que estavam para chegar e distribuíam dicas, numa era em que quase todos os jogos tinham combinações maradas de botões para fazer o personagem ficar invencível, para nos dar vidas ou continues ou algo do género. Várias personalidades apresentaram o programa, mas aqueles que mais tempo ficaram no cargo e que vem à memoria dos saudosistas do Templo são David Bernardo, João Maia Abreu e Rita Mendes.

Além de toda a temática do programa e o à-vontade dos apresentadores, o programa pautava-se pelos textos divertidos e cheios de hipérboles escritos e de tom humorístico e descontraído. Lembrem-se que era um programa da SIC, casa também responsável pela hilariante dobragem nacional do anime mundialmente conhecido: Dragon Ball.

Recordo com particular afeição o dia em que vi, em direto, a análise a Super Mario 64, o jogo que me fazia soltar uma gotícula de urina sempre que via imagens e que me fazia sonhar sobre o que poderia ser o glorioso futuro dos videojogos. Mal me apercebi de que, naquele programa, iriam, finalmente, analisar o jogo pelo qual daria de bom grado um testículo (do meu irmão) para o poder ter em casa… Fiquei grudado no ecrã, ansiando por ver qual o valor que seria dado na análise. E quando a tão esperada análise chegou ao fim houve magia. E, pela primeira vez na história do Templo, foi atribuída a pontuação máxima de 100%! A partir daí, a recém-lançada Nintendo 64 transformou-se no oásis que todos os jogadores com sede de videojogos queriam encontrar.

O episódio com a análise a Super Mario 64

Com o sucesso do Templo, surgiram outros programas também dedicados aos videojogos, como o “Cybermaster” ou o “Último Nível”, mas o programa da SIC foi sempre o líder incontestado, ao ponto de eu mal me lembrar dos restantes. Lembro-me vagamente de o Cybermaster ser apresentado por um Pedro Miguel Ramos de cabelo azul que ainda hoje aparece amiúde nos meus mais tenebrosos pesadelos. É impossível o rapaz ter feito aquilo por achar que era um look irresistível para catrapiscar miúdas; deve ter perdido uma aposta muito estupida.

Ninguém usa este cabelo e este colete de livre e espontânea vontade

Depois de ter saído do ar em 1999, o Templo chegou a ter uma breve ressurreição nos primórdios da SIC Radical, em 2002. Mas a falta de carisma dos novos apresentadores e, principalmente, a massificação da Internet levou a que esta nova temporada não conhecesse grande sucesso, terminando abruptamente pouco tempo depois.

O drama de não poder ver o programa

Durante muito tempo, o programa passava na grelha da SIC aos dias de semana de manhã, pelo que era com enorme pesar que me deslocava com a mochila às costas para a escola, sabendo que naquele exato momento estavam a passar vídeos dos próximos lançamentos da PlayStation ou da Nintendo 64. Era impossível alguém ir motivado para uma aula de Estudo do Meio ou fazer uns enrolamentos à retaguarda em Educação Física, sabendo que no Templo iam mostrar imagens do próximo Zelda. Mas, por mais inacreditável que possa parecer, a verdade é que nem pais, nem professores eram minimamente sensíveis a tão poderoso argumento. É incrível como os adultos — frios e calculistas — possam ter as suas noções de prioridades tão trocadas. Enfim, por isso é que o mundo está como está.

Desta forma, em tempo de aulas, a única forma de ver o Templo era proceder á gravação do programa, recorrendo a uma mítica cassete VHS. Mas nem aqui o processo era simples para um pobre petiz que queria conhecer as novidades que iriam ser lançadas para o seu Game Boy, pois nenhum progenitor estava disposto a gastar uma fortuna em VHS para gravar programas infantis. Se fosse para gravar aquele filme piroso de sábado à tarde, que é gravado numa VHS para nunca mais ser visto, sendo barbaramente atirado para o fundo de uma poeirenta gaveta… Aí já estava tudo bem. Agora para gravar o Templo? Ai isso já é um desperdício de dinheiro e espaço!

Nota-se um bocadinho que, apesar de já ter alcançado a bonita marca dos trinta anos, ainda não ultrapassei este trauma infantil?

“Quando eu tiver filhos vou deixá-los gravar tudo o que quiserem!”, dizia eu, no alto dos meus 9 aninhos. E planeio manter essa promessa! Porque um homem a sério nunca deixa de cumprir as promessas que fez. Principalmente quando estas são feitas sob a forma de uma jura com o mindinho.

Benditas as boxes de agora, que permitem gravar tudo e mais alguma coisa para a memória da maquineta. Se fosse preciso gastar dinheiro em VHSs lá teria eu de mandar a promessa plantar couves.

Conclusão

Embora um programa nestes moldes esteja morto à nascença nos dias de hoje, a verdade é que o Templo dos Jogos foi um marco da indústria dos videojogos em Portugal nos anos 90, sendo recordado com imensa saudade por todos os aficionados deste meio, compensando algum amadorismo inicial com a boa disposição de quem gostava efetivamente do que fazia.

Para mim, O Templo dos Jogos vai ser sempre uma referência do meu imaginário infantil e sempre que ouço aquele mítico som do genérico, a minha memoria recua vinte anos, para um tempo mais simples, em que uma criança com uma taça de cereais ao colo enquanto via vídeos de videojogos era sinonimo de uma alegria simples e pueril, tão difícil de encontrar quando as obrigações e responsabilidades da idade adulta nos começam a bater à porta.