Ver a bola com a malta

Ver a bola com a malta

Setembro 20, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Uma das melhores coisas do futebol é podermos disfrutar do mesmo na companhia de amigos, partilhando as alegrias e as tristezas inerentes a este apaixonante desporto, num momento de salutar camaradagem que nos abstrai dos momentos mais difíceis desta vida madrasta. No entanto, todos temos aqueles amigos que tem aqueles hábitos muito irritantes a ver um jogo e que nos fazem ter uma vontade incontrolável de lhes ofertarmos um banano nas ventas. Quanto a nós, somos absolutamente perfeitos e não temos qualquer hábito irritante.

Agora que os campeonatos nacionais e as provas europeias regressaram após o interregno de verão, aproveito para apresentar as manias que nos dão vontade de descalçarmos a nossa meia húmida e suada e a enfiarmos na boca de quem nos está a incomodar a experiência degustativa que é ver um jogo de futebol:

O mister

Este é aquele que aprecia passar o jogo a mandar bitaites, nos quais pretende revelar os seus profundos conhecimentos sobre os meandros táticos do jogo. Caso queiram ser vocês a encarnar este personagem tenho de vos alertar para os perigos adjacentes, pois caso não saibam muito de futebol os vossos bitaites serão apenas ridículos.

Por vezes, o mister evolui para “Freitas Lobo”, começando a proferir frases sem grande sentido, mas que lá para o meio tem uma palavra toda pomposa. Mas o decoro impele-me a alertar-vos para o facto de que a transformação em “Freitas Lobo”, invariavelmente, leva a que levem um banano nas ventas quando disserem que “a basculação do jogo da equipa não está a ajudar a transição entre linhas”.

O pessimista

Este é aquele que já perdeu mesmo antes do jogo começar dizendo regularmente “eu já sabia, este coxo faz sempre a mesma coisa” quando o avançado da sua equipa falha um golo cantado. O pessimista perde esse epiteto e transforma-se em “realista” caso o avançado em questão seja Haris Seferovic.

O supersticioso 

Este é aquele que tem de ter mais cuidado para não ser internado numa ala psiquiátrica, pois apresenta tiques supersticiosos que, para além de inúteis, nos fazem preocupar com a sua sanidade mental.

O supersticioso é aquele que tem uma camisola da sorte (só porque uma vez o seu clube ganhou quando ele a envergava), tem rituais a fazer antes, durante e depois do jogo e culpa-se quando a sua equipa sofre um golo porque ele se “esqueceu de fazer um pino-ponte e comer melancia com piri-piri”, que é o que ele faz sempre que o adversário ataca pelo flanco esquerdo.

Muito dos que estão sediados numa ala obscura do Júlio de Matos começaram inicialmente por apresentar apenas alguns rituais patéticos durante o jogo de futebol. Depois a coisa descontrolou-se e quando deram conta estavam a cantar o malhão de costas para a televisão sempre que a sua equipa marcava um canto.

O gajo que fala de tudo menos de bola 

Este é aquele campeão que não gosta muito de futebol e adere ao evento apenas para conviver com os seus pares. Até aqui tudo bem, o problema é que esta ave rara passa o jogo a falar de outras coisas, quando toda a gente sabe que, durante os 90 minutos, o único tema de conversa socialmente aceite é bola. Mas defecando bem lá do alto nesta lei tacita da nossa sociedade, este individuo fala do trabalho, de política, de economia, de um sinal peludo que lhe nasceu perto do escroto…

Mas quando no grupo há apenas um gajo destes a coisa até corre bem; o problema é quando há dois, que normalmente se sentam em polos opostos da sala, falando aos altos berros de uma marisqueira muito boa enquanto todos os outros discutem se era, ou não, fora de jogo.

Estes tipos mereciam, no mínimo, ser chicoteados nas nádegas com um ferro em brasa.

O gajo que sofre de flatulência

Ver um jogo com amigos é sinónimo de jantares estupidamente calóricos e potencialmente aumentadores de pança. O problema é que, chegando à bonita efeméride dos 30 anos, o nosso estomago já não aguenta com a mesma estoicidade a ingestão deste tipo de viveres.

Resultado? 

Após a refeição tem início uma sinfonia de repercussão capaz de corar muitos compositores clássicos. É particularmente chato quando ocorre no pico do inverno porque temos de optar entre manter o quentinho acolhedor da sala, e ter de aguentar estoicamente o odor de mil cadáveres em avançado estado de putrefação ou abrir a janela para afastar o cheiro nauseabundo, mas para tal temos de levar com correntes de frio siberianas no lombo.

Se há decisões difíceis na vida, esta é uma delas.

O gajo que grita fininho quando a equipa adversária ia marcando

Este é aquele que quando o adversário se aproximava perigosamente da baliza da sua equipa emite um gritinho colegial de tal forma agudo que todos os presentes temem pela sua saúde testicular, parecendo que acabou de sair de um simpático jogo do assobia (relembrar artigo sobre as brincadeiras idiotas dos anos 90).

O gajo que solta impropérios engraçados

Ver futebol e mencionar a atividade noturna e livre de impostos que a mãe do arbitro exerce são duas atividades que são indissociáveis. A piada está quando, nas alturas de maior revolta com o homem do apito e/ou maior desespero com a exibição da nossa equipa, o impropério que vocalizamos de forma natural e espontânea é fora do comum e, porque não, desprovido de qualquer sentido.

Em baixo deixo alguns dos meus favoritos sendo que, por questões de decoro, substitui o infame palavrão pelo jargão técnico:

Vagina de sabão

Pipi da tia às costas

Nariz de pénis de cidadão de etnia africana

Cara de escroto

Mete a bandeirinha no ânus e anda à roda

E assim se termina um artigo com a classe, categoria e elevação que este blogue já habituou a sua meia dúzia de leitores.