O regresso às aulas

O regresso às aulas

Setembro 6, 2019 2 Por Francisco Ramalheira
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Não há adulto que não recorde com saudade os seus tempos de criança e que não inveje qualquer aspeto infantil. Muitos invejam nos mais jovens o seu cabelo espesso e sedoso, outros o físico esbelto e o corpo que não conhece o cansaço. Os mais poéticos sentem falta da pureza e ingenuidade típica de um tempo que já não volta.

Uma inveja de Caca

Já eu, o que mais invejo é mesmo a quantidade obscena de férias a que os sacanas têm direito. Malditos sejam. É que, só no verão, são três meses de diversão ininterrupta! Este é, indiscutivelmente, um dos maiores privilégios que as crianças têm.

Aqueles badamecos têm, pelo menos, 90 dias (90! Irra!) para se dedicarem ao lazer, a dormir, a encher e coçar o bandulho e a jogar à bola. E o pior é que nenhuma criança tem noção da enorme benesse que tem em mãos, pelo que, por vezes não desfruta em pleno desta imensurável liberdade.

A urticária do Caca

Uma das coisas que mais urticária me causava em miúdo era ouvir alguns energúmenos (aos quais apelidava de amigos) dizerem que “já estavam fartos de férias”. Como? Isto é como dizer que se está farto de comer gelado, que já vimos episódios a mais do Dragon Bal ou que já tínhamos jogos a mais para a Mega Drive. Ou seja, são coisas que não fazem qualquer tipo de sentido. Esta malta não pode fechar bem a tampa. A estes tipos que se fartavam de férias era enfiar-lhe um texugo morto pela garganta abaixo, para se deixarem de paneleirices. Agora que são adultos e tem 22 dias úteis por ano devem andar nas nuvens.

As férias são como as gomas: por muito que tenhamos, sabe sempre a pouco! Até o mais tedioso do momento de férias era preferível a um dia da labuta na escola.

As férias de verão são, sem dúvida, uma das mais doces recordações da nossa infância. Os momentos com a família, as idas à praia, os banhos na piscina, as tardes passadas com os amigos, as noitadas de volta do nosso jogo favorito, as idas ao cinema, os gelados, passar o dia descalço e de fato de banho, estar esparramado no sofá a ver desenhos animados… Tudo nas férias de verão era absolutamente maravilhoso. E, por isso, não queríamos que acabasse nunca. As férias de verão eram um sonho do qual nunca queríamos acordar.

O fim do sonho: o Regresso às Aulas

No entanto, havia um momento no verão em que ficávamos com um nó na garganta e com os olhos marejados de lágrimas: quando no intervalo dos desenhos animados matinais começava a aparecer publicidade a material escolar. Tinha chegado a era do infame Regresso às Aulas, período que não só nos indicava que as doces e prazerosas férias estavam a chegar ao fim, mas também que, muito em breve, iriamos ter de passar longas horas num enfadonho centro comercial, local de culto para o consumismo desenfreado, para comprar material escolar e roupa.

Nunca percebi esse conceito de ter “roupa para o regresso às aulas”. Eu já tinha roupa. Da forma como a minha santa avó falava, parecia que tinha o roupeiro vazio e que teria de me passear nu pelo recreio da escola. O que seria perigoso, porque alguém podia tropeçar.

Quem me conhece sabe bem o quão torturante é para mim a aquisição de vestuário. Se for sozinho é simples: vejo o que gosto, experimento (às vezes) e adquiro. Quando era pequeno o ato de comprar roupa nova não era tão simples, pois tinha de experimentar, tirar, voltar a experimentar nova peça, fazer bainha, ouvir a conversa de caracacá entre a senhora da loja e os meus familiares, experimentar nova peça, ouvir comentários sobre o quão bem ia aquela horrorosa camisola de flanela com os meus olhos… E eu ali, a ver a minha juventude a fugir-me por entre os dedos. Pior: constatava que as férias estavam a acabar e eu, em vez de as aproveitar, estava ali a experimentar roupa da qual nem sequer gostava.

O outro momento do Regresso às Aulas em que nos apetecia espetar um lápis no olho era o da compra do material escolar. Aqui a doutrina dividia-se com base no género, ou seja, enquanto para a maioria dos rapazes o ato de comprar material escolar era em tudo semelhante ao de caminhar para um cadafalso no qual nos iriam cortar os genitais com um cutelo bem afiado, para a maioria das meninas era um momento de genuína alegria e divertimento. Não só por o sexo feminino ser, por norma (é melhor sublinhar isto para não receber email de uma enxurrada de feministas a reivindicar sabe-se lá o que), mais dado à atividade de adquirir bens em barda, mas também porque pareciam ter um apreço incompreensível em ter novos cadernos, livros, borrachas…

Segundo elas, o material escolar novo tem “um cheirinho muito bom!”. A mim cheirava-me a trabalho e a horas fechado numa sala. Mas sempre tive o olfato meio avariado.

O derradeiro dia de liberdade

O último dia de férias tinha sempre um sabor a nostalgia no ar. Nostalgia pelos bons tempos passados e que já não voltam. Esta nostalgia era acompanhada por uma imensurável pressão, pois como era o último dia tínhamos de nos divertir a triplicar, pois tínhamos de nos despedir condignamente daquele período tão importante da nossa vida. Mas, por norma, os nossos planos mentais para o último grande dia não passavam do papel, e acabávamos por ser despejados na casa da nossa avó, a fazer exatamente o mesmo que fazíamos em todos os outros dias de férias.

Passado o dia, chegava a noite. A última noite de férias. O jantar até tinha um sabor esquisito. Na nossa cabeça soava a Moonlight Sonata, do Beethoven (eu era uma criança tremendamente culta. Cheguei a adulto e estraguei-me).


Moonlight Sonata

Adiávamos ao máximo a hora do deitar, pois queríamos sorver até ao tutano os derradeiros resquícios das férias. Ao deitar, uma grossa lágrima escorria-nos melancolicamente pela cara abaixo, ao nos despedirmos oficialmente de um ente querido, a quem tanto devíamos e com quem tanto nos divertimos: as férias de Verão.

No dia seguinte chegávamos, cabisbaixos, à escola, dando os bons dias à senhora do portão da escola com o timbre de voz de quem se estava a despedir da liberdade. Mas depois víamos os nossos amigos (muitos deles cuja tromba já não vislumbrávamos há semanas), íamos brincar e contar as tropelias das férias e esquecíamos logo a neura do Regresso às Aulas.

Os miúdos são uma espécie muito esquisita.