Telefonar nos anos 90

Telefonar nos anos 90

Agosto 30, 2019 2 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Vou começar este texto por fazer uma declaração polémica que poderá traumatizar de forma indelével a malta mais nova.

Cá vai: quando era pequeno não tinha telemóvel.

E não, não era um hamish, nem um ermita. E muito menos um hipster.

Durante grande parte dos anos 90, o telemóvel era um artigo de luxo, pesado para xuxu e, como tal, não era para andar na mão de vândalos obtusos (vulgo crianças) que partiam/riscavam tudo aquilo em que as suas manápulas pequenas e gordurosas tocavam.

O flagelo dos telefones fixos

Os mais jovens estarão agora a perguntar-se: “então, mas se não tinham um telemóvel como é que contactávamos com os amigos? Como combinavam coisas? Como sobreviviam?”

Era um processo doloroso, meus caros amigos. A nossa única opção era ligar para casa das pessoas, para um objeto em vias de extinção denominado por “telefone fixo”. E era doloroso porque? Porque qualquer pessoa podia atender. Era uma tragédia.

Quem padece de timidez sabe perfeitamente que um dos maiores flagelos da nossa vida é falarmos com estranhos. Por isso, o ritual de ligar para casa de um amigo e saber que havia a forte possibilidade de termos de encetar conversa de circunstância com alguém que não ele era algo de aterrador.

Lembro-me de uma bela tarde soalheira de umas férias de verão em que liguei para casa de um amigo para o convidar para vir jogar Mega Drive comigo, tendo-me atendido a avó do rapaz, que me prendeu ao telefone por minutos que me pareceram horas, com uma conversa absurdamente desinteressante, à qual tinha de responder cordialmente e fingindo estar tremendamente interessado devido a uma coisa chamada “educação”. Após o interminável monólogo da decana, foi-me dada a informação de que o meu amigo nem sequer estava em casa. Que saudades dos anos 90.

Anos 90: as crianças eram as telefonistas da habitação

Mas o flagelo também se estendia à nossa própria habitação, quando eramos obrigados pelos nossos pais a atender o telefone em casa, sendo que a chamada nunca era para nós e havia uma obrigação tácita em como tínhamos de atender recorrendo ao nosso timbre de hospedeira de bordo. Ou seja, ao atender o telefonema tínhamos de dar a falsa sensação ao atendido de que atender aquele telefonema preenchia por completo todas as nossas necessidades e nos enchia da mais imensurável alegria.

No fundo nós eramos apenas um entreposto infantil, que servíamos para o nosso progenitor/a ter mais tempo para levantar o seu ocioso traseiro do sofá, mandando o “pirralho” à frente para abrir caminho. E aqui está outro momento triste dos anos 90. Agora até podemos falar com os nossos entes queridos enquanto estamos refastelados no sofá ou recostados na alva porcelana a efetuar o cocó. Na altura tínhamos de nos levantar (sacrilégio!) e ir até ao local da casa onde estava feita a instalação telefónica.

Mas voltando ao serviço de telefonista que fazíamos para os nossos pais, muito momento de audição seletiva tive eu quando ouvia o telefone lá de casa a tocar. Mas nem sempre conseguia escapar, pelo que, incontáveis vezes lá tive eu interromper alguma brincadeira ou o meu programa de televisão para ter recorrer ao meu timbre de hospedeira.

As deliciosas perguntas

Todos nós temos, certamente, muitos momentos ao telefone em que não conseguíamos evitar um revirar de olhos. Apreciava particularmente quando atendia o telefone de casa e, do outro lado, me questionavam: “Então? Já estás em casa?”. Se houvesse um galardão para a pergunta mais inteligente da História da Humanidade a grande vencedora teria de ser, invariavelmente, esta.

E se o primeiro lugar estava bem entregue, o segundo tipo de perguntas mais chatas tem de ser aquelas proferidas pelos adultos que, ao ouvirem a celestial voz de uma criança ao telefone, achavam que tinham a obrigação de encetar um longo e fastidioso diálogo com a dita criança. Amigo, eu só interrompi a minha brincadeira com os legos para te atender porque a minha entidade patronal (pais) assim me obrigou. O que eu mais quero é desligar este telefonema e voltar para os meus afazeres infantis!

Neste domínio, saliento perguntas tais como:

  1. “Aqui fala o Tomané. Sabes quem eu sou, não sabes?” – E nós não faziamos ideia de quem é o Tomané. Mas é deselegante afirmá-lo, não é? Afinal de contas, não queremos magoar os sentimentos do Tomané, o tipo que não conhecemos de lado nenhum, pelo que respondemos que “sim, claro que sei quem é”.
  2. “Então e está tudo bem contigo? Que tal a escola?” – Se esta pergunta for feita pela nossa avó, está tudo bem, se é feita por um “Zé” qualquer que nem sabemos quem é apercebemo-nos imediatamente que o adulto do outro lado da linha apenas quer ser simpática e fazer conversa de circunstância connosco. Uma vez mais, a boa educação levava a melhor, pois acabávamos por responder apenas “Está tudo bem, obrigado por perguntar”, quando a nossa vontade era inventar qualquer coisa como “Escola? O meu pai obrigou-me a sair quando completei e pré-primária! Agora trabalho nas obras” ou “Estou agora suspenso da escola porque desnudei o rabo na aula de Educação Musical e soltei propositadamente uma flatulência ao pé da professora, amotinando a turma inteira”. É com pesar que vos comunico que, num misto de educação com choninhas, nunca me aventurei a sair do porto seguro que era o “Está tudo bem, obrigado por perguntar”.
  3. “Ah és o filho do X e da Y? Quantos anos tens?” – E nós respondíamos. E do outro lado ouvíamos um grito agoniante de quem se tinha apercebido da inevitabilidade da passagem do tempo, guinchando “Não é possível! A última vez que te vi andei contigo ao colo!”. E depois tinha início um monologo interminável, no qual muitas vezes contavam a história de como tinham conhecido os meus pais e de como as vicissitudes da vida os tinham afastado. E eu ali, de auscultador preso ao ouvido, com o Game Boy no pause e a gastar pilhas, enquanto uma senhora de meia idade tem uma crise existencial.

Mas aquilo que me enchia de alegria era quando do outro lado diziam, num tom alegre e jovial, “”Ah tens mesmo a voz da tua mãe!”. É exatamente isto que todos os portadores de pénis sonham ouvir. Principalmente quando já estão a entrar na adolescência. Obrigado avó.

O dealbar do novo milénio

Esta era das trevas e do obscurantismo começa a ter fim no início da década de 2000 quando começa a ocorrer a massificação dos telemóveis. Mesmo a tempo da minha entrada na adolescência, evitando assim que tivesse de falar ao telefone com o pai de moças que achasse roliças. Mas mesmo com a chegada dos telemóveis a todos os bolsos, as coisas eram barbaramente diferentes da situação atual.

O meu primeiro telemóvel tinha apenas um jogo (o mítico Snake), tendo a fantástica capacidade de guardar 15 sms na memória e dando-me a opção de escolher o toque de telemóvel entre a dezena de sons irritantes que moravam na memória do telefone. Para mim aquilo era quase ficção científica. Usar o telemóvel para ouvir música, ver vídeos ou ir à net eram conceitos que nem sequer eram sonhados.

Mas mais do que isto, nos anos 2000, não havia pacotes com tudo à borla! Hoje ninguém anda a contar quantos minutos pode falar ou quantas mensagens pode enviar por mês, mas na altura pagavas cada chamada que fazias e cada sms que enviavas. E se o número de caracteres ultrapassasse as 50 já pagavas duas sms. Daí o aparecimento das infames abreviaturas, que vieram poluir o léxico nacional até aos dias de hoje. Foi a partir das abreviaturas que foram introduzidas uma das maiores calamidades que assolaram o nosso país: a linguagem Pita.

Esta linguagem consiste em abreviar tudo o que mexe (mesmo aquilo que por si só já está abreviado). E se trocar um “que” por um “k” ainda pode ser admissível (pois poupa-se dois caracteres), trocar todos os “s” por “x”, era só absurdamente idiota. Eu quando lia sms de pessoas afetadas por esta doença pensava sempre que o seu autor sofria de um estado avançado de “sopinha de massa”. E ria-me.

Desta forma, uma simples mensagem como “Passo agora na tua casa, desce para irmos à piscina” passa a “Paxo ag na t caxa, dexce para irmox à pixcina”.

Quantas horas de adolescência foram perdidas a tentar decifrar mensagens de amigas… Exax horax já ngm max dvolv. K xatixe.