A violência e os videojogos

A violência e os videojogos

Agosto 24, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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No passado dia 4 de agosto os EUA, dois atentados causaram a morte de 31 pessoas no Texas e em Ohio. Acontecimento deprimente e que merecia uma profunda reflexão social por parte dos americanos, mas que, infelizmente, se está a tornar cada vez mais banal.

O presidente norte-americano culpou a internet e os videojogos por esta inusitada violência. De seguida, pediu a pena de morte para os autores dos massacres, atitude violenta que sugere que o senhor presidente tem passado muito tempo na internet e a jogar videojogos. Curiosamente, não fez qualquer abordagem à sua retórica contra a imigração ilegal, que, na humilde opinião de muita gente, contribuiu para o aumento de ataques de motivação racial. Deve ter-se esquecido. São coisas que acontecem.

E não é a primeira vez que o faz. Já em fevereiro do ano passado, depois de um massacre, Trump disse que era preciso tomar medidas contra certos videojogos e filmes, por estarem na origem de comportamentos violentos. E depois deve ter ido pôr mais umas pedras no seu muro na fronteira do México.

Os fãs de hipocrisia têm aqui um petisco.

Os grunhos

Em todos os assuntos sérios há sempre um argumento grunho que os mais rústicos usam para justificar a sua ocorrência.

Querem exemplos?

Violação. Eu acho que a culpa é da pessoa que pratica um ato sexual sem consentimento. Mas há grunhos que acham que como a moça trajava uma mini-saia “estava a pedi-las”;

Violência doméstica. Eu acho que a culpa é da pessoa que agride barbaramente o seu marido/a sua esposa. Mas há grunhos que defendem que “entre marido e mulher não se mete a colher” ou que “se ela o traiu percebe-se que ele tenha perdido a cabeça”.

Um tipo compra uma pistola numa lojinha qualquer, mata meia dúzia de inocentes e a culpa é do GTA e do Call of Duty. Parece-me verosímil.

O problema das opiniões dos grunhos é que os seus doutos argumentos são, por norma, de fácil refutação. Vários estudos demonstram que noutros países há ainda mais pessoas a jogar este tipo de jogos e não há notícia de tiroteios em massa. Outros revelam que, nos Estados Unidos da América, a taxa de crime juvenil está no nível mais baixo dos últimos trinta anos. “Há uma quantidade enorme de pesquisas que prova não haver ligação entre os videojogos e a violência”, garantiu Renne Gittins, diretora da International Game Developers, enquanto que no passado mês de junho, especialistas da Universidade Harvard publicaram um estudo que concluía que os efeitos dos videojogos no comportamento das crianças e jovens é quase nulo.

Mas quem não reconhece os efeitos do aquecimento global dificilmente acredita nos trabalhos de faculdades pequenas, como Harvard.

Não, não sou o único. Eu não sou o único. Não sou o único a culpar os videojogos.

Trump não é o primeiro político a culpabilizar os jogos eletrónicos pela alegada disseminação de uma cultura de violência que desencadeia tiroteios em massa. E não há de ser o último (Mitt Romney ou Jerry Brown também já recorram à muleta dos videojogos para justificar comportamentos socialmente desviantes, sacudindo assim a água do seu hipócrita capote).

Quando se dirigiu ao país, Trump disse que é a «doença mental» e «não a arma, que pressiona o gatilho». Totalmente de acordo. Talvez por isso fosse benéfico não haver facilitismo no acesso a armas a toda a gente, incluído a quem padeça de doença mental. Se calhar ajudava a minorar muito o problema, digo eu.

Basta os EUA olharem para os outros países. Na Europa temos acesso exatamente aos mesmos videojogos que os americanos. Lembra-se de haver tiroteios e massacres? Eu também não. Acham que os europeus (e os portugueses) são menos chanfrados que os americanos? Eu acho que é tudo igual. Chanfrado é chanfrado; não é algo que seja (muito) afetado pela nacionalidade. Não tenho grandes dúvidas que se no Velho Continente houvesse a facilidade de acesso ao armamento que há na terra do xôr Trump, na próxima greve da CP ou da Fertagus alguém se iria passar depois de ficar mais de uma hora à espera em modo “sardinha em lata” enquanto espera pelo transporte coletivo que nunca aparece. Havia de ser bonito.

Os videojogos são aquele puto enfezado que está num canto do pátio da escola a brincar sozinho. Quando acontece algum acidente no recreio é muito mais fácil culpá-lo a ele do que ao brutamontes que te dá um enxerto de porrada quando olhas para ele. Moral da história: é sempre mais fácil atacar o mais frágil.

E entre o lóbi dos videojogos e o das armas é muito fácil identificar quem é o elo mais fraco.

Assumir a verdadeira génese de um problema pode não ser fácil. Mas quem quer cargos de responsabilidade tem de ter a coragem de o fazer, sob pena de fazer figura de tolo. Daqui a nada temos a Amazónia a arder e o presidente brasileiro a dizer que é tudo uma artimanha para lhe tirar votos. Espero que esse dia nunca chegue.

A importância da educação

Agora, há jogos que são violentos e que devem ser interditos a crianças, especialmente aquelas mais impressionáveis? Lógico que sim. Da mesma forma que há filmes, séries ou livros que são dirigidos a um publico adulto e, como tal, não devem estar ao alcance das crianças. Todo e qualquer tipo de entretenimento pode ter valências educativas ou… não, pelo que cabe aos pais das crianças aferir os conteúdos a que os seus filhos acedem. Os pais têm de ser sempre os educadores primários, não podendo depois atribuir as culpas pelos seus falhanços parentais em formas entretenimento.

Se um jogo é catalogado como sendo para maiores de 18 e um pai o adquire para ofertar ao seu “mai novo” pela ocasião do seu sétimo aniversário, a culpa é da criança? É do videojogo e da empresa que o concebeu? Ou é do pai que é acéfalo? Inclino-me, ligeiramente, para esta última opção. Mas apenas ligeiramente.

A indústria dos videojogos

Eu não estou aqui a defender os videojogos. É uma indústria de entretenimento como qualquer outra, pelo que o seu único propósito social é ofertar momentos de lazer a quem os adquire. O que eu estou aqui a fazer é criticar a cobardia de recorrer a este tipo de argumentos fajutos e populistas para evitar olhar para o problema de frente, que teria sempre de passar por uma maior aposta na vertente educativa da sociedade e, obviamente, enfrentar os tipos engravatados e muito importantes que acham que é uma estupenda ideia vender armas nas lojas como se fossem curgetes.

Ter uma arma é uma responsabilidade enorme. O simples premir do gatilho pode tirar a vida a outra pessoa, pelo que o acesso a objeto tão perigoso deveria, obrigatoriamente, ser muito bem controlado.

Segundo a Vox, um terço dos tiroteios em massa do planeta ocorreram nos EUA, sendo que metade das armas detidas por civis em todo o mundo são possuídas por americanos, sendo estimado que por cada 100 norte-americanos, existam 120 armas legais. Números absolutamente impressionantes. É de meter medo aos mais corajosos.

Mas a culpa é do Tetris e do Super Mario.