O Zé vai pôr gasolina

O Zé vai pôr gasolina

Agosto 17, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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A greve é um direito inalienável de um trabalhador. O Zé não só respeita isso, como padece de uma profunda inveja dos grevistas. Afinal de contas, em décadas de profunda labuta nunca teve a oportunidade de reivindicar este seu direito inalienável. E que tanto jeito tinha dado naquela sexta-feira, mesmo coladinha a um feriado, criando assim um gostoso fim-de-semana prolongado.

Tendo a honra de ser um feliz utilizador da soberbamente organizada rede de transportes públicos portugueses, o Zé já estava mais do que habituado às múltiplas greves (é clicar AQUI para relembrar os bons momentos passados), estando já calejado para os efeitos nefastos que o direito inalienável de outrem tem sobre a vida de tanta gente.

Mas para isto o Zé não estava preparado: todos os anos, em agosto, o nosso amigo reserva um miminho para si mesmo, dando reforma ao seu passe e cometendo a extravagância típica de um magnata: ir de carro para o trabalho. Era um mês em que o Zé se dava ao luxo de se abstrair dos comboios apinhados, atrasados e/ou suprimidos, aproveitando o facto de agosto ser o mês de férias por excelência para evitar o transito e levar o seu calhambeque a cair de podre para o trabalho.

Foi, por isso, com pesar, que recebeu a notícia de que a greve dos motoristas de matérias perigosas perigava o seu luxo do mês de agosto, luxo esse que lhe daria 30 dias ininterruptos de férias do sistema de transportes públicos e lhe permitiria recuperar alguma sanidade mental. Zé não estava contra, nem a favor da greve. Os motoristas têm todo o direito de a reivindicar, assim como é compreensível que o Governo tenha interposto uma requisição civil para evitar o caos. Mas que o timing da mesma fez o Zé ter vontade de meter a cabeça numa betoneira, ai isso fez.

Era um Zé carrancudo que se dirigia para um posto de abastecimento, mentalmente preparado para passar longos e infindáveis minutos à espera de abastecer. Mas nada o preparou para o cenário dantesco que encontrou.

Quando finalmente saiu da fila da estrada para entrar na fila no interior da gasolineira, a boca do Zé abriu-se de espanto. E o caso não era para menos. Em toda a gasolineira, homens com bidons corriam pela vida, egoístas abriam o porta bagagens para guardarem 10 bidons de gasolina, carros eram impedidos de circular pelos populares, uma arena de batalha fora construída e o Zé podia jurar que ao lado da máquina para pôr ar nos pneus estava construída uma trincheira. Percebendo que durante muito tempo não iria conseguir avançar ou recuar com a sua viatura, o Zé encheu-se de coragem e veio para a rua, interpelando um velhinho corcunda, de rosto dócil e sorriso afável.

— O que se passa aqui, meu bom senhor?

— Passa-se, meu jovem, que depois de estarmos horas na bicha, os ladrões da gasolineira disseram que o combustível estava esgotado! Esgotado! — O rosto dócil do velhinho endurecera, e a bengala começou a descrever semicírculos violento no ar — Mas houve corajosos guerreiros que invadiram a bomba e descobriram que ainda há jerricans com combustível! E foi assim que começou a batalha. Há três fações: os que querem roubar o combustível aos poucos que ainda o tem, tendo sido eles que cercaram e fecharam a bomba; os que tem gasolina ou gasóleo e querem escapar daqui e os totós que querem devolver o combustível à gasolineira porque “está destinado aos veículos de emergência e pode ser importante para hospitais e isso”.

— E o senhor pertence a que fação?

— Ah… nenhuma. Só cá vim pelo convívio. Sou uma pessoa muito solitária, sabe? Para além de que adoro uma boa confusão. Às vezes acordo bem cedinho só para entupir os serviços públicos como as finanças ou os correios. Imagine que sou daqueles que quando vê um acidente na estrada paro sempre para ver melhor os estragos. Ah… gosto tanto de ver chapa amolgada…

Mandando mentalmente o senhor para um sítio feio (aquele cuja terminologia termina com o nome de uma planta perene cujo bolbo, composto por folhas escamiformes, pode ser usado para temperar comida ou para fins medicinais: o “alho”), o Zé avançou corajosamente, procurando o sítio onde se poderia alistar na fação dos totós, aquela que defendia os mesmos ideais que ele quanto às prioridades no mundo dos combustíveis, mas também por serem catalogados pelos restantes como totós. Afinal de contas, o Zé já tinha um longo e rico historial de vida na arte de ser totó.

Felizmente, não teve de procurar muito para encontrar as suas gentes. Junto da bomba 5 estavam vários grunhos reunidos em roda, entoando em uníssono “Porrada! Porrada!”. No epicentro da contenda estava um individuo anafado, trajado com um impecável fato de treino verde alface, apresentando-se com um intenso odor corporal e com o peludo rego de fora. O badocha estava a dar uns sopapos a um lingrinhas com óculos de massa, polo branco e sapato de vela sem meias, que pertencia claramente ao novo Clã do Zé. No chão, estava poeticamente pousado o motivo da disputa: um singelo bidon de gasóleo.

Imbuído por uma onda de justiça e retidão, o Zé lançou-se para o meio do campo de batalha com o intuito de salvar o seu colega caixa-de-óculos, agarrando corajosamente o badocha por trás. Há muita coisa que o Zé se arrepende de ter feito ao longo da sua vida. Mas este foi o ato irrefletido que mais lamenta.

Mal agarrou o paquiderme por trás, a viscosa camada de suor que lhe banhava as banhas das costas agarrou-se que nem uma lapa aos braços do Zé, marinando-lhe os pelos dos braços com uma camada de suor húmido, polvilhado com um odor execrável. Naturalmente, o Zé tentou de imediato largar o badocha para se poder pulverizar com álcool etílico, mas era tarde de mais: o gorducho fechou os seus braços com força, trancando os do Zé debaixo dos seus suvacos, agindo-os como se de gelatina se tratasse, salpicando de suor todos os que o rodeavam. Parecia um aspersor de rega automática. Mas em vez de água espalhava suor. A multidão estava em delírio com a coragem do Zé, apupando e dando “vivas”. Todos aqueles homens eram machos o suficiente para incentivarem a violência, mostrando toda a sua maturidade ao entoar cânticos de apoio à barbárie, mas nenhum teve a coragem de intervir e “pôr a mão na massa”. Ou, neste caso, pôr a mão nos sovacos de um gordalhufo suado.

— Obrigado, amigo — retorquiu o caixa de óculos escanzelado, enquanto se levantava do chão.

— De nada — respondeu o Zé, nauseado com o perfume que emanava do suvacame. — A sua causa é nobre. Apenas fiz o que estava certo!

— Sem dúvida! Estes palhaços recusam-se a vender combustível e depois tem bidons na arrecadação! Vamos levá-los todos!

Debaixo dos sovacos do pançudo, as mãos do Zé ficaram frias. O seu rosto ficou lívido. A dura realidade dera-lhe uma violenta estalada na face: estava a agarrar os sovacos errados. Aquele betinho não pertencia à fação dos totós.

— Então quem está a lutar para impedir que o combustível de emergência seja levado é…

— Sou eu! — grasnou o gordito fedorento.

Depois deste lamentável incidente, no qual o Zé aprendeu a não julgar ninguém pela aparência, os dois balofos (relembro que o Zé também apresenta uma assinalável saliência na pança) foram encurralados pela maralha de grunhos egoístas que só se preocupavam com o seu depósito, tendo início o confronto que o Zé temeu que fosse violento, mas que acabou por se verificar apenas patético.

Parece que, o milenar proverbio “cão que ladra não morde” também se aplica a trogloditas que perdem toda e qualquer noção de cidadania e vida em sociedade quando em discussão está um tema tão fraturante como a gasolina. Por isso, embora as ameaças de “porrada” fossem inúmeras, a verdade é que apenas houve insultos, ameaças, encontrões e um ou outro ocasional tabefe, sendo que quem dava o ocasional tabefe depois fugia, demonstrando assim toda a sua coragem e valentia.

Foi quando o Zé e o seu amigo banhudo estavam quase a perder a posse do bidon de combustível para a multidão de grunhos que chegaram finalmente os agentes da autoridade, iluminados pela luz celestial que vinha do céu, enquanto cavalgavam nos seus póneis da cor da neve. Ou, pelo menos, foi isso que pareceu ao Zé, de tão aliviado que ficou ao ver a polícia, que rapidamente fez o seu trabalho, mandando os grunhos dispersar, enquanto identificava os mais afoitos.

Como prémio pela sua coragem, audácia e determinação, o Zé e o outro senhor receberam um “obrigado” e um abraço do presidente Marcelo, que informado da batalha energética na bomba de Ranholas correu rapidamente para confortar as vítimas.

Sem gasolina, mas ciente de que fez a escolha certa, o Zé entra orgulhosamente no seu carro, mete a chave na ignição e constata, horrorizado, que o carro não pega. Olha para o ponteiro da gasolina e confere que o mesmo está abaixo da reserva. Enquanto lutava em nome da justiça alguém lhe fanou o pouco e precioso combustível que ainda restava no tanque do seu calhambeque.

O Zé tentou, cerrou os punhos e fechou os olhos, mas não conseguiu evitar que grossas lágrimas jorrassem pelo seu rosto. Foi então que o presidente Marcelo entrou no lugar do pendura e lhe deu mais um forte abraço.