PlayStation

PlayStation

Julho 27, 2019 1 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Os anos 90 foram estrondosos para os amantes dos videojogos. E se na primeira metade da década tivemos a titânica luta dos sistemas de 16 bits, com a Mega Drive e a Super Nintendo a encantarem os adeptos desta forma de entretenimento, sempre coadjuvados pela excelente experiência portátil que o Game Boy oferecia, a segunda metade da década foi dominada pela Sony, uma gigante do entretenimento que se estreou no mundo dos videojogos com a PlayStation, uma maquineta que teve tanto sucesso que se tornou sinonimo de videojogos em muita habitação tuga.

O desenvolvimento de um mito

A origem da PlayStation remonta ao ano de 1990, quando a Nintendo fez nova parceria com a Sony (já tinham recorrido aos engenheiros desta multinacional para criar o chip de som da SNES) para a criação de uma expansão de CD-ROM para a sua 16 Bits. Após vários desentendimentos entre as duas empresas, a Nintendo decidiu cancelar o projeto e fazer outra parceria com a Philips.

Mas a “Play Station X” já se encontrava numa fase avançada de desenvolvimento e o seu engenheiro Ken Kutaragi convenceu a Sony a lançá-lo no mercado como uma consola de videojogos independente. Revoltado com a “traição” da Nintendo, a Sony aprovou o arriscado projeto do jovem Ken, que transformou a Play Station X na sua “Barbie”, sendo a consola oficialmente anunciada em outubro de 1993, demonstrando capacidades técnicas em 3D que arrebataram o coração dos jogadores. No final de 1994 chegava ao mercado japonês a PlayStation (PS1) e um ano depois era lançada nos Estados Unidos e Europa.

Desde o inicio a Sony foi muito hábil no trato com as third party, oferecendo condições muito vantajosas para quem queria produzir software para a consola, conseguindo o apoio de muitas software houses, o que levou a que a PS1 ao longo da sua vida tivesse uma excelente biblioteca de jogos, conseguindo seduzir gigantes como a Squaresoft e a Enix (fundamental para conquistar o mercado nipónico), a EA Sports (muito importante no mercado europeu e americano), a Konami, a Capcom, a Namco ou a Psygnosis..

Desde o início que a 32 Bits da Sony vendeu bastante bem em qualquer dos territórios. Nos EUA conseguiu mesmo a proeza de vender em apenas um dia, mais do que a Saturn tinha conseguido em vários meses. A habilidade e inteligência da Sony na abordagem às software houses resultou a que a sua consola tivesse uma biblioteca rica e variada, com jogos para todos os gostos. Mesmo com a chegada de concorrentes tecnicamente mais poderosas como Nintendo 64 e, mais tarde, a Dreamcast, as vendas da PlayStation não abrandaram, oferecendo aos jogadores uma linha de jogos já estabelecida e de grande sucesso.

No novo milénio, a PlayStation foi gradualmente sendo abandonada e teve sua produção encerrada em 2006, tendo a consola vendido cerca de 100 milhões de unidades em todo mundo, ao longo dos 12 (!) anos em que esteve no mercado. Números absolutamente notáveis e que tornam a PlayStation uma das consolas mais importantes e icónicas da História dos videojogos.

Eu e a PlayStation

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que joguei PlayStation: foi num expositor do Toys R Us do Cascaishopping. O jogo era o Crash Bandicoot. A minha vida mudou ali.

Embora já tivesse visto vários vídeos de jogos a três dimensões no mítico programa “Templo dos Jogos”, não há nada como experimentar por nós mesmos. Fiquei maluco com o que os meus olhos viam. Aquilo era o futuro! Que realismo! Seria possível os videojogos terem gráficos melhores do que aqueles?

No entanto, confesso, não fiquei com o bichinho para ter uma. Naquela altura só podíamos sonhar em ter uma consola e a futura Nintendo 64 iria ter o Super Mario 64.

O problema foi quando este amor platónico pela consola se transformou numa paixão assolapada. Era uma soalheira tarde de verão e eu estava em casa de um dos meus melhores amigos da altura, que tinha acabado de vender a sua Mega Drive para poder adquirir aquela maravilha. Numa época de vacas magras, muitos petizes eram obrigados a venderem a sua consola antiga quando queriam adquirir a novidade do mercado, abdicando assim de uma máquina obsoleta, mas com a qual tinham centenas de enternecedoras memorias. Lembro-me de, nesse dia, no meio da excitação pela consola nova, o meu amigo evocava, amiúde, a memoria da sua antiga consola, que tantas alegrias lhe deu. Penso que até soltou uma lagrimita marota, quando, a dada altura, disse que a PlayStation era muito boa, mas nunca iria ter um jogo do Sonic .

Lembro-me perfeitamente dos jogos que experimentei: Hercules, Tekken 2, Croc… e um tal de Final Fantasy VII. Foi este último que revolucionou a minha imberbe cabeça de singelos 9 aninhos. E a partir daí a aquisição de uma PlayStation tornou-se num imperativo categórico.

A minha PlayStation

Felizmente esta oportunidade veio muito mais cedo do que eu esperava, dando-me assim razões para acreditar na existência de uma entidade divina que zela pela nossa felicidade e bem-estar. Assim, a minha avó foi iluminada pelo espírito santo e resolveu que era uma ideia estupenda comprar uma consola para os seus adoráveis netinhos terem com que se entreterem quando fossem desterrados para a sua habitação nas férias de verão. Assumindo a responsabilidade que a minha condição de “mais velho” da confraria dos netos, dei um passo em frente e indiquei a consola da Sony como a compra mais sensata.

Mal dormi na noite anterior à prometida ida ao Toys R Us para adquirir esta bênção da tecnologia. O bundle da consola era acompanhado pelo eterno Crash Bandicoot 2 sendo que a minha santa avó resolveu distribuir a sua riqueza pelas gentes mais humildes, presenteando-nos com mais um jogo (dois jogos no mesmo dia?! Meu Deus!): Spyro the Dragon.

As principais qualidades da máquina da Sony

A partir daí, foram dezenas os jogos que rodaram na caixinha cinzenta da Sony. Paulatinamente, toda a gente na escola foi comprando uma, transformando o recreio não só num intenso comício de debate e de entreajuda, mas também numa feira de trocas.

A consola tinha inúmeras qualidades, mas a mais marcante penso que foi mesmo o facto de ter conseguido alargar o público-alvo dos videojogos. Assim, através de uma campanha de marketing extremamente bem executada conseguiram desmistificar o videojogo enquanto forma de entretenimento exclusiva para crianças ou para adolescentes anti-sociais e com a cara repleta e borbulhas, mas sim uma forma de lazer como qualquer outra. A Sony conseguiu alargar a sua userbase ao publico juvenil e adulto, oferecendo jogos mais cinemáticos e com características mais maduras. Estes jogos já existiam antes, mas foi a PlayStation que os democratizou e massificou.

A pirataria

Aqui no burgo, o que também ajudou a massificar a consola foi a pirataria.

Num país que apresenta a perigosa mistura de malta chica-esperta e salários rasteirinhos, muitos foram os que sucumbiram à tentação e colocaram um chip na sua consola, podendo assim ter acesso a uma enorme panóplia de jogos copiados pelo preço de um pastel de nata. Mas esta manha, tão tipicamente portuga, de tentar contornar os limites legais e ainda se vangloriar quando conseguiam contornar o sistema nem sempre corria bem. Conheço um tipo a quem a instalação do chip simplesmente derreteu o leitor da consola, pelo que a sua PlayStation entregou a alma ao Criador. Foi um funeral muito digno e bonito.

O chipador, homem honrado e integro, prometeu devolver o dinheiro e “arranjar” uma nova PlayStation ao cliente que se viu orfão de consola. Ainda hoje o pobre coitado está à espera.

A versão portuguesa da Revista Oficial PlayStation

Uma consola que marcou a indústria

A PlayStation é, indubitavelmente, uma excelente consola, com alguns dos melhores jogos de sempre, sendo responsável por ajudar a alterar positivamente algumas mentalidades retrogradas no que a videojogos dizia respeito. É incrível como uma consola pela qual não dava muito no início, acabou por se tornar numa das minhas favoritas de sempre.

Foi simplesmente notável o trabalho da Sony com a sua PS1, conseguindo suplantar com distinção duas concorrentes com muito mais nome e peso no mundo dos videojogos: a Nintendo e a Sega, e marcar indelevelmente os anos 90. Quem teve uma na sua época, sabe bem o tesourinho que tinha ali.