Comida da cantina da escola

Comida da cantina da escola

Julho 12, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Hoje vou abordar uma instituição milenar que tantos pesadelos causou a doces e inocentes crianças: a comida da cantina da escola.

Nos tempos de escola eu era aquilo a que se pode denominar cientificamente como um “esquisitinho de merda”. Neste sentido, assumo corajosamente que esta condição da qual padeço ainda hoje possa ter influenciado a minha perceção sobre a comida da escola. Mas depois lembro-me do dia em que um amigo meu atirou puré ao teto e ele ficou por lá. Hoje em dia já se deve ter fundido com a argamassa sendo uma das paredes mestras da escola.

A lendária sopa

Não podia abordar tão pertinente tema sem referir essa tradição milenar e que tantos dissabores traz às papilas gustativas de milhares de crianças: a sopa. A minha escola — numa atitude que na época abominava e hoje aplaudo com estardalhaço — não só servia sopa às pobres crianças ao almoço, como transformava a ingestão daquela mal-amada mistela de legumes em algo de obrigatório. É preciso ter tomates. E outras hortaliças também.

E aqui não entra em campo a questão da qualidade do alimento. Podem dar a uma criança o creme de legumes mais suculento e gourmet desta vida, que ela vai preferir ingerir um hambúrguer frio e de plástico, comprado numa loja de conveniência de um subúrbio qualquer. Para os catraios, a sopa é o agente da EMEL da roda dos alimentos. Ninguém gosta dela.

No entanto, é inegável que a ingestão de sopa tem nas crianças uma multiplicidade de benefícios. Para mim, o principal é, indiscutivelmente, o incremento da criatividade.

Não era nada fácil livrarmo-nos da penosa tarefa de despejar aquele caldo insipido pela goela abaixo. Por isso, os petizes desenvolveram várias técnicas para tentar evitar este flagelo. A mais fácil era recorrer aos serviços do Monstro da Sopa, esse animal mitológico que às vezes aparecia no refeitório e papava a sopa de toda a gente. O seu nome era Bruno. Quando este meu prezado colega aparecia no refeitório os meus olhos brilhavam de comoção, na esperança de que, naquele dia, não teria de ingerir a malfadada substância.

E quando o Monstro da Sopa não almoçava na cantina? Aí a tarefa de não comer sopa entrava em modo hard, e tinha de recorrer a outros subterfúgios, tais como…

O suborno à “porteira” do caixote do lixo

Havia tantas crianças que, em modo ninja, se esgueiravam para o grande balde do lixo do refeitório para despejar o conteúdo das suas malgas de sopa que, a dada altura, a escola tomou a medida de extrema de contratar uma porteira para o caixote do lixo, que é como quem diz, designar uma pobre auxiliar de educação para ficar de vigia à beira do caixote do lixo, apenas autorizando os petizes a raspar os restos de comida do prato depois de ela dar o seu consentimento. Há trabalhos de sonho.

Este triste acontecimento fez com que a dificuldade em não papar sopa atingisse todo um novo nível. Era necessário agir com astucia. O meu plano era composto pelos seguintes passos:

  1. Ser o melhor amigo da porteira; usando todo o meu charme infantil e juvenil para ser absolutamente adorável aos olhos da simpática senhora;
  2. Deslocar-me ao caixote do lixo em alturas de maior afluência de putos; de forma a que o meticuloso escrutínio que a senhora porteira do caixote sofresse um decréscimo de qualidade.
  3. Treinar os “olhos de Bambi”; técnica infantil milenar que consiste em fazer olhinhos ternos e doces, de forma a obtermos o que queremos (que neste caso era não comer a sopa toda);
Os olhos de Bambi é maijomenos isto

É com incontável orgulho que anuncio ao mundo que a minha média de “não comer sopa” devia ser das mais altas da escola. E se há média no mundo escolar mais importante que esta eu não sei qual é.

A fruta

Ainda no âmbito dos “viveres que a pequenada não aprecia” temos a fruta. A ingestão de fruta durante o período escolar era para mim um processo bastante doloroso por uma questão muito simples: eu detesto fruta madura (relembro o meu estatuto de “esquisitinho de merda” evocado logo no início deste artigo). Sabem aquela pera que parece já puré ressequido ou aquela maçã farinhenta já toda acastanhada? Se me dessem a escolher entre ter de comer uma peça de fruta assim ou ir ao poste se calhar optaria por embater com os meus testículos no poste da escola. Infelizmente, para mim e para os da minha laia, parece que a fruta excessivamente madura era comprada de atacado, ficando dias a marinar nos alguidares de plástico até alguma alma caridosa da cozinha achar que aquele pedaço de comida saudável já não era mais comestível. O problema é que isto apenas sucedia quando as frutas já estavam de tal forma amassadas que parecia que no alguidar estava uma salada de frutas. Tinha caldo e tudo.

Como é que eu me safava da obrigatoriedade escolar de ter de ingerir uma frutinha ao almoço? Muito simples. Pegava numa faquinha para “cortar os podres” e escolhia uma maça ou pera que tivesse muito para cortar. Depois era só esquartejar a dita cuja com mestria, de modo a que sobrasse muito pouco para comer. Mas como a chicoespertice tem perna curta, houve uma vez que fui apanhado e…

Não vou relatar. Ainda tenho suores frios ao relembrar-me do sabor e da textura rugosa daquela maça amarela.

A trupe do cesto

Num cantinho mais recôndito do refeitório tomavam a sua refeição o grupo de crianças cujas mães tinham a santa paciência de lhes preparar todos os dias o almoço. Tive o privilégio de, na primária, fazer parte deste elenco de luxo, que tinha como principal vantagem o facto de não comer sopa. Mas se na primária esta trupe era invejada, a partir do 5º ano, entrar na escola munido de um fofinho cesto de vime não só deixa de ser luxuoso, como passa a ser considerado um ato digno de um portentoso choninhas. Gostaria de dizer que foi por isso que abandonei o cesto e abracei a idade adulta começando a comer na cantina. Mas a principal razão foi mesmo a minha mãe estar cansada de fazer comida.

No entanto, nos meus tempos de choninhas de cesto, contemplei algumas peripécias deliciosas, entre as quais destaco as lutas com o pauzinho de madeira que servia para trancar o cesto ou o choro provocado pelo facto de os cestos serem todos iguais, o que levava a que, por vezes, um puto e enganasse e papasse o almoço de outro.

Mas uma das minhas prediletas é a história do “Bananagate”, quando um puto que era conhecido por ser daqueles todos armadões em bons e que não emprestava o Game Boy a ninguém viu o seu amado cesto ser profanado. Alguém teve a bonita ideia (ainda hoje não sei quem foi, para lhe poder apertar devidamente a sua mão) de castigar o puto mimado pondo uma banana (ou mais?) toda podre dentro do cesto. Quando a dita criança enfia a sua manápula sapuda no interior do cesto emite um gritinho colegial, tirando imediatamente do interior do cesto uma mão repleta de gosma de banana, que lhe conspurcou todo o conteúdo. E se o almoço ainda estava protegido pelo tupperware, as gomas que a mãe do puto mimado lhe punha no cesto foram barbaramente violadas pela banana podre. Houve choro.

Entrou então em campo uma equipa de detetives (vulgo auxiliares de educação) que imediatamente começaram a estudar as provas para aferir quem era o culpado de tão hediondo crime. Uma coisa era certa: a banana não era da vítima. A mãe do balofo nunca lhe mandava fruta.

Provas foram estudadas. Crianças inocentes interrogadas. Um grande circo foi montado.

No dia seguinte, o puto mimado volta a pôr a manápula sapuda no seu cesto e volta a proferir um gritinho colegial. Nova banana podre a conspurcar tudo.

Tão bom.