Stranger Things

Stranger Things

Julho 3, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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É perigoso quando encontro uma série de que gosto muito. Perigoso porque depois deixo de fazer coisas importantes (nomeadamente dormir) para poder papar os episódios todos que existem. Felizmente é raro ter uma paixão assolapada por uma série. Tem de ser mesmo muito boa.

E Stranger Things é mesmo muito bom.

Esta série de ficção científica e terror foi escrita pelos talentosos irmãos Matt e Ross Duffer, decorrendo na década em 1983, aproveitando assim o saudosismo para angariar logo um número jeitoso de espetadores. Acho desprezível aproveitar a nostalgia dos pobres consumidores para, à partida, granjear logo uma base de público que por terem afeição pela década em questão vão dar “uma espreitadela curiosa” à série. É uma tática de marketing de muito baixo nível.

Aproveito este espaço para comunicar que este blogue tem uma rubrica intitulada “Baú dos 90”, na qual este que se assina escreve textos sobre o que mais o marcou nesta saudosa década! Ide ler! CLIQUEM AQUI!

Mas isto é tão bom porquê?

Para mim, um dos muitos pontos altos de Stranger Things é a forma como recria os anos 80. Embora apenas tenha vivido ano e meio nesta década (não me conferindo assim capacidade para me lembrar da mesma), não pude deixar de reparar nos múltiplos elementos culturais da época, nas roupas e nos penteados, na banda sonora que remete automaticamente para os sintetizadores da altura, assim como as inúmeras inspirações nas obras de Steven Spielberg, John Carpenter ou de Stephen King, havendo várias referências a filmes clássicos como ET, Goonies, Stand by Me ou Poltergeist, para além de que o vilão principal tem parecenças com o sempre adorável Freddy Krueger.

Paralelamente ao imaginário oitocentista, temos um enredo que à primeira vista até pode parecer algo batido e sem nada de novo a oferecer, mas a verdade é que à medida que os episódios decorrem somos absorvidos para este estranho mundo que nos faz não ser capaz de descansar enquanto não virmos tudo, pois a história aparentemente simples começa a ganhar contornos cada vez mais misteriosos, sendo pincelada com doses de humor e horror, que nos deixam agarrados ao sofá, dando-nos aquela prazerosa — mas perigosa — sensação de “vou só ver mais um episódio”.

Não querendo estragar a experiência aos sortudos que ainda vão poder ver isto pela primeira vez, vou tentar apenas colocar aqui um singelo teaser do enredo: quatro amigos (que se pode considerar que pertencem à prestigiada comunidade nerd) estão reunidos na cave num intenso jogo de Dungeons and Dragons (tão em voga nos anos 80). Terminada a jogatana, Mike despede-se dos seus amigos Dustin, Lucas e Will, que pegam nas suas ferrugentas bicicletas para regressarem a casa. No entanto, este último nunca chega à sua morada… E apenas a sua bicicleta é encontrada, atirada no meio da floresta.

Está dado o mote para o início de uma grande aventura, com o desaparecimento mistérios de Will a pôr a pequena e sensaborona cidade de Hawkins em alvoroço. Os seus amigos, na ânsia por o encontrarem, acabam por esbarrar numa estranha miúda de cabelo rapado que tem estranhos poderes… Esta rapariga é El, magistralmente interpretada por Millie Bobby Brown, que contribui decisivamente para fazer de Stranger Things uma série de referência.

Um dos pontos de destaque é exatamente este: a qualidade dos atores. E se Stranger Things tem no seu elenco alguns atores já consagrados como Winona Ryder ou Sean Astin (na 2ª temporada), quem brilha verdadeiramente são os atores juvenis, que emanam carisma por todos os poros e que interpretam brilhantemente os seus papeis, fazendo-nos ficar genuinamente preocupados com o seu futuro e se vão conseguir escapar à ameaça do Mundo Invertido. Aliás, a partir de agora não vejo nenhuma série que não tenha no elenco um adorável desdentado.

A chegada de Stranger Things

A estreia de Stranger Things não teve grandes expetativas à sua volta. Para muitos, era apenas mais uma de muitas series que o serviço Netflix estreava em julho de 2016, realizada por tipos desconhecidos e tendo como atores principais cinco atores pré-adolescentes desconhecidos do grande público.

Eu gosto de acreditar que tem qualidade, mais cedo ou mais tarde, acaba por ver reconhecido o seu valor. Felizmente, no caso de Stranger Things, esse reconhecimento veio cedo, sendo alvo de um dos mecanismos de propaganda mais poderosos do mundo: o boca-a-boca.

Não estou a referir-me a um tipo de repenicado beijo de apaixonados, mas sim ao feedback sobre determinada produção cultural que não é propagandeada pela comunicação social, mas sim pelos cidadãos comuns, que utilizam a internet e as redes sociais para partilhar com o mundo a sua douta opinião sobre algo. Foi este feedback dado pelo nicho que viu a série foi de tal forma arrebatador que, aos poucos, cada vez mais pessoas dava uma oportunidade a Stranger Things. E cada vez mais a aconselhavam vivamente na internet, criando assim uma gigantesca bola de neve que levou, merecidamente, a série ao estrelato.

Raramente digo isto, mas neste caso é merecido: obrigado internet.

E quando é que o Caca descobriu isto?

Adorava poder dizer que faço parte do nicho original que “desde sempre acreditou na série” e que a ajudou a disseminar até ao estrelato mundial dos dias de hoje. Mas como a minha mãezinha me ensinou que mentir é feio, não o vou fazer.

Comecei a ver Stranger Things quando a internet estava em alvoroço com a chegada de segunda temporada. E eu, todo armadão em hipster, defecava bem de alto na série do momento, pois achava que não tinha qualquer tipo de interesse para a minha ilustre e letrada pessoa.

Oh Deus! Como estava errado! Perdoa-me! — exclamei eu, prostrado de joelhos no chão e com as mãos na cabeça quando tomei juízo e comecei a ver. E se me tornei mais um fã histérico de Stranger Things, devo-o à função de reprodução automática de vídeos do Youtube, quando após terminar um vídeo me apresenta imediatamente uma curta entrevista aos produtores da série.

É um vídeo curto — pensei eu — Nem vale a pena mudar. E a preguiça, como tantas vezes acontece, mostrou ser a decisão acertada, pois foi desta forma que pude ver os irmãos Duffer a referiram quais eram as suas principais fontes de inspiração para a série. Ao ver as gentes do cinema, os filmes e as músicas nas quais Matt e Ross se inspiraram, exclamei para mim mesmo:

Caneco! Estas são também as minhas principais inspirações! Esta mistela parece um poema de amor aos anos 80!

E em vez de ir dormir, fui ver o primeiro episódio, só para ver como era.

Era bom. Tão bom que a seguir vi mais um episódio. E a seguir vi outro. O dia seguinte no trabalho foi engraçado. E nessa noite acabei a primeira temporada.

Conclusão

A quem ainda não viu este clássico dos tempos modernos recomendo vivamente que, após terminar esta prazerosa leitura, comentar na caixa de comentários o quão arrebatadora a achou e, caso ainda não o tenha feito, subscrever o blogue, que trate imediatamente desta indesculpável lacuna cultural, adquirindo um balde de pipocas para mergulhar na tenebrosa cidade de Hawkins.

A quem já viu, vamos todos dar as mãos e cantar a uma só voz um sentido “Aleluia”, pois a longa espera pela tão ansiada terceira temporada está a terminar!

Esta nova temporada tem de ser apenas absolutamente perfeita. Sem pressão irmãos Duffer!