O Zé vai a uma reunião

O Zé vai a uma reunião

Junho 28, 2019 1 Por Francisco Ramalheira
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O Zé estava ligeiramente nervoso. Daqui a meia hora iria ter uma reunião muito importante com alguns dos indivíduos mais importantes da empresa. Pegando na papelada que lera com atenção na noite anterior, pensou:

Estou bem preparado e documentado. Não há nada a temer. Agora é chegar cinco minutinhos mais cedo para não pôr ninguém à minha espera.

Esta aventura passou-se há alguns anos atrás, quando o Zé ainda era um jovem e ingénuo trabalhador de escritório. Ingénuo ao ponto de pensar que um horário de início de uma reunião era para respeitar. Foi, por isso, com enorme perplexidade que chegou até à sala de reuniões e constatou que era a única alma que lá estava. Entrou em pânico.

Querem ver que me enganei na hora? Ou na sala?

Encarnando o espírito de uma gazela a fugir de um predador, galgou metros até à sua secretaria, de forma a poder confirmar a hora e local da reunião. Aturdido e confuso, constatou que estava certo, pelo que estugou o passo de regresso até à sala de reuniões. Ainda não tinha aparecido ninguém. Limpando o suor que lhe começava a escorrer pela fronte, começou a pensar se os participantes da, supostamente, tão importante reunião não estariam todos irremediavelmente atrasados.

Ficou quinze minutos sozinho, à porta da sala de reuniões, a matutar nesta pertinente questão, lembrando-se das sábias palavras do seu sapiente avô: ninguém tem o direito de usurpar o tempo do outro. O tempo é finito, evapora-se, desvanece-se...

Foi então que, aos poucos, os restantes executivos começaram a aparecer, ostentando o semblante mais calmo deste mundo, bebericando café, rindo-se das piadas tremendamente secas uns dos outros e comentando o decote da secretaria mais devassa da empresa.

Paulatinamente, os senhores doutores iam ocupando os seus acentos à volta da mesa e, rapidamente, o Zé percebeu que, para além de ter sido o único tanso a chegar a horas, fora ele também o único papalvo que passou a noite anterior a ler sofregamente aquela papelada toda, para se inteirar do tema da reunião. Todos os outros evocaram o seu digníssimo estatuto de “doutor” para justificar as suas vidas incrivelmente azafamadas, que os impossibilitou de lerem as páginas do documento. Neste sentido, para além do atraso, os distintos colegas do Zé encontravam-se agora a passar os olhos na diagonal pelo supostamente fundamental documento.

O Zé esperava que o seu patrão, o Dr. Salvador D’Latorre, irrompesse em fúria devido aquela falta de preparação, mas depois viu-o também debruçado sobre a papelada, lendo-a pela primeira vez enquanto comentava com o compincha do lado sobre os prémios de desempenho que iram ser distribuídos em breve pelos colaboradores mais graduados, apesar da empresa naquele ano ter dado um prejuízo bem catita.

Assim, a primeira hora da reunião foi tremendamente produtiva, não tendo sido discutido absolutamente nada da ordem de trabalhos, sendo preenchida pelo atraso dos doutores e pela primeira leitura dos documentos.

Quando a reunião propriamente dita tem início, o Dr. Salvador pede sugestões para que a implementação do projeto seja efetuada com o menor custo possível. Tendo já dedicado algum do seu tempo na noite anterior precisamente a esse ponto, o Zé levantou o braço e deu uma sugestão:

— E se em vez de contratarmos uma equipa em outsourcing, não propormos à nossa equipa de Projetos fazer horas extraordinárias? O pagamento dessas horas fica muito mais em conta que o outsourcing e ainda valorizamos o trabalho da casa.

A resposta foi um silencio sepulcral. O Dr. Salvador tossiu, grunhiu qualquer coisa entredentes sobre “pagar horas extraordinárias” e a “urticária que isso lhe causava” e reunião prosseguiu sem o Zé conseguir perceber se a sua sugestão teve alguma utilidade ou não.

A fase seguinte da reunião foi penosa. Todos queriam mostrar que percebiam muito da poda e mandavam alguns bitaites ridículos, opinando sobre temas que não pertenciam sequer ao seu departamento. Mas apesar de não dominarem todos os temas (o que é normal, pois ninguém sabe tudo) todos queriam fazer valer a sua douta opinião de executivo, impondo o seu ponto de vista, o que originou uma cacofonia de egos na qual as intervenções do Zé apenas foram valorizadas na hora da distribuição das tarefas: o novato ficou encarregue daquelas mais chatas.

Depois chegou o momento do Zé brilhar: era a altura da sua apresentação sobre as vantagens da introdução de uma nova aplicação financeira no sistema.

— Doutores, peço-vos o favor de abrirem a apresentação do email que vos enviei ontem de manhã.

— Qual email? — Grasnou um.

— Não recebi email nenhum! — Apontou outro.

— Eu recebo tantos emails que não tenho tempo para ver todos — Desculpou-se um terceiro, enquanto ajeitava a cara gravata de seda, cujo preço era superior à maioria dos vencimentos dos colaboradores da empresa.

— Eu só trabalho com papel. Gosto de ter os relatórios nas mãos — balbuciou outro, saído diretamente do século XIX.

— Zé, porque é que não imprimiste a apresentação para distribuir pelos doutores? — Perguntou o Dr. Salvador D’Latorre, que, agora sim, estava aborrecido.

— Porque é uma apresentação com mais de 100 páginas, Dr. Salvador. E ainda esta semana saiu um memorando a solicitar que poupássemos mais papel, por isso…

— Isso é para os outros! Reuniões comigo e com os doutores é para vir tudo em papel. Que este erro não se volte a cometer.

Nesta altura, o Zé temeu que o Dr. Salvador padecesse de bipolaridade. Ainda não tinham passado singelas 24 horas desde que ele tinha estado no gabinete do seu superior, tendo sido elogiado pela sua decisão de não gastar aquela enormidade de papel apenas para uma reunião. Agora à frente de todos os doutores, o Dr. Salvador alinhara no coro de críticas ao facto de calhamaços com mais de 100 páginas não terem sido impressos, tendo de se abater meia dúzia de árvores para abater aquele capricho rudimentar.

Apercebendo-se de que não valia a pena entrar em confronto, o Zé desculpou-se e prosseguiu a sua apresentação, sendo amiúde interrompido ou por dúvidas pseudo-intelectuais e que apenas existiam porque o doutor que a formulou não estava com atenção ou por lamentos saudosistas de quem sentia a falta de um monte de mais de 100 páginas para ler na diagonal e que seriam empilhados num canto da secretaria para nunca mais serem lidos.

— Então este novo sistema implica para além do custo do programa o custo de novos computadores? — Questionou o doutor mais calvo da sala.

— Sim, mas estima-se que com este novo sistema o custo seja recuperado em apenas dois meses. A partir daí será lucro — respondeu o Zé.

Aí estava a palavra mágica que fez brotar os primeiros sorrisos nos lábios dos doutores.

— Os meus parabéns Dr. Salvador D’Latorre, por ter pensado nesta solução — congratulou o Dr.Bettencourt d’ Almeyda Loyolla.

— Agradeço meu caro Dr. Loyolla, mas é injusto os agradecimentos serem endereçados apenas à minha pessoa….

Ah, afinal o Dr. Salvador sempre vai ser justo e reconhecer perante todos estes doutores que fui eu que tive esta ideia e que desenvolvi toda esta apresentação!

Afinal de contas isto é um trabalho de equipa…

Obrigado Dr. Salvador por reconhecer o meu trabalho à frente dos doutores mais importantes da empresa!

— Pelo que tenho também de agradecer ao nosso absolutamente espetacular Conselho de Administração, por nos acompanhar sempre de perto e nos dar todo o apoio e carinho necessários.

Nova salva de palmas, desta feita para os doutores mais decrépitos da mesa, que acenaram regiamente, como se figuras reais se tratasse. O Zé não pode deixar de reparar que os doutores da Conselho de Administração eram exatamente aqueles que mais desconhecimento do projeto tinham demonstrado ao longo da reunião.

O Zé sentiu a bílis subir-lhe à boca. Não sabia se o pequeno-almoço lhe tinha caído mal ou se eram os níveis estratosféricos de sabujice que o estavam a enojar. Nunca tinha testemunhado tanta bota a ser tão bem lambida. Naquela reunião todos se lambiam uns aos outros e parecia que quanto mais lambiam mais apreciados eram.

Enquanto o cérebro do Zé chorava, um dos administradores vociferou:

— E se em vez de contratarmos uma equipa em outsourcing, não propormos à nossa equipa de Projetos fazer horas extraordinárias? O pagamento dessas horas fica muito mais em conta que o outsourcing, até porque não as pagamos todas, e ainda valorizamos o trabalho da casa.

O Zé sorriu. Tinha dado aquela ideia há uma hora atrás! E fora rejeitada. O senhor administrador iria ser contrariado e uma parte do Zé estava ansiosa por testemunhar esse acontecimento inédito.

— Excelente ideia, doutor! Não faz qualquer tipo de sentido gastar dinheiro com alguém de fora quando temos recursos internos que podem ser utilizados – Exclamou vigorosamente o Dr. Salvador.

Todos saudaram o doutor pela sua brilhante ideia, dando-lhe palmadinhas nas costas e congratulando-o pelo seu génio.

O Zé não queria acreditar naquilo que via. Fora a primeira de muitas vezes em que viu uma ideia não ser avaliada pela sua qualidade, mas sim pelo grau de “doutor” da pessoa que a sugere. O Zé sentia-se uma mísera e insignificante formiguinha no meio de uma manada de bovinos latagões.

Terminada a reunião, o Zé despede-se (ficando com a nítida sensação de que ninguém daria pela sua falta caso não o fizesse), vai para a casa de banho, deita-se em posição fetal e contempla o suicídio.

Tinha perdido a sua virgindade empresarial. E o projeto que desenhou teve imenso sucesso. E vários indivíduos tiveram chorudos prémios de desempenho à conta de tão inovadora ideia. O Zé não foi um dos felizes contemplados.

A partir daí o Zé passou a ser um empregado de escritório igual a todos os outros daquela empresa. Macambúzio e sem qualquer vontade de inovar, entrando numa espiral de desmotivação na qual os dias passam devagar, mas as semanas passam a correr.