As cadernetas de cromos

As cadernetas de cromos

Junho 21, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Se há entidade que durante a nossa infância quase adquiriu o estatuto de divindade a quem devíamos a nossa total e completa devoção, essa entidade era a Panini. Se a catequese servisse para louvar os feitos da Panini eu ainda hoje lá andava.

Os Deuses da Panini eram os responsáveis por trazerem à pequenada um dos maiores prazeres que podíamos sentir nas nossas jovens vidas, inundando as papelarias de todo o Portugal com esse objeto mítico e de lendas que era a Caderneta de Cromos.

A vertente social

Numa época saudosa e que já não volta em que uma das nossas maiores preocupações era que não saíssem repetidos na carteirinha que estávamos a abrir, colecionar cromos revestia-se como uma atividade de índole social. Na impossibilidade — lógica — de os nossos progenitores não nos poderem ofertar as carteirinhas suficientes para completar a coleção, tínhamos de pegar em todos aqueles repetidos que não saiam, fazer um montinho bonito, pô-lo na mochila e levá-lo para a escola, na ânsia de que os nossos repetidos fizessem alguém muito feliz, ao mesmo tempo que os repetidos de outrem fossem a razão do nosso intervalo da manhã valer a pena.

Para um tipo tímido e que aprecia muitíssimo não encetar conversas com indivíduos que não conhece, o nobre objetivo de completar uma caderneta de cromos levou-o a ultrapassar essa barreira da sua timidez, integrando os círculos do recreio escolar onde havia lugar a trocas de cromos (uma espécie de feira de Carcavelos, mas em versão cromeira) e interagindo com miúdos que nunca tinha visto mais gordos.

Foi também graças aos cromos que tive o meu primeiro contacto com uma rede de máfia perigosa e tremendamente organizada, que tinha como intuito enganar os mais incautos, estabelecendo aleatoriamente graus de raridade a determinados cromos, trocando-os depois por uma alarvidade de autocolantes. Ao pé desta máfia dos cromos, os traficantes de pilhas para o Game Boy (para os conheceres clica AQUI) eram uns meninos. Um dos miúdos conseguiu acabar a caderneta do Dragon Ball Z comprando só meia dúzia de carteiras. Hoje está na política.

Um vicio de difícil cura

O ato de completar uma caderneta de cromos inundava-nos de uma felicidade extrema. Quase ejaculatória. Mas depois vinha o vazio. O vazio de ter a caderneta completa e não ser necessário comprar mais carteirinhas. E lá tínhamos de pedinchar aos nossos amáveis progenitores uma viagem até à papelaria, de forma a aferir a existência de uma nova coleção que valesse a pena iniciar.

Era o vicio do cromo. Quantos jovens não perderam os melhores anos da sua juventude para este flagelo? O ato de colar um cromo ou cheirar uma caderneta novinha em folha era viciante e muitos não conseguiam abandonar esse ciclo de deboche e devassidão.

Para muitos, a cura só chegava quando os pais lhe diziam “Já és crescido para cromos. Se queres uma caderneta nova compra-a tu”. E quando o dinheiro nos sai do bolso já pensamos muito melhor onde o devemos gastar.

O ato de comprar carteirinhas de cromos e colá-los numa caderneta é de tal forma viciante que vários adultos, de vez em quando, ainda sucumbem aos encantos da Panini. Este “regresso à infância” é sempre feito através das coleções de cromos de futebol (nomeadamente as que antecedem um Mundial ou um Euro) pois homens feitos e de barba rija vem aqui uma janela de oportunidade para um prazeroso regresso à infância.

Mas atenção que eu não estou a falar de mim! Eu não tenho barba rija.

Os cromos lá em casa

Se eu tivesse de reembolsar os meus pais de todos escudos gastos em cromos teria de hipotecar a casa.

E quando os teus amáveis progenitores regressavam do trabalho, entravam em casa e te acenavam com um par de carteirinhas? Havia lá melhor sensação… Até a sopa que nos obrigariam a ingerir nessa noite ganhava menos atrito ao entrar nas nossas jovens goelas. E quando estavas doentee algum familiar zeloso te trazia carteirinhas de cromos e tu passavas uma parte do dia a colar e a contemplar a caderneta mais preenchida? Mágico.

Pais de pequenos petizes: é assim que se compra o amor dos vossos filhos. Aprendam.

Perdi a conta à quantidade insana de coleções de cromos que eu e o meu irmão fizemos: Dragon Ball, O Rei Leão, Aladdin, Dartacão, Sonic


Algumas das mais icónicas coleções da Disney dos anos 90

Ainda hoje, na poeirenta garagem de senhores meus pais, jaz uma enorme caixa de plástico, no interior da qual repousam dezenas de cadernetas — umas completas, outras infamemente deixadas a meio — que monetariamente devem valer o equivalente a uma sandes de coirato, mas cujo valor emocional é impossível de calcular.