Calvin & Hobbes

Calvin & Hobbes

Junho 13, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Fazer humor é uma arte e, como tal, é difícil e exige treino e trabalho. Aliar este ofício à crítica social e à capacidade de “obrigar” o leitor a pensar e repensar atitudes e comportamentos não estará ao alcance de todos. Bill Waterson (doravante denominado carinhosamente como “tio Bill”) é um mestre neste domínio e um exemplo para todos os criativos que gostariam de lhe seguir os passos.

A magnum opus da vida do til Bill é Calvin & Hobbes, uma coleção de álbuns que relata as aventuras e desventuras de um puto de 6 anos e do seu amigo imaginário, personificado por um afável tigre de peluche, cujas pranchas alternam harmoniosamente entre a comicidade das traquinices infantis e a abordagem sagaz de temas sensíveis e pertinentes para a sociedade e para a existência humana.

Sócrates, Nietzsche, Descartes, Kant e… o tio Bill

Olhando para a minha prateleira, descubro rapidamente as lombadas daquelas que considero uma das maiores obras filosóficas do nosso tempo: os livros de banda desenhada “Calvin & Hobbes”. Antes de me chamarem nomes e virem na minha direção com uma forquilha em chamas enquanto empunham cartazes com o epiteto “ignorante” e entoam afinadamente os nomes dos grandes filósofos da Antiguidade, deem-me uma oportunidade de defender esta minha tese.

Focando-se a Filosofia no estudo dos problemas fundamentais relacionados com a existência e os valores morais e éticos, numa busca incessante pelo conhecimento, poderemos considerar que todas as obras que nos fazem pensar na nossa conduta e nos levam a reflexões sobre o que andamos a fazer neste mundo podem ser consideradas filosóficas, certo?

E se há livros que tem o condão de nos fazer soltar uma gargalhada numa prancha e na imediatamente a seguir fazermos repensar no egoísmo da Humanidade ou na forma como os adultos desperdiçam a sua vida e se conformam com o seu quotidiano vazio e desprovido de sentido, esses livros são os assinados pelo tio Bill. Não é por o conteúdo ser apresentado sobre a forma de uma inocente banda-desenhada que a mensagem perde força e valor. Pelo contrário! Raros são os miúdos (e adultos, já agora) que já leram uma obra dos aclamados filósofos clássicos. Mas muitos leram os livros do tio Bill. E apreenderam a sua mensagem.

Esta versatilidade que permite que Calvin & Hobbes possa ser apreciado tanto por crianças como por adultos é outra das suas qualidades, com a agravante de que, se a última vez que pegaste num destes livros foi algures durante a tua infância, experimenta relê-los agora. Vais descobrir não só que envelheceram irritantemente bem, como todos os rasgados elogios deste artigo são merecidos.

Em jeito de curiosidade, a ligação da obra com a filosofia começa com o nome dos personagens. Calvin & Hobbes foram inspirados, respetivamente, no teólogo e filosofo John Calvin e no filosofo inglês Thomas Hobbes. Do legado do primeiro nasceu o calvinismo, que influenciou definitivamente a religião protestante, enquanto o segundo é reconhecido como um dos fundadores da filosofia política e percursor das ciências políticas modernas.

A magia de Calvin & Hobbes

A genialidade desta obra prende-se com o facto de Bill Watterson usar a pureza e ingenuidade de uma criança de 6 anos que tem um peluche como melhor amigo para abordar temas existenciais e comportamentais de uma profundidade tal que faz com que o mais empedernecido dos corações faça um exame de consciência. Embora uma parte significativa das tiras de Calvin & Hobbes não deixem de ser “simplesmente” humorísticas e valham pela traquinice do miúdo, a singularidade do tio Bill evidencia-se nas tiras em que é comentada a podridão das relações humanas ou é denunciado os graves problemas ambientais que estão a destruir o nosso planeta. Estes temas mantêm-se, preocupantemente, tão atuais agora como quando foram escritos no final dos anos 80 e início dos anos 90. E se há um bom parâmetro para avaliar a qualidade de arte é exatamente a sua intemporalidade. E Calvin & Hobbes é intemporal para xuxu.

Esta série tem outra característica que eu muito valorizo: instiga a que o leitor desenvolva o seu sentido crítico, obrigando-o a pensar; essa atividade chata e trabalhosa, cuja prática os maus líderes desaconselham, pois quem não pensa não coloca questões incómodas, nem põe em causa paradigmas potencialmente injustos para muitos e lisonjeiros para poucos.

Eu e Calvin

Para quem ainda não percebeu (não era fácil, no meio de tanto elogio subtil e muito bem encapotado), eu sou um enorme fã desta série. Descobri o livro “Há Monstros debaixo da cama” numa prateleira em casa de um grande amigo meu, algures numa tarde de domingo nos tempos da primária. Fui rapidamente arrebatado.

A partir daí, chulei oportunamente os meus progenitores para que adquirissem os álbuns do tio Bill, com Calvin e o seu tigre a transformarem-se em prazerosas companhias, principalmente nas longas sessões de introspeção que as sessões no trono sanitário nos proporcionam.

As personagens

Identificava-me com Calvin. Com o seu lado contestatário e com a sua infinita imaginação. Invejava também a sua relação com Hobbes, que tanto tem momentos de bulha intensa como sentidas perolas de homenagem à amizade.

Mas para além do carisma da parelha de personagens principais, os livros do tio Bill apresentam um vasto leque de personagens secundários que abrilhantam os quadradinhos. Começando pelos pais, é impossível não simpatizar com o progenitor sarcástico e que continuamente tenta instruir o seu descendente com lições de vida que nem sempre são apreendidas da melhor forma, enquanto a mãe é muitas vezes alvo da nossa total empatia, pois é quem tem de lidar com os comportamentos desviantes de Calvin.

Nas poucas vezes que os pobres progenitores saem para ter uma pausa da sua criança, Calvin fica entregue aos cuidados da extremosa babysitter Rosalyn, que tem o condão de o pôr na cama às 19h00. Mas ainda há alguém que Calvin repugna mais que a sua babysitter… O seu nome é Susie Derkins, a sua vizinha e colega de turma que gosta de o repreender na escola e que, pelo simples facto de ser uma rapariga torna-a, aos olhos de um miúdo de 6 anos, num ser absolutamente repugnante. Mas isso depois muda amigo Calvin…

Dentro da escola — espaço que Calvin tanto gostaria de pulverizar — temos Miss Wormwood, a velha e anafada professora primária, a quem Calvin desperta uma enorme vontade de se reformar e Moe, o bully bronco, através do qual o tio Bill, nos anos 80, aborda de forma mais ou menos subtil a problemática do bullying escolar.

Conclusão

Calvin & Hobbes não é uma epopeia épica. Não apresenta um argumento brilhante, nem tem reviravoltas geniais. É “apenas” um singelo livro de banda desenhada que tem como principal intuito divertir o leitor. E cumpre esta premissa de forma brilhante. Mas o que lhe garante a imortalidade no seio da oitava arte são os efeitos secundários que as pranchas desenhadas pelo til Bill causam no leitor, conseguindo a proeza de ser daqueles livros que sempre que é relido conseguem descobrir um pormenor novo que vos conquista outra vez. E ainda nos faz pensar e repensar no que andamos aqui a fazer.

Leiam. Releiam. E tirem alguns apontamentos.