O Zé vai aos Santos Populares

O Zé vai aos Santos Populares

Junho 7, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Há uma coisa que o Zé odeia com todas as suas forças: os Santos Populares. Embora, como qualquer bom tuga, seja um apreciador de uma boa e gordurosa sardinha, o Zé dispensa o simpático peixe caso a sua ingestão implique andar em ruas apinhadas de gente suada, num roça-roça constante e pouco prazeroso, pisando solos peganhentos e passando horas em filas intermináveis para poder ingerir um singelo caldo verde. Tudo isto devidamente acompanhado por música de inegável qualidade.

Mas há uma coisa que a Maria, a esposa do Zé, adora: os Santos Populares.

Como tal, sabem onde é que o Zé vai todos os anos sem exceção? Para os Santos Populares. E viva a magia da cedência no matrimónio!

Este ano não foi exceção. O Zé ainda tentou simular uma gripe. Não resultou.

Mas o Zé nunca desiste à primeira.

Falhado o projeto “aí que eu estou tão doente que não posso sair de casa” entrou em campo o projeto “aí que eu tenho um desarranjo intestinal tão grande que não posso sair de casa”. Infelizmente, e para desespero do Zé, este arrojado projeto também falhou, com sua digníssima esposa a proferir as épicas palavras:

“Está tanta gente na Bica e está tanto barulho que podes peidar-te à vontade que ninguém dá conta”.

Depois, e com o olhar repleto de malícia, acrescentou:

“No fundo é o que fazes em casa, por isso não vais sentir qualquer diferença”.

Perante tão pertinentes e argutos argumentos, o Zé não teve como evitar a edição 2019 dos Santos pelo que, naquele momento, se encontrava numa interminável fila, a suar em bica enquanto o obeso atrás de si roçava com a sua proeminente barriga nas suas costas húmidas, enquanto a sua esposa se encontrava sentada numa mesa, tagarelando alegremente com os amigos de ambos, repimpando-se com um copinho de sangria fresca.

Este tipo de poesia comove-me sempre

Quando finalmente chegou a vez do Zé ser atendido, pediu os caldos verdes, caracóis e sardinhas que fora incumbido de trazer, sendo tudo amontoado num minúsculo tabuleiro de madeira que, claramente, não continha espaço suficiente para acondicionar toda aquela comida. Ainda tentou acenar na direção da esposa e dos amigos, na esperança de que alguma alma caridosa viesse em seu auxílio.

Mas as almas caridosas estavam numa cavaqueira de tal forma amena que não reparavam nos braços do Zé a agitarem-se no meio de centenas de cidadãos ávidos de sardinha e música pimba. O Zé tentou então ligar à esposa, mas ao apalpar o seu bolso lembrou-se de que deixou o seu fiel aparelho à guarda da sua cara metade, que deixara o dela em casa e queria consultar as novidades do seu Instagram.

Não tendo outra alternativa, o Zé encheu-se de coragem pegou no tabuleiro e preparou-se para a aventura da sua vida.

Os primeiros metros correram bem. Encarnando a destreza de um atleta olímpico, o nosso amigo desviou-se dos primeiros obstáculos humanos que se meteram no seu caminho, conseguindo manter todos os víveres no interior do tabuleiro, exibindo uma perícia circense que ele próprio desconhecia possuir. Passou por um, passou por dois, passou por três…  Contornou uma idosa obesa, uma criança a correr aos ziguezagues, um bêbado que mudava de direção de repente… Parecia o Ronaldo a fintar. Ao longe já vislumbrava a mesa com os seus entes queridos. A sua esposa sorria jovialmente e este quadro enternecedor deu uma força extra ao nosso herói para galgar em segurança os metros que faltavam.

Foi quando o fim estava tão perto que a tragédia aconteceu. Como se de um jogo de futebol se tratasse, o Zé levou uma rasteira. O seu autor fora o tipo responsável pelo som, que de repente puxou o fio de uma das pesadas colunas, fio esse que se encontrava por entre as pernas do Zé no momento do puxão.

A queda levou a que o Zé distribuísse comida por todos os presentes. Num raio de 5 metros todos os transeuntes ficaram com caldo verde na roupa, caracóis no cabelo e sardinhas nas ventas. Os espetadores da cena que saíram incólumes riram-se a bandeiras despregadas, enquanto que os que tinham a couve do caldo verde a escorrer pela testa abaixo vociferavam cabeludos palavrões. A Maria pertencia a este último grupo, tendo no interior do top uma bela caracolada.

Já o técnico de som nunca mais foi visto.

Após tudo estar devidamente limpo e as desculpas estarem todas dadas, o Zé voltou para o sítio onde já fora tão feliz: a fila para comprar comida. Desta vez devidamente acompanhado pelo seu amigo Tozé, que o iria auxiliar na árdua tarefa de levar o jantar até à mesa.

É nesta altura que começa a tocar o famoso hino brejeiro “Chupa Teresa, que este gelado gostoso é feito de framboesa”, da autoria do mestre Quim Barreiros.

Perante tão bonita letra, o sentido de humor infantil do Zé e do seu amigo Tozé vieram ao de cima, relembrando a sua amiga Teresinha, um colega de escola de ambos cuja atividade promiscua atrás do pavilhão de ginástica tornava-a na pessoa ideal para dedicar a balada enternecedora do mestre Quim. Para além da Teresinha ser uma moça muito interessada em estudar anatomia com o sexo oposto, tinha como apelido “Carvalho”, palavrinha na qual basta subtrair um singelo “v” para a tornar em algo incrivelmente maroto. É fácil perceber de que forma é que a Teresinha era conhecida na escola.

No meio das risadas grunhas de dois homens feitos que momentaneamente regressaram à juventude, uma bisarma com mais de dois metros, com a envergadura de um urso pardo, a musculatura de um culturista e os olhos raiados de sangue aproximou-se dos nossos dois amigos. Os risinhos adolescentes do Zé e do Tozé cessaram imediatamente.

— Estão a falar da Teresa Carvalho, da Escola C+S da Rinchoa?

Os dois amigos entreolharam-se amedrontados. Na impossibilidade de o seu cérebro pensar em alguma coisa erudita para dizer, limitaram-se a acenar nervosamente com a cabeça.

Posto isto, o individuo com o cabedal de um gorila apontou para uma mesa, na qual estava sentada uma senhora, de perna traçada e mini-saia que mostrava as bordas do rabo, a acenar jovialmente na direção do Zé e do Tozé.

Ao verem a senhora, os testículos dos nossos amigos saíram do casulo que os aprisionava e estatelaram-se no chão, tal era o espanto. Naquela mesa estava Teresa Carvalho. A famosa Teresinha.

— Aquela é a minha esposa.

*

Quando o Zé e o Tozé regressaram à mesa onde estavam as suas senhoras, para alem de sardinhas queimadas, sopa entornada e caracóis frios levavam também um olho negro. Quando questionados sobre o que tinha sucedido, o Zé suspirou fundo e clamou por misericórdia junto de sua esposa, dizendo apenas:

— Para o ano não vimos aos Santos, por favor.

A Maria enterneceu-se com o sofrimento do seu esposo e acedeu ao seu pedido.

*

Estamos no Verão de 2020. E lá estava o Zé, de mãos nos bolsos e em pé, numa fila enorme e sem espaço para dar um passinho para ao lado, à espera de poder comprar algumas sardinhas.