Filipe Faria

Filipe Faria

Maio 26, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Quando se fala em Fantasia na Literatura Portuguesa é impossível não falar em Filipe Faria, uma das referências nacionais deste género e um dos responsáveis por demonstrar que é possível escrever Fantasia de qualidade em português de Portugal.

A Manopla de Karasthan é o título do seu primeiro livro, que começou a ser escrito quando o Filipe tinha apenas 16 anos e cujos primeiros esboços evoluíram para uma obra com quase 600 páginas.

Foi com este verdadeiro calhamaço que o Filipe concorreu (e venceu) a edição de 2001 do Prémio Branquinho da Fonseca, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo jornal Expresso, galardão que lhe valeu a publicação deste livro por parte da Editorial Presença, dando assim o pontapé de saída para a publicação da série Crónicas da Allaryia.

Para além da prosa, o Filipe já assinou também diversos livros de banda desenhada, demonstrando assim a sua versatilidade enquanto autor, assim como a qualidade literária que mora em Portugal e que, muitas vezes, é injustamente desvalorizada.

Por isso, não posso deixar de recomendar que me acompanhem neste texto para conhecerem (ou recordarem) o Filipe, podendo consultar o seu blogue, assim como a supimpa entrevista que o autor amavelmente concedeu ao Caca, não se coibindo de partilhar uma estória que é um hino ao humor escatológico.

E façam o favor de adquirir os livros deste senhor.

 – Podes descrever as “Cronicas da Allaryia” em poucas palavras, para os leitores que não conhecem a tua obra?

Tudo aquilo de que mais gostam na fantasia, numa saga que cresceu juntamente com os leitores e o próprio autor.

  – O que te levou a escrever o teu primeiro livro, “A Manopla de Karasthan”?

A leitura de uma enciclopédia baseada no mundo do Senhor dos Anéis, seguida de uma maratona de tudo o que Tolkien tinha escrito até à data. Quis criar o meu próprio mundo de fantasia para nele poder contar as minhas histórias.

  – Quais foram as tuas principais inspirações na criação de um novo universo fantástico?

Senhor dos Anéis foi a primeira e mais incontornável inspiração e referência, por motivos óbvios. Mas, quando comecei a escrever, também já trazia uma ampla e basta bagagem das minhas experiências como mestre de jogo de Dungeons&Dragons(razão pela qual partes d’A Manopla quase dão a entender que os heróis estão a seguir a lista de demandas do seu diário, a acumular pontos de experiência, e, volta e meia a rolar um dado de vinte faces e a ter um “1” como resultado). 

– Quando o escreveste já sabias que querias escrever a serie “Crónicas de Allaryia”?

Não. Quando comecei, a ideia era contar a história que é relatada no prefácio d‘A Manopla (basicamente, teria sido o Silmarilliondo meu Senhor dos Anéis). Mas, à medida que ia pensando no futuro, ia ficando mais entusiasmado com as histórias que mais tarde contaria, pelo que essas aventuras iniciais foram transformadas no tal prefácio, e eu me lancei logo nas aventuras que tinha reservado para os hipotéticos livros subsequentes.

A serie “Crónicas de Allaryia” (sim… o Filipe escreve para xuxu)

Quais são as tuas principais referências literárias?

Tolkien está naturalmente à cabeça. Outros autores que mais me influenciaram foram Robert Jordan, Glen Cook, Greg Keyes e Wolfgang Hohlbein.

Sendo Portugal um mercado difícil para o aparecimento de novos valores da literatura, como é que conseguiste que a Editorial Presença publicasse a tua obra?

Gostaria de dizer que foi pela irrefragável qualidade do meu livro e pela minha personalidade cativante, mas, basicamente, ganhei um prémio.

  – Que conselhos podes dar aos escritores novatos que se queiram aventurar pelo inóspito mundo da Literatura Fantástica?

Que não escrevam com vista a serem publicados, mas porque gostam e querem genuinamente fazê-lo. Só assim conseguirão acabá-lo, além de que ter um livro concluído é a sua própria recompensa. Tudo o que vier depois disso é um (sem dúvida muito) agradável bónus, e nada mais há a fazer do que enviá-lo a editoras e fazer figas, porque, infelizmente, a qualidade do livro está longe de ser o único critério, e há muitos imponderáveis como a sorte e o timing à mistura.

– Como surgiu a série “Felizes Viveram Uma Vez”?

Como tantas outras histórias, o Felizes Viveram Uma Vez cresceu ao ser contado – mas não por mim, e sim pela minha mãe. Eu não era uma criança fácil de pôr na cama e a dormir, e a melhor forma de o fazer era estimular a minha imaginação, para que eu mal pudesse esperar para adormecer e sonhar. Mas, como eu era uma criança algo criteriosa, não me chegavam as típicas histórias de embalar, e a minha mãe tinha de misturar contos de fadas – tanto os literários como os inspirados pela Disney – que ia inventando à medida que contava. Eu adorava-as, e ia criando na minha cabeça a minha própria continuidade e pano de fundo narrativo para explicar os motivos pelos quais essas personagens de mundos e histórias diferentes interagiam. E foi essa a semente plantada, que mais tarde germinou no Felizes Viveram Uma Vez.


– Tens colaborado com o argumento para alguns álbuns de banda desenhada 100% portugueses. Como foi a experiência? E como foi a receção do público português aos teus álbuns de banda desenhada?

Foi uma experiência fantástica, até porque eu cresci a ler banda desenhada, muito antes de começar a ler livros. O público reagiu bem, sobretudo ao Dragomante, mas outra coisa não seria de esperar, quando se está a colaborar com um artista do calibre do Manuel Morgado.

– Há autores portugueses que afirmam sentir uma certa desvalorização do seu trabalho em detrimento de obras estrangeiras, pelos próprios portugueses. Partilhas desta opinião?

Completamente. O nosso patriotismo começa a acaba no futebol. Ainda que o preconceito de “o que é internacional é que é bom” seja compreensível em muitos casos – e tanto mais o tenha sido no passado – falta a Portugal uma certa medida de proteccionismo que, noutros países, assegura o fomento do talento doméstico. Há imensas séries de fantasia (e não só) pela Europa fora que são manifestamente inferiores a muitas das ofertas do mercado anglo-americano, mas que nem por isso deixaram de ser os maiores sucessos nos seus respectivos países.

Há muitos anos que penso isto, mas evitava exteriorizá-lo, porque soa muito a uma defesa da mediocridade ou do mais baixo denominador comum só porque vem do nosso país. Mas, a partir do momento em que se percebe que se publicam inúmeras obras medíocres de outros países – e nem falo de best-sellers internacionais – e se lhes dá um destaque a que as outras não têm direito… quer dizer, medíocre por medíocre, ao menos que se vá pelo “o que é nacional é bom”, na esperança de que isso leve a uma maturação. O problema não é a falta de qualidade, porque essa desenvolve-se, mas sim o da falta de oportunidade, que tem forçosamente de ser dada.

  – Para ti, que ingredientes consideras fundamental para se escrever um bom livro?

Muitos irão rir com estas respostas se forem ler os meus primeiros livros, mas foram coisas que fui aprendendo e ainda estou a aprender e a tentar incorporar na minha escrita. Antes de mais, tal como já referi, o autor tem de escrever porque gosta de o fazer, e não com o intuito de vir a ser publicado. Só assim conseguirá levar a cabo a empreitada. Depois, tem de perceber aquilo que não gosta de escrever, e evitar a todo o custo que a sua história o leve a situações em que tem de revelar a sua fraqueza. Quando não se gosta ou não se tem jeito para cenas de acção, por exemplo, não vale a pena montar a narrativa de forma a que esta leve a uma batalha climática que acaba por desiludir o leitor. Outra coisa, sobretudo na fantasia, é a tendência que muitos autores sentem para o diálogo expositivo, visto que estão a criar um mundo em que muitas coisas não funcionam da forma que as pessoas estão à espera. Convém deixar isso para o narrador, e ler ocasionalmente os diálogos em voz alta, para termos noção se alguém realmente falaria assim ou não.

– Podes partilhar como funciona o teu processo criativo?

Que condições necessitas de reunir para conseguires escrever?Oh, coisa pouca. Sossego e um processador de texto quitado.

  – Sentes necessidade de te “obrigar” a escrever? Ou é sempre um processo que flui naturalmente? Tens truques para te inspirares?

A inspiração é algo passivo, por isso precisa de disciplina. A menos que esteja de férias, obrigo-me a escrever algo todos os dias, seja uma página, um parágrafo ou uma frase.

  – Tens outros projetos na gaveta?

Sempre. Mesmo quando não estou a escrever, estou a tomar notas, seja para Allaryia ou para outros mundos, incluindo projectos de banda desenhada cuja concretização não depende sequer de mim. É algo que me dá um prazer comparável ao da escrita, e às vezes até se lhe sobrepõe, por ser tão puro na energia criativa que requer.

  – Podes partilhar com a “malta do Caca” uma historia engraçada que tenha ocorrido com um leitor?

Nem de propósito, tenho uma bonita história de “merda” para o Caca.

Certa vez, fui a uma biblioteca em Constância falar com alunos locais, e tive uma emergência do foro gastrointestinal antes da sessão, que me forçou a usar a casa-de-banho das instalações. Os alunos chegaram a meio do processo, entraram como uma turba nos lavabos e, ao verem uma das portas fechadas, tomaram-me por um colega deles e começaram a dizer-me que me despachasse. Como não respondi, um deles começou a subir para cima da sanita ao lado, altura em que tive de dizer “Querem ver, é…?”, o que levou a uma debandada geral ao som de “eia, o homem ’tá a cagar!”.

Como é óbvio, logo de seguida, espalhou-se a notícia lá fora, e os alunos começaram a abrir e fechar a porta de entrada para irem dizendo de sua justiça, comentando o cheiro e apodando-me com os mais variados epítetos escatológicos, até que foram chamados pelos professores para se reunirem no auditório. Vi-me então num dilema: como podia estar em cima do palco durante mais de uma hora a tentar falar sobre um livro de fantasia a adolescentes que me tinham apanhado na mais vulnerável de todas as posições?

Ainda sem decisão tomada, entrei no auditório e desci as escadas, vendo pela minha visão periférica os risos abafados de uma boa centena de jovens, ouvindo os sussurros e percebendo que a coisa não tinha como correr bem. Assim, fiz a única coisa que podia fazer e apresentei-me como Filipe Faria, um autor que tinha ali vindo para ter “uma conversa de merda” com eles. O choque foi palpável e geral, os olhos dos professores arregalaram-se, e rebentou uma gargalhada, não de gozo, mas de incredulidade e espanto. A partir daí, fiz a minha apresentação habitual, falando de Allaryia e dos meus outros projectos, à medida que ia polvilhando o meu discurso com alusões fecais, e o evento acabou por ser dos melhores em que já tomei parte, com alunos genuinamente interessados e cheios de vontade de fazerem perguntas.

No final, após perceberem o que tinha acontecido, os professores vieram pedir-me desculpas, e eu pedi desculpas por ter baixado o nível, mas a verdade é que, anos mais tarde, numa escola em Abrantes, um pequeno grupo de alunos de outra escola veio de visita para me cumprimentarem, recordando-se daquela tarde de merda anos antes. E, outros tantos anos depois, num dos meus passeios por Lisboa, fui abordado por um rapaz de mota, que subiu o passeio para parar diante de mim – quando já me preparava para me defender daquele que julgava que ia ser um assalto, ele tira o capacete, estende-me a mão, e apresenta-se como o rapaz cujo livro eu tinha assinado em Constância com “um abraço com cheiro a Renova”.

  – Qual foi o melhor elogio que já fizeram ao teu trabalho?

Muito sinceramente, considero-me um autor muito afortunado por já nem me conseguir lembrar do melhor. Normalmente, são os que me dizem que os meus livros os inspiraram a escrever, porque isso para mim é como um fechar do círculo, uma vez que também eu fui inspirado a escrever pelo mundo fantástico criado por um outro autor.