O Zé vai ao Ikea

O Zé vai ao Ikea

Maio 25, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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O fim-de-semana para o Zé tem uma Santíssima Trindade da qual ele é um crente devoto e não prescinde: ver o Benfica, vegetar durante longas horas no sofá com uma jola na mão enquanto um fio de espessa baba lhe escorre pelo queixo e não ir a locais de comércio nos quais a sua distinta esposa pudesse passar facilmente toda uma tarde a ver montras.

Esta triste história é sobre um domingo soalheiro em que a Maria queria apenas “ver uns cortinados para a sala”, pelo que convenceu o Zé a uma “ida muito rápida ao IKEA” na qual ele até poderia “almoçar aquelas almondegas tão boas”.

Seduzido pela última premissa evocada, o Zé entrou num dos estabelecimentos da famosa loja sueca ainda não era meio dia. Mal sabia ele que já não iria mais ver o sol daquele domingo soalheiro de verão…

Após uma sumptuosa refeição em que o Zé ingeriu uma alarvidade de almondegas, teve início uma odisseia épica de tal envergadura que nem a obra clássica de Homero lhe chega aos calcanhares.

Principiemos pelo início: após encher o bandulho, o nosso amigo mostrou estar impecavelmente amestrado, seguinte a sua esposa obedientemente para o interior da loja. O Zé faz parte daquelas pessoas que quando diz (hipoteticamente, claro), que quer ir a determinado estabelecimento para “ver cortinados”, ele desloca-se a esse estabelecimento para, efetivamente, “ver cortinados”. Foi, por isso, que ao entrar no IKEA o nosso pobre desgraçado perscrutou avidamente as montras, na ânsia de encontrar rapidamente tão importante item na decoração de uma habitação. Mas, quando deu conta, já a Maria olhava, embevecida, para uma fileira de moveis, olvidando por completo a suposta razão da sua visita ao IKEA.

— Este não ficava ótimo na entrada da casa? — Exclamou, entusiasmada, apontando para um mastodonte de pinho cheio de floreados.

— Mas isto nem sequer nos cabe na entrada da casa. Não te esqueças que temos apenas um T1 e que…

— Claro que cabe — respondeu a Maria, num tom glacial. — Basta reorganizar toda a entrada, bengaleiro e disposição dos moveis.

E lá se ia outra tarde… — Suspirou o Zé, sabendo que a única forma de evitar que a sua amada esposa adquirisse aquele mamarracho era direcionar a sua atenção para outra coisa.

— Já viste bem aqueles sofás tão giros?

Galgando metros na direção onde o indicador do Zé apontava, Maria foi contemplar os sofás. E depois contemplou prateleiras. E depois louça sanitária, E de seguida camas. Depois decoração para os quartos. Saindo dos quartos foi contemplar material de jardim. Quanto mais Maria contemplava mais o coração do Zé chorava, enquanto olhava acabrunhado para a sua esposa a andar para trás e para frente, não respeitando sequer as setinhas que os sapientes senhores do IKEA pintaram no chão.

E nunca mais chegava a vez do raio dos cortinados que, supostamente, eram a razão daquela viagem. Foi quando o Zé acompanhava a sua esposa pela incrivelmente interessante secção das fichas triplas (na qual Maria esteve uns bons cinco minutos a escolher que ficha tripla iria levar), o nosso amigo foi olhando em volta com mais minúcia. E foi então que foi invadido por uma onda de compaixão que lhe invadiu a alma e aqueceu o coração.

Não estava sozinho!

À sua volta orbitavam dezenas de seres da sua espécie (o macho entediadus), ou seja, dezenas de outros homens que acompanhavam as suas caras-metade naquela tão bem passada tarde de fim-de-semana. Ao passarem melancolicamente uns pelos outros trocavam olhares cúmplices. Alguns mais afoitos e corajosos trocavam mesmo calorosos abraços e apertos de mão. É sabido que o sofrimento em conjunto aproxima as pessoas, pelo que, durante os minutos em que ouvia a sua esposa dissertar sobre a importância vital que era fazerem obras na casa de banho para mudarem as torneiras e arrancarem o bidé, o Zé sentia uma ligação cada vez mais forte com os restantes presidiários.

Ao passarem uns pelos outros, as pobres criaturas cumprimentavam-se efusivamente e trocavam singelas palavras de apreço e conforto:

“Então estás cá desde quando? — Questionava um.

“Eu cheguei mesmo quando as portas da loja abriram. Pelas nove da matina” — respondia outro.

“Eu só cá vinha almoçar e acabei perdido neste labirinto. Já perdi a minha esposa há três horas” — retorquia um careca anafado.

“E eu só cá vinha devolver um móvel que a minha esposa afinal não gosta e já tenho o carrinho cheio de outras traquitanas” — queixou-se um individuo muito alto, que já se encontrava no limiar do choro.

“Eu só queria a minha vida de volta”, exclamou emotivamente um individuo portador de uma cabeluda monocelha, que irrompeu num comovido pranto.

Ao ouvir estes chocantes e enternecedores testemunhos, o Zé apercebeu-se de que havia quem sofresse muito mais do que ele. Aprendeu a dar valor às pequenas coisas da vida e a não dar relevância ao supérfluo. Só as grandes privações nos dão este nível de sabedoria. O Zé era um homem novo. Renascera naquele corredor dos puxadores de portas.

Foi então que, quando menos esperava, o grande momento chegara. Finalmente, após tanto tempo de espera e angústia, chegara a hora de comprar os malfadados cortinados. O Zé não aguentou e verteu uma lágrima.

— Zé, gostas mais dos cortinados de cor creme ou cor areia? Ou estes de cor areia real?

O Zé olhou mais do que uma vez para os pedaços de tecido que sua esposa tinha na mão. Por mais que olhasse, não conseguia ver diferenças significativas entre cada um deles.

— É-me completamente indiferente — respondeu, honestamente. — Escolhe tu!

— Mas eu quero que a casa também fique ao teu gosto! — Respondeu a Maria num tom jovial, inclinando ligeiramente a cabeça enquanto fazia beicinho.

— Ok, então gosto mais dos cortinados creme.

A face da Maria contorceu-se num trejeito de reprovação. Com um singelo estalido com a língua, a simpática senhora abanou a cabeça dizendo:

— Ah, é que eu gosto mais da cor areia real. Mas se tu gostas mais dos cortinados creme… Suponho que podemos levar esses…

Seguiu-se um momento de silencio, durante o qual a Maria se encontrava num profundo momento de reflexão, enquanto o Zé contemplava o vazio.

— Ah não, lamento, mas não pode ser! Estes da cor da areia real são sem dúvida os que ligam melhor com a carpete da sala, não concordas?

— Porque é que fizeste questão de me dar três opções de escolha se já sabias o que é que querias escolher?

Mal-acabou de proferir estas hediondas palavras o Zé arrependeu-se instantaneamente do seu grave delito. Mas o mal estava feito, não havia volta a dar.

Vermelha de fúria, a Maria bufou vinte vezes, vociferando ameaçadoramente:

— Eu só queria que fizesses parte do processo de decoração da nossa casa… Já não te pergunto mais nada!

O Zé tentou ficar impávido e sereno face a este novo desenvolvimento, mas a verdade é que o seu coração dançava de alegria com a perspetiva de não ter de dar mais opiniões, que não eram nunca levadas em conta, sobre decoração.

— Se queres a minha opinião sobre a decoração da casa, podíamos tirar algumas das centenas de almofadas que temos em cima da cama e que temos de tirar e por todas as noites…

Desta vez até fumo saiu das orelhas da Maria. O Zé tocara num tema sensível. Sabia que era impossível maldizer as amadas almofadas da cama e sair incólume.

E nessa noite o Zé não teve de tirar centenas de almofadas para se deitar na sua cama.

Para se poder deitar, só teve de tirar as dezenas de almofadas que estavam em cima do sofá.