Asterix

Asterix

Maio 10, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum …”

Este prólogo é o que consta no início de todos os álbuns de uma das mais fantásticas e delirantes obras de banda-desenhada de todos os tempos, da autoria dos mestres Albert Uderzo e René Goscinny.

Astérix, a droga da pequenada

Sou fã da banda desenhada franco-belga desde que me lembro de saber ler. Cortesia do senhor meu tio (ele próprio um sagaz apreciador desta arte) que pelo meu aniversário me ofereceu um livro do Tintim e que, quando soube que eu gostei, me ofertou um dos meus livros de BD favoritos de sempre: Astérix Legionário. A partir daí foi o descalabro e não descansei enquanto não li e adquiri toda a coleção de aventuras deste pequeno gaulês.

Li e reli milhentas vezes todos os livros desta série, ao ponto de, ainda hoje, os saber todos de cor e saber exatamente onde encontrar as minhas piadas e pranchas favoritas. Estando já completamente viciado em Astérix (e em Tintim, já agora), o meu querido tio, qual dealer profissional, deu continuidade à sua atividade de viciação de uma criancinha pura e inocente no vil mundo da BD, apresentando-me a todo um universo de aventuras e, essencialmente, humor refinado e intemporal, transformando-me numa espécie de junkie dos quadradinhos, que gastava uma parte considerável da sua parca mesada neste salutar vicio. Mas como não há amor como o primeiro… Asterix sempre foi a minha BD favorita.

Obrigado por isso, tiozinho!

O nascimento de um ícone da 9ª. arte

As primeiras publicações de Asterix surgiram na revista Pilote, logo no primeiro número, lançado a 29 de outubro de 1959. Nesta época antes de ser lançado um livro de BD, o mesmo era dividido em várias partes, sendo lançado semanalmente ou mensalmente nestas revistas franco-belgas que misturavam histórias de vários autores. Depois da história ser terminada nestes fascículos (o que podiam demorar mais de um ano), caso tivesse aceitação do público, poderia então ser lançada em formato livro.

O primeiro álbum, denominado simplesmente por “Asterix o Gaulês”, foi editado em 1961, sendo os restantes lançados praticamente a um ritmo anual.

Asterix vive com seus amigos numa pequena aldeia gaulesa situada na Armórica, no norte da antiga Gália (França). Para resistir ao domínio romano, os aldeões contam com a ajuda de uma poção mágica que lhes dá uma força sobre-humana, preparada pelo druida Panoramix. A exceção é Obélix, que caiu dentro de um caldeirão cheio da poção quando ainda era um bebê, pelo que os efeitos da poção são-lhe permanentes, para grande desgosto do adorável badocha, que dá a entender que daria um testículo para provar esta apetitosa beberagem.

Mas porque é que as aventuras do pequeno gaulês são tão especiais?

Embora a resposta a esta questão seja, naturalmente, bastante subjetiva e pessoal, penso que é bastante consensual que a grande mais-valias destas obras prendem-se como o apuradíssimo sentido de humor, evidenciado principalmente nos álbuns assinados por Rene Goscinny, um dos gurus da arte do argumento.

Astérix é um retrato humorístico da época da hegemonia romana, recorrendo bastante a caricaturas e estereótipos para dar corpo às suas personagens. Assim, enquanto os godos são militaristas, os bretões são requintados e educados, falam ao contrário (numa tradução direta do inglês, parecendo o Yoda a falar) e bebem cerveja quente e água quente com leite; a Hispânia é um local cheio de pessoas barulhentas e impulsivas; os corsos tem queijos nauseabundos e os lusitanos são baixinhos e educados (Uderzo afirmou numa entrevista que todos os portugueses que ele conheceu eram assim; era pô-lo num programa de televisão para falar de futebol para ver se mantinha a mesma opinião).

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Mas a grande mais-valia do humor “asterixiano” é o facto de ser intemporal. Embora a maioria dos álbuns datem dos anos 60 e 70, o humor e a critica social tantas vezes subjacente mantém-se perfeitamente atualizado. Não acreditam? Leiam “Obélix & Companhia.

A sério, leiam.

Este amalgama de papel é um hino à hipocrisia e à ambição acéfala que norteia tanta gente, mostrando como é fácil manipular as massas quando se promete dinheiro e estatuto social. Transponham o negócio dos menires deste livro para um tema mais atual e vão encontrar inúmeras semelhanças.

Mas, devo confessar, o tipo de humor que me faz sempre soltar uma gargalhada é aquele que regressa aos primórdios da comédia: o chamado humor físico. É impossível ler Asterix e não esboçar um sorriso com as inúmeras e hilariantes cenas de pancadaria, tão bem desenhadas por Albert Uderzo. E se as batalhas contra o inimigo (vulgo romanos) já são uma delícia, são mesmo as cenas de pugilato entre os membros da aldeia — que começam, invariavelmente, devido ao peixe podre vendido pelo peixeiro Oldralfabetix ou à voz horripilante do bardo Assurancetourix — que me abarbatam o coração com a sua genialidade.

Ora atentem nos pormenores deliciosos desta cena. Os meus favoritos são os do canto inferior direito, que estão a trocar mimos ainda antes de chegarem ao epicentro da contenda.

No final de cada livro há sempre um banquete, com javali no espeto e o bardo amordaçado e amarrado a uma árvore, compondo assim a Santíssima Trindade dos livros de Astérix: humor, pancadaria e javalis.

Os personagens

Falar desta banda desenhada e não mencionar o seu incrível leque de personagens únicas e carismáticas é um crime hediondo que não me atrevo a cometer.

O duo de personagens principais é irrepreensível: Astérix é o baixinho e destemido guerreiro, que resolve os problemas com coragem e inteligência; o seu fiel companheiro é Obélix, um paquiderme que não passa sem o seu belo javali assado e sem um prazeroso momento de salutar pancadaria. Muitos dos melhores momentos da série são deste adorável badocha, que a partir do álbum “A Volta à Gália” se vê acompanhado por Ideafix, um pequeno cãozinho, que chora sempre que uma árvore é mandada abaixo. #deviamossertodosideafix

O resto dos gauleses que compõem a aldeia dos irredutíveis que resistem sempre ao invasor é composta por um conjunto de personagens carismáticas, onde para além do peixeiro e do bardo já mencionados acima, temos o chefe Abraracourcix (que não deixa que ninguém mande nele! Exceto a mulher), o ferreiro Cétautomátix (que tem uma rivalidade hilariante com o peixeiro e os seus peixes fedorentos), o decano Agecanonix (sempre ranzinza e casado com a boazona da aldeia, várias décadas mais nova, o malandro) ou o druida Panoramix, a voz da experiência e da razão no meio daquela aldeia de loucos e o autor da poção mágica.

No entanto, alerto que quem se está agora a aventurar nesta série icónica e adquire os livros da ASA, vai encontrar alguns destes nomes alterados. Não me perguntem o porque, mas a editora achou por bem aportuguesar os nomes dos aldeões… A título de exemplo, Bonemine (a mulher do chefe) agora é a Boapinta. Soberbo. Era dar com um peixe de odor nauseabundo nas ventas do tipo que se lembrou de fazer isto.

Conclusão

Apesar dos nomes tremendamente totós da mais recente tradução nacional, Astérix é das mais geniais bandas-desenhadas de sempre, sendo obrigatório para todos os seres que não sejam analfabetos. E mesmo os analfabetos, podem sempre solicitar junto de um ente querido que lhes leiam o conteúdo dos balões, enquanto degustam as sublimes cenas de porrada.

Obrigado mestre Uderzo. Obrigado mestre Goscinny. E, já que estamos numa de agradecimentos pirosos, obrigado tiozinho!

Para saber mais sobre este mundo consulta: https://www.asterix.com/pt-pt/