As canções que marcaram (poluíram) a minha infância

As canções que marcaram (poluíram) a minha infância

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Boa tarde caros leitores,

Venho por este meio intitular-me como o Provedor Único de Músicas Merdosas (P.U.M.M.) deste espaço recôndito da internet. Um cargo difícil, mas muito prestigiante, e que assumo ciente das inúmeras responsabilidades que lhe são inerentes. Vou ser justo e imparcial, mas aceito subornos.

Passemos então à apresentação das cinco melodias escolhidas pelo Exmo. Dr. P.U.M.M. para esta prestigiada seleção:

5- Macarena

“Macarena” é uma canção da dupla espanhola Los Del Río, formada por Romero e Ruiz, dois nomes intemporais da História da Música Mundial, que possuem uma legião de fãs sem fim. Esta soberba melodia com fantásticos arranjos instrumentais e enternecedora letra foi uma excelente forma de se avaliar o grau de azeiteirice de cada país. A avaliação é simples: se Macarena ficou em primeiro lugar do top nacional, o país é azeiteiro. Portugal é um dos maiores produtores mundiais de azeite.

Para além da bonita letra, a Macarena deixou ao mundo um legado riquíssimo sob a forma da dança mais pateta da sua geração, cuja utilização ainda perdura junto das gentes da minha geração, sendo visto amiúde um pateta a dançar isto numa discoteca ou num casamento.

Em 1997, a canção vendeu mais de 11 milhões de cópias, o que fez com que os multipremiados músicos Romero e Ruiz se tornassem milionários, sendo o alvo de inveja de todos aqueles que sonham ficar ricos a fazer cócó. A eles, este P.U.M.M. deixa a sua mais profunda vénia de reverência.

4- Barbie girl – Aqua

Os dinamarqueses dos Aqua foram responsáveis por muita música má. Mas esta leva a medalha de pior de todas na opinião do vosso P.U.M.M.

Esta melodia tremendamente irritante era cabeça de cartaz no final dos anos 90, passando ininterruptamente em todas as rádios e canais de música, alapando-se no nosso cérebro para não mais sair.

Ao contrário das restantes músicas deste top, os Aqua quiseram criar algo com alguma substância, sendo Barbie Girl um hino à futilidade e plasticidade das sociedades modernas, recorrendo à clássica figura da boneca da Mattel. Até aqui tudo impecável. O problema é que a canção é daqueles que ao ouvir fica incrustada no tímpano e fica lá o resto do dia, pondo-nos a trautear ininterruptamente “Came on Barbie, Let’s go party”. Não é a música adequada para se cantar baixinho num metro sobrelotado. As senhoras olham para ti com um olhar de repulsa.

3- Segure o Tchan – É o Tchan!

Esta canção, meus amigos, é poesia pura. Ao ouvir a letra sentimos calafrios de êxtase percorrerem-nos lentamente o corpo. Os pelos eriçam-se. Os arrepios de prazer sucedem-se. A libido fica descontrolada.

 É o Tchan! é um grupo musical brasileiro de pagode (seja lá o que isto for), que se tornou muito popular na segunda metade da década de 1990, com diversas canções de teor erótico e duplo sentido (que é uma forma simpática de dizer “javardola”).

Para aqueles mais ingénuos que não tinham esta canção catalogada na sua cabeça como algo “extremamente badalhoco”, fiquem então com um pouco da letra. Sei que é difícil, mas se tiverem num local público não se comovam e reprimam essa lagrimita marota que vai teimar em sair. É que este poema é a coisa mais linda que vão ler nos próximos tempos. Ora atentem:

“Pau que nasce torto

Nunca se endireita

(…)

Segure o tchan

Amarre o tchan

Segure o tchan tchan tchan tchan tchan

Tudo que é perfeito

A gente pega pelo braço

Joga ela no meio

Mete em cima

Mete em baixo

(…)

Depois de nove meses

Você vê o resultado

Segure o tchan

Amarre o tchan

Segure o tchan tchan tchan tchan tchan”

Para quem gosta de poesia e de apreciar a sensibilidade, o sentimento e a subtileza que o poeta emprega em cada palavra tem aqui um petisco.

2- “Deixei Tudo Por Ela”, Zé Cabra

É verdade que este astro só apareceu na música portuguesa em 2001, não devendo por isso estar num top de música dos anos 90. Mas o Dr. P.U.M.M. vai abrir uma exceção para o nosso amigo Zé. Se há alguém que merece é ele.

Em 2001, surge uma nova estrela na constelação de astros da música nacional. O seu nome é Casimiro António, um emigrante com o sonho de ser cantor e que para o realizar poupou dinheiro e gravou umas músicas que, após terem ido parar à internet, granjearam, meritoriamente, assinalável sucesso.

E a vida do nosso amigo Casimiro mudou, começando a ser convidado para cantar em programas e bailaricos. Ciente de que o seu nome não era vendável, Casimiro resolveu adotar um nome de artista, nascendo assim a mítica figura do Zé Cabra, nome escolhido, provavelmente, devido ao timbre caprino que o artista emprega nas suas canções.

 Pouco tempo depois, o senhor Cabra lançou o soberbo álbum de estreia “Deixei Tudo Por Ela”, que vendeu 40 mil cópias, recebendo um disco de platina. Dizem as más línguas que Zé Cabra canta mal e desafina. As boas línguas concordam. Mas a verdade é que o “artista” vendeu que se fartou, com o povo a adotar carinhosamente a simpática figura do senhor Casimiro, que realizava um sonho e vivia o seu momento de glória.

Zé Cabra editou mais dois discos, “Malas À Porta” (2002) e “Vou Saltar-te Em Cima” (2008), mas não conseguiu o mesmo sucesso de “Deixei Tudo Por Ela”. O que também era muito difícil, reconhecemos. Afinal de contas, os padrões de qualidade e de expetativas estavam muito altos.

1- É o bicho, é o bicho – Mestre Iran Costa

Havia dúvidas sobre quem deveria ter ficado com o lugar cimeiro deste prestigiado top?

Este mais do que merecido primeiro lugar é merecido devido apenas ao sublime videoclip. Já o viram? Se não vejam rapidamente isto:

Estamos a falar apenas do vídeo mais genial de toda a História da Humanidade. Vamos então dissecar este tesourinho:

Imaginem a pior montagem que já viram na vossa vida. Imaginaram? Isto é ainda pior. Muito pior. O Mestre Iran achou que era uma excelente ideia por a sua distinta figura (a roupa do artista merece, por si só, um louvor) a surgir toscamente por entre imagens desfocadas da Lisboa dos anos 90, sendo um regalo para a vista ver um Mestre Iran surgir, qual Moisés, caminhando sobre as águas do Tejo ou surgindo, qual Godzila, no meio de prédios. E conseguem sempre escolher das piores imagens paisagísticas da cidade, repletas de engarrafamentos, obras, prédios em betão, entre outras preciosidades. Também é preciso talento para isto.

Mas se o videoclip é bom, a qualidade do poema é transcendental. Na verdade, o início até é maisjomenos, com o mestre Iran a apresentar um recital de amor capaz de empedernecer o menos sensível dos corações. Ora atentem nestas belas palavras:

“Quando o vento bater no seu cabelo… E espalhar sua magia pelo ar

Ele vai me encontrar esperando que o destino revele, enfim

Os segredos que tem p’ra me contar

Há tanto tempo que eu te quero do meu lado,

nossos caminhos não haviam se cruzado

Meu coração bate mais forte na emoção de ter você p’ra mim

Aquele grito que era preso na garganta se transformou

e a nossa vibração é tanta

Cante comigo, pra dizer a todo mundo que esse nosso amor…

E agora vem o refrão. O infame refrão que estraga toda a magia desta intemporal balada.

“É o bicho, é o bicho. Vou-te devorar. Crocodilo eu sou”.

Sou só eu que estou todo arrepiado? Provavelmente.

Os fãs eruditos de Iran defendem que estes versos escondem uma profundidade que não é normal testemunharmos neste tipo de canções e cujo alcance não está ao nível de todos. Porque é que o poeta, podendo escolher uma infinita miríade de bichos, se compara a um crocodilo? Quem é que ele quer devorar? E qual o intuito? Será tudo isto uma belíssima metáfora sobre uma sociedade castradora que “devora” a felicidade dos cidadãos e, por isso, temos todos de ser “crocodilos” para podermos sobreviver nesta selva desenfreada?

Até poderia ser.

O problema é que este bonito poema é devidamente acompanhado por uma belíssima coreografia, na qual Mestre Iran acompanha as palavras “Vou-te devorar” com o milenar símbolo gestual da procriação.

Classe e requinte são as duas palavras que me ocorrem, deitando assim por terra qualquer teoria interpretativa que não seja: “esta música é muita javardolas”.

Quanto ao arranjo musical, este é também dotado de uma beleza descomunal. A introdução causa-nos imediatamente pele de galinha e aquela estranha mistura do que me parecem acordeões desafinados, música eletrónica e o som dos carrinhos de choque da feira popular criam uma harmonia inigualável e que garantiram a Mestre Iran um lugar de destaque na História da Música.

Por ser das raras canções que consegue ser avaliada com um justíssimo 10/10 em todas as suas componentes, o primeiro lugar deste top não poderia ter sido melhor atribuído.

Parabéns Mestre Iran! Para quando um espetáculo seu em Portugal? E agora que está na moda os artistas convidar colegas de profissão para cantarem consigo numa música, que tal um Iran Costa featuring Maria Leal?

Pronto. Já tenho as calças molhadas.