As aulas de Educação Musical

As aulas de Educação Musical

Abril 25, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Flauta. Uma palavrinha singela e melódica e que marcou indelevelmente a infância de muitos de nós.

A passagem do 4º para o 5º ano era uma das maiores mudanças que uma criança de 10 anos podia ter na sua ainda curta vida. De uma assentada, deixamos de ter apenas uma professora que lecionava todas as disciplinas (com exceção de Educação Física) e passamos a ter uma imensidão de adultos a dar-nos aula, sendo cada um responsável pela sua própria disciplina, tendo de nos habituar a cada uma das manias e idiossincrasias de cada um dos “stores”.

Lembro-me de, no início de setembro, olhar para o meu calendário e constatar com entusiasmo que uma das muitas disciplinas novas era “Educação Musical”. Mal eu sabia o suplicio que aí vinha… Às vezes comovo-me com a minha própria ingenuidade.

Mas porquê a flauta?

A questão nuclear que devemos fazer ao programa desta disciplina é o seguinte: porque raio é que no meio de tantos instrumentos interessantes, tínhamos de aprender a tocar o menos másculo de todos? Quem é que, com a responsabilidade de escolher um instrumento para as crianças, tendo guitarras ou baterias à sua disposição selecionou aquele pífaro mal-enjorcado? Várias crianças sonham ser músicos, mas nunca vi nenhuma dizer que o seu sonho era ser flautista. Por alguma razão há-de ser.

Cheira-me que algum familiar de um proeminente individuo tinha uma fábrica de flautas, com muito material para escoar…

O meu talento como flautista

O meu primeiro contacto com este infame instrumento musical não foi o mais agradável. Pus a boca no bocal e soprei. O som irritante e estridente ainda hoje me atormenta os meus piores pesadelos. Segundo indicações maternais, quando aprendesse a por os dedos nos buracos certos (não sejam javardolas, sff) iria tocar lindas melodias.

Acho que isso nunca aconteceu.

Hoje assumo, com alguma vergonha que não era particularmente dotado para a arte de soprar para um pífaro. Embora tenha sido, até determinada altura, um aluno aplicado e com vontade de melhorar a minha performance nesta prestigiada arte, tendo até chegado ao ponto de treinar as minhas habilidades de flautista no conforto do meu lar (aproveito esta oportunidade para me desculpar perante os meus progenitores por este momento negro da minha adolescência e pela chiadeira que tiveram de aturar). Felizmente, tive uma miraculosa epifania e lá descobri que aprender a tocar flauta não era assim tão fundamental para a minha vida e que havia felicidade para lá do pífaro. Esta epifania aconteceu quando percebi que saber tocar flauta era merecedor de subir vários graus na escala de totó.

Foi nesta altura que orgulhosamente me assumi como um dos muitos flautistas medianos da turma, sendo muitas vezes encarregue pela minha professora de uma responsabilidade ímpar na hora dos espetáculos musicais: a caixa chinesa. Sim, eu ficava incumbido de tocar naquela minúscula caixa preta com um mini batuque. E se na flauta eu era uma Maria Leal, na caixa chinesa já era um sólido Tony Carreira (no sentido em que tocava sempre a mesma melodia).

O tema fraturante que ninguém ousa abordar

Chegou então a fase do artigo em que vou, finalmente, abordar o grande tema dos instrumentos de sopro e que, tantas e tantas vezes é escamoteado por uma comunicação social tendenciosa e submissa ao poderoso lóbi dos flautistas. Vamos falar de baba.

Depois de uma sessão de chinfrineira desenfreada (ou aula, se lhe quiserem chamar pelo termo técnico) era inevitável que o interior do bonito instrumento estivesse repleto de baba. O que era, convenhamos, nojento. E aquela espécie de piaçaba que servia para, supostamente, limpar o interior da flauta para além de não limpar grande coisa, era amiúde utilizada para nojentas lutas de espadas húmidas entre os convivas do sexo masculino, debaixo do olhar de profunda repugnância das meninas da turma.

Recordo com particular saudade as vezes (e não foram tão poucas quanto isso) em que após um momento de sublime concerto ficávamos com a mesa repleta de salpicos babosos. A flauta, por isso, não só não é um instrumento entusiasmante e que granjeia ao seu manuseador uma aura de rebelde, como também é um instrumento badalhoco. É este tipo de instrumentos que queremos para as nossas crianças bufarem desafinadamente? Urge pensar nestes temas tão pertinentes para a nossa sociedade.

A brilhante criatividade do Caca

Para terminar, queria apenas partilhar convosco uma bonita história: numa das minhas primeiras aulas desta saudosa disciplina, o TPC (essa mítica instituição) era criarmos nós mesmos o nosso próprio instrumento musical. Assim, imbuído de uma onda de profunda criatividade, peguei numa caixa de plástico (daquelas dos dodots), esvaziei-a e, delicadamente, coloquei lá dentro um calhau. Mas era um senhor calhau. Lindo, pontiagudo e cheio de terra. O instrumento consistia então em abanar vigorosamente a caixa. Revolucionário. O som era límpido e cristalino. Aquele calhau fazia um barulho tremendamente melódico. Quem dera a Bach, Beethoven ou Mozart. Estava brutalmente confiante naquele meu projeto que ainda me roubou uns preciosos 2 ou 3 minutos de juventude em que consistia em abanar uma pedra no interior de uma caixa vazia.

Tive Satisfaz Menos.