O Zé vai a um restaurante vegetariano

O Zé vai a um restaurante vegetariano

Abril 19, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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O Zé não queria acreditar no que os seus olhos cansados estavam a ver. Avidamente, perscrutou a ementa de uma ponta à outra, na ânsia de encontrar um singelo prato que contivesse um nico de carne.

Não encontrou.

Desanimado e sentindo-se profundamente traído, teve de se render às evidências:

— Maria, viemos a um restaurante vegetariano, não foi?

A malícia contida no olhar glacial da sua esposa não deixava margem para dúvidas.

— Se te tivesse dito antes, terias feito uma birra épica. E eu estou farta de ir sempre jantar a tascas onde todos os pratos tem mais gordura e colesterol que a minha tia-avó Rute.

Que exagero… — pensava o Zé. — É impossível uma refeição ter mais gordura que a paquiderme da tia-avó Rute.

— Mas sabes que eu não gosto de nada do que aqui está… — Lamentou-se, fazendo beicinho. — Isto é tudo comida de coelho.

— Tens de comer menos carne. Quer por questões de saúde, quer por questões ambientais. Escolhe lá qualquer coisa que te agrade, que eu estou esfaimada e quero pedir.

Obediente, o Zé voltou a passar os olhos pelo menu. Kibe vegetariano, arroz perfumado com lentilhas e cebola caramelizada, beringela recheada, moqueca de banana… Destes o único que o Zé tinha ouvido falar era da moqueca. Mas apenas da versão sem o prefixo “mo”. E soltou uma gargalhadinha grunha. A sua mente lasciva e infantil funcionava assim e não havia nada a fazer. Depois, os seus olhos humedeceram-se quando leu na ementa “hambúrguer de quinoa e beterraba”.

Como é que estes bárbaros foram capazes…?

O hambúrguer era algo que dizia muito ao Zé. Foram muitas e prazerosas as horas que passou a ingeri-los. Ver estes amados víveres serem construídos através da mistura de insípidas plantas e tubérculos era uma afronta pessoal com a qual o Zé não conseguia lidar.

Sabendo estar no limiar do choro, levantou-se com a maior dignidade que conseguiu reunir, afirmando ter de ir à casa de banho. Antes de ir, cometeu um pecado capital, do qual se iria arrepender amargamente nos momentos seguintes, dizendo à sua esposa: “pede para mim o que achares que eu vá gostar mais”.

Depois de longos minutos na quietude que só uma casa de banho pública nos consegue dar, o Zé recuperou a compostura e regressou à sua mesa, constatando, incrédulo, que a comida já tinha chegado. Mais incrédulo ficou quando olhou para o seu prato. Por mais que o seu cérebro tentasse descortinar as imagens que os seus olhos lhe enviavam, o Zé não conseguia perceber o que raio era aquilo que lhe fora servido. Só sabia que era mais colorido que as roupas do Batatinha.

— Prova — exclamou a Maria, assertivamente, como se tivesse a falar com uma criança. — Vais ver que vais gostar.

— Mas é o quê?

— Moqueca de banana.

Desta vez o Zé já não achou piada nenhuma ao nome.

— Tivemos sorte. Os nossos pratos eram os últimos disponíveis — complementou a Maria.

Isto até cheira bastante bem, reconheceu. Com redobrada confiança preparou-se para levar uma garfada à boca. Mas mesmo que esteja bom não posso dizer que gostei… Se o fizer vou comer comida de grilo para o resto da minha vida…

Mas o seu ténue sorriso desvaneceu-se quando o sabor da moqueca lhe chegou ao goto. Não é que fosse mau… Mas o carnívoro inveterado que habitava dentro de si recusava-se a aderir aquela mistela pastosa, mas tão saudável e nutritiva.

O Zé tentou. Mastigou. Engoliu. Tentou convencer-se de que estava a gostar daquilo. Mas as suas papilas gustativas traiam-no, enquanto o seu cérebro pensava num belo naco de lombo assado na grelha. Para aumentar a vontade de papar carne, perto do Zé estava uma septuagenária, cujo vestido lhe desnudava o que não devia e que nos lábios tinha batom que chegava para todos os clientes do restaurante pintarem as beiças, que se ria de dois em dois minutos, sendo detentora da famosa gargalhada suína, na qual misturava o som do riso humano com um ligeiro grunhido do amável mamífero.

Clique para ouvir o adorável riso de porco da decana

— Continua a comer. Vais acabar por te habituar ao sabor — retorquiu a sua esposa, lendo nas caretas faciais do seu marido o resultado daquela experiência degustativa. O timbre da sua voz indicava um tom impositivo que o Zé não estava com disposição para confrontar. Até porque, no fundo, sabia que a Maria só queria o seu bem. E, no fundo, sabia que era justo que fosse ela a escolher o restaurante daquela noite. Quanto mais não seja por ser o seu dia de anos.

Pela sua amada esposa iria conseguir comer a moqueca! A sua Maria merecia isso e muito mais.

O Zé engoliu. Simulou um esgar de felicidade e empurrou nova garfada pela goela abaixo. Enquanto ruminava nova porção da bonita e colorida refeição, teve de se render às evidências: não seria capaz de comer tudo aquilo que tinha no prato. Não por não ter barriga — pois essa tinha até em excesso — mas sim porque temia regurgitar aquele maná, ação que levaria uma merecedora reprovação por parte de sua esposa, que o lembraria eternamente de lhe ter estragado este dia de anos.

O Zé sabia que não tinha alternativa: teria de recorrer à artilharia pesada. Quando era criança e conhecido como Zezinho, o nosso amigo era aquilo a que se pode denominar como “um esquisitinho de merda”, no que a comida diz respeito. Neste sentido, para conseguir sobreviver no difícil mundo das cantinas escolares teve de desenvolver um conjunto de técnicas ninja que o livravam da nefasta tarefa de ingerir alimentos que não apreciava. Era altura do Zezinho regressar.

A primeira técnica que o Zezinho iria recorrer era a milenar “por comida no guardanapo e ir à casa de banho deitar fora”. Nos seus tempos de escola era infalível. Agora tinha os olhos de falcão da esposa pregados em si, pelo que sabia de antemão que não seria uma tarefa fácil. Na cantina da escola podia diluir-se no meio da multidão. Ali não o poderia fazer.

Confiante nas suas aptidões, levou a comida a boca, simulando o ato de mastigar. Quando a Maria levou os olhos para o seu prato, o Zé levou o guardanapo à boca, depositando a pasta de verduras que tinha na boca. Visivelmente satisfeito consigo mesmo, colocou o pedaço de papel amarfanhado na mesa, preparando-se para mais uma ida à casa de banho.

Ao regressar, foi com consternação que olhou para o seu prato. A porção que já tinha “ingerido” estava devidamente reposta. À sua frente, Maria exibia um sorriso dengoso:

— Sabes como é que eu sou, meu querido. Não consigo comer tudo, por isso pus-te um bocadinho da minha moqueca no teu prato.

O Zé suava. Teria a sua amável esposa descoberto o seu soberbo e complexo esquema? Não sabia. O que tinha a certeza é de que não poderia dar parte fraca. Por isso, puxou galantemente a sua cadeira e voltou a sentar-se. Enquanto mirava a maravilha de frutas e legumes que tinha diante si, o seu cérebro fervilhava em busca da próxima técnica ninja de desaparecimento de víveres saudáveis. Não podia voltar a recorrer à técnica do guardanapo, pois se regressasse aos lavabos a Maria desconfiaria de um problema intestinal.

O Zé sabia que tinha de dar tudo no próximo golpe. Era arriscado e tinha de ser perfeito, mas se corresse bem iria ficar, de uma assentada, sem a moqueca que tinha no prato. E, segundo a mMaria, não havia mais moqueca na cozinha do restaurante. Valia a pena o risco. Mas para funcionar, a sua cara-metade teria de olhar para o seu telemóvel:

— Querida, viste aquele post gigante que a minha irmã pôs no Facebook? Não sei se foi só a mim, mas parecia que estava a falar mal da família.

Instantaneamente, Maria abre a sua mala gigantesca, saca do aparelho e começa a tocar freneticamente no ecrã.

Olhando de soslaio para o soalho, o Zé aproveitou este precioso momento para, com um movimento felino, atirar uma porção generosa da água que tinha no copo para o chão. Não gostava de dar trabalho aos pobres empregados do restaurante, mas, por vezes, os grandes empreendimentos exigiam alguns sacrifícios. Depois, e exibindo o semblante mais impávido e sereno que conseguiu, chamou o empregado, exercendo um poderoso contacto visual que o impediria de olhar para o chão.

Resultou.

O voluntarioso colaborador do restaurante estugou o passo na direção do seu anafado cliente, pondo o pé exatamente no sítio onde o límpido líquido fora derramado.

O plano do Zé teve sucesso. O pobre empregado deu uma pirueta no ar, movimento que o Zé aproveitou para colocar o seu prato de moqueca ao alcance da mão que o empregado apoiou na mesa.

Foi o caos. A mão do desgraçado do empregado fez de trampolim, catapultando o prato a uma velocidade aterradora rumo às costas desnudas da septuagenária que ria como um porco, colorindo a sua pele rosácea com tons coloridos, como se uma pintura de Pollock se tratasse.

Muito atrapalhado, o elegante empregado de mesa apresenta mil desculpas a um Zé repleto de moqueca na careca (mas tremendamente feliz por dentro), fazendo questão de o limpar, enquanto o Zé dizia jovialmente que “não faz mal! Acidentes acontecem, meu caro amigo!”.

Quando o Zé, notoriamente feliz com a sua astucia, se preparava para pagar e sair daquele antro da comida saudável, o amável empregado fez-lhe sinal que se sentasse. O coração do Zé parou. Na mão do empregado estava outro prato com moqueca até cima, prato esse que foi delicadamente colocado diante do Zé, devidamente acompanhado com novo pedido de desculpas.

— Ainda tínhamos uma dose — disse o empregado, resplandecendo de alegria. — Desfrute, por favor.

A Maria riu-se como há anos não acontecia.