Euro 2000

Euro 2000

Abril 13, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Hino RTP para o Euro 2000

O Euro 2000 teve grande impacto na minha vida. E para perceberem o porquê tenho de fazer um breve preâmbulo: imaginem um puto que adora futebol, que vê todos os jogos que pode e que aproveita todo e qualquer intervalo das aulas para dar pontapés num esférico.

Agora imaginem que esse mesmo puto é adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica, clube que, como todos sabemos, teve no final dos anos 90 um período mais negro que o futuro do país, apresentando aos seus adeptos craques de renome como Martin Pringle, Samuel Okonowo, Emanuelle Pesaresi, Rojas ou Carlos Bossio. Lembro-me de o Benfica jogar tão mal que, em alguns jogos, até tinha pena dos poucos jogadores que tinham qualidade, como João Pinto, Nuno Gomes, Michel Preud’homme ou Karel Poborsky. Era como se tivessem na sua equipa uns velhinhos do Inatel. E velhinhos sem grande jeito para a bola.

Apesar de aguentar estoicamente este período negro do nosso clube, a verdade é que não tinha grandes motivos para festejar. E festejar é das maiores alegrias no futebol! Qual seria, portanto, o meu escape para ter alegria com o desporto-rei? A nossa seleção! Por isso é que os nossos amigos sportinguistas tiveram orgasmos múltiplos com a conquista do Euro 2016.

A Seleção de 2000

Em 2000, tínhamos uma seleção fortíssima que, segundo os mais entendidos, tinha possibilidades de fazer uma competição de alto nível. Poucos sonhariam com o caneco, mas a verdade é que na nossa equipa pontificavam estrelas de renome internacional como Luis Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Fernando Couto, Vitor Baia ou João Pinto, que pouco tempo antes do Euro fora dispensado pelo Benfica… os responsáveis por este atentado deveriam ter sido sodomizados à bruta por um individuo de etnia africana, portador de um barrote peniano de metro e meio. Só para ver se não repetiam a gracinha de dispensar uma referência do clube.

E depois da tristeza com a qualificação falhada para o Mundial de 98 (era novo demais para vibrar com a boa campanha tuga no Euro 96), o Euro 2000 tornou-se, para mim, na primeira oportunidade para festejar qualquer coisita no meu desporto de eleição.

E que campanha fez Portugal no Euro 2000!

O bem que a Seleção faz ao futebol português

As semanas em que joga a seleção numa grande competição tem uma particularidade pela qual nutro particular afeição: fala-se mais de futebol.

Durante a época desportiva, os adeptos mais acéfalos apreciam perder o seu tempo a discutir pormenorizadamente lances, muitas vezes inócuos, de arbitragem, destilando ódio sobre os rivais e esquecendo-se completamente dos valores de camaradagem e trabalho em equipa que qualquer desporto coletivo deve procurar incutir nos mais jovens. O conceito de desportivismo é, infelizmente, estranho para muitos portugueses.

O futebol em Portugal é um autêntico faroeste no qual as regras só servem para enfeitar e aquela coisa chamada ética é mandada às malvas, onde cada clube encarna a pele de uma velha coscuvilheira que apenas se sente feliz quando diz mal de outrem nas costas.

Quando joga a seleção, embora os jornalistas mandem a isenção e imparcialidade para o galheiro devido à bandeira do patriotismo, a verdade é que se fala muito mais do desporto em si e os adeptos rivais esquecem, momentaneamente, as quezílias bacocas e absurdas que perduram ao longo da época.

O desempenho da seleção

Em cima: Vítor Baia, Fernando Couto, Dimas, Jorge Costa, Abel Xavier e Rui Costa
Em baixo: Nuno Gomes, Paulo Bento, Vidigal, João Pinto e Luis Figo

Mas vamos ao que interessa! Inserida no grupo da morte, juntamente com Inglaterra, Alemanha e uma das seleções romenas mais fortes de sempre, Portugal limpou o sarampo às outras três nações, conseguindo três saborosos triunfos. E não sabemos qual dos três nos deixou mais extasiados: se estar a perder 2 – 0 contra os ingleses e virar o jogo para um épico 2 – 3, se marcar à Roménia no último suspiro do jogo ou se foi golear os alemães por 3 – 0, pondo em campo os suplentes, com um lendário hat-trick de Sérgio Conceição, atual treinador do Porto.

Resumo do Inglaterra x Portugal

Lembro-me perfeitamente de onde estava nos três jogos. No primeiro estava em casa com o meu pai e irmão, com todas as janelas possíveis abertas pois estava um calor dantesco. Só me lembro de duas coisas: de sentir o meu coração espezinhado quando os ingleses fazem o 2 – 0 e de sair a correr para a varanda, em cuecas, a festejar o golaço do Nuno Gomes, que ditava a estrondosa reviravolta.

No segundo jogo estava na festa de anos de um amigo, na qual mais de uma dezena de pré-adolescentes borbulhentos festejaram efusivamente o tento solitário de Costinha. Já no jogo em que o Sérgio Conceição violou à bruta onze pobres e indefesos alemães estava em casa dos meus avós, pelo que até corei por estar a visualizar conteúdos pornográficos ao lado da senhora minha avó.

Após uma exemplar fase de grupos, segue-se o jogo a eliminar contra a Turquia. Nova vitória de Portugal com um bis de Nuno Gomes (que Europeu fez o jovem Nuno!) e mais uma excelente exibição da equipa das quinas. É então que se começa a falar nas ruas e nos programas de televisão de algo que, para nós, inicialmente parecia completamente ridículo: Portugal era considerado um dos candidatos a trazer o caneco do euro para casa. Só de pensar nessa possibilidade dava saltinhos pouco másculos de alegria.

O jogo decisivo

Lembro-me perfeitamente de contar as horas para o início do jogo seguinte. Contra a França, atuais campeões do mundo. Os mais velhotes diziam ser a vingança de 84, quando a chegada de Portugal à final foi negada pela equipa dos bleus, liderada por Platini.

Quando chegou a hora do jogo e A Portuguesa começa a tocar, o meu jovem coração foi invadido por um nervosismo estranho e titubeante, que misturava excitação com uma fé inabalável naqueles onze homens com as quinas ao peito.

O jogo começa bem, com um golão (mais um) do Nuno Gomes. Aos 51’ Thierry Henry deu-nos o primeiro desgosto daquele final de tarde soalheiro. O segundo veio já no prolongamento, quando Abel Xavier (que fizera um Euro irrepreensível, é justo dizer) pôs aquela manápula gigante onde não devia. Penalty para a França, que Zidane, o careca mais temido pelos portugueses depois do Salazar se encarregou de bater.

É complicado explicar por palavras o sentimento de tristeza, frustração e raiva que invade o peito de um puto a quem lhe tiraram o tapete. “Aaaaah era tão bom que o Abel Xavier tivesse nascido maneta”, suspiraram tantos portugueses por esse país fora.

Resumo do Portugal x França

16 anos depois

Felizmente, 16 anos depois e contra o mesmo adversário que nos “roubou” a ida à final em 2000, um tal de Eder soltou uma charutada do meio da rua, comovendo toda uma Nação e trazendo para Portugal um merecido caneco que já teria ficado muito bem na excelente equipa de 2000.

Imagem amavelmente gamada ao www.zerozero.pt