Visita de Estudo

Visita de Estudo

Abril 5, 2019 1 Por Francisco Ramalheira
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Se há coisa que todos os estudantes amam de coração é uma visita de estudo.

Nem interessa onde vamos ou o que vamos fazer. Só o facto de nos libertar das aulas já é motivo mais do que suficiente para ser alvo da nossa mais profunda paixão. Mesmo a pior visita de estudo de todos os tempos era melhor do que estar nas aulas.

Uma ida a Évora

A visita de estudo que trago aqui a este conceituado fórum cultural é a mais épica que vivenciei, ao ponto de, ainda hoje, ser recordada com saudades por aqueles que participaram nesta odisseia.

O local da romaria era Évora. Estava eu no 3º ano. Provavelmente íamos ver o Templo de Diana, a Capela dos Ossos ou outros monumentos. Confesso que esta vertente cultural se apagou completamente da minha memória. O que as minhas lembranças infantis retiveram foi a sublime viagem que vou de seguida relatar:

Para começar bem, lembro-me de que tínhamos de estar tão cedo na escola que ainda era noite. Umas 5h e tal da manhã.  Sentia-me um rebelde! Estava na rua à noite… (Só anos mais tarde é que percebi que ser rebelde é chegar a casa as 5h e tal da manhã, não acordar pela fresca).

Depois de nos despedirmos dos ensonados progenitores, entramos para a carripana que nos ia transportar, dando assim início à grande aventura.

A viagem

Não sei como era convosco, mas na minha escola todos os putos queriam ir na parte de trás do autocarro. Que era onde iam os mais fixes. Grandes discussões se criavam à volta desta questão que é, como todos sabemos, tão importante. E como os mais fixes iam nos bancos de trás, eu era, naturalmente dos que ia mais a frente, inserido na trupe dos tótós. Mas a verdade é que, nesta viagem, ser tótó salvou-me a vida! Mas já lá vamos.

A viagem foi longa. Para nos entretermos íamos cantando alegremente clássicos juvenis, tais como “Senhor Paiva por favor ponha o pé no acelerador, se chocarmos não faz mal, vamos todos para o hospital “. Eu achava que fazia mal, pois ir para o hospital era algo que não estava no meu top 50 de coisas a fazer. Mas cantava à mesma. E acabamos mesmo por ir para o hospital, mas já lá vamos.

Mas eu, individuo erudito e de fino sentido de humor, tinha como a minha preferida a seguinte cantilena: “1 2 3 4 5 6 7, viva a nossa camionete; 7 6 5 4 3 2 1, o (inserir nome de alguém aqui) deu um pum”. E depois riamo-nos todos muito. Eu e o humor escatológico sempre tivemos uma relação de grande proximidade.

Mas como nenhum adulto tem paciência de ferro para aturar 3 horas e tal de músicas de autocarro, as professoras e as auxiliares lá nos pediram encarecidamente para fazermos outras coisas, pelo que os putos começaram a sacar das cartas e dos Game Boy para se entreterem. No entanto, o ecrã fosco e monocromático da portátil da Nintendo deve ter revirado alguns estômagos mais frágeis pelo que, rapidamente, foi feita uma paragem de emergência para que duas ou três crianças pudessem expelir o pequeno almoço na frondosa mata da estação de serviço. De seguida, muitos alunos quiseram fazer xixi. Quando os mijões voltaram, todos aqueles que tinham jurado a pés juntos à professora que não tinham vontade de urinar/defecar descobriram, miraculosamente, que afinal também precisavam de visitar as limpas instalações sanitárias da bonita estação de serviço.

Não me lembro do resto da viagem, pelo que depreendo que decorreu sem sobressaltos de maior.

Um almoço para mais tarde recordar

A minha lembrança seguinte é do momento em que paramos para almoçar, num sítio calmo e verdejante, no qual dezenas de alunos tiram as suas marmitas das mochilas do Rei Leão, do Sonic e do Dartacão, dando inicio a um repasto que consistia basicamente em cachorros, sumos e hambúrgueres.

É nesta altura que um dos meus adoráveis coleguinhas – curiosamente, o mesmo que se mascarou de Sonic (ler artigo) no carnaval – saca da sua marmita, exibindo o sonho de refeição para qualquer criança: peixe cozido com batata e ovo.

Classe.

Não quero estar para aqui a exagerar e pode ser a minha memoria a tentar tornar o momento mais engraçado do que aquilo que efetivamente foi, mas acho que até uma garrafinha com azeite a criatura levou. Após ter morfado aquilo tudo, deu-lhe com três cornetos de morango que comprou no café.

Até aqui tudo bem.

Voltamos ao autocarro de bandulho cheio. E foi a partir daqui que a epicidade teve início.

Pouco tempo depois de termos retomado a marcha ouço um barulho estranho na parte de trás do autocarro. Onde estava a malta fixe. Antes que o meu jovem cérebro descortinasse o que era, um cheiro nauseabundo a peixe com corneto invade as minhas jovens narinas. Depois, gritos estridentes de meninas ecoam por todo o veículo. Olho para o chão e reparo num pequeno regato verde que corre livremente no corredor desde o fundo do autocarro até aos locais da frente.  Lá atrás, o puto do peixe cozido permanecia de boca aberta, com um potente jato de líquido esverdeado a jorrar pelo orifício bocal. Jato esse que acertou noutros miúdos que estavam perto do vomitador em série.

E como todos sabem, vomitar é como rir: é contagioso.

Por isso…  houve mais crianças inocentes a regurgitar os víveres ingeridos ao almoço. O pequeno regato transformou-se num bonito rio, composto por uma amalgama de secreções intestinais que tornaram o ar irrespirável e que obrigou a nova paragem, esta bastante mais prolongada, visto que era necessário socorrer as vítimas e limpar a carrinha.

A mítica frase “enterrar os mortos e cuidar dos vivos” do Marquês de Pombal, finalmente fez todo o sentido no interior da minha jovem mente.

Nunca tinha visto a minha professora da primária tao branca. Se até então nunca tinha repensado nas suas opções de carreira, naquele dia fê-lo certamente. E ninguém a pode censurar. Eu, no lugar dela, naquela atura teria apanhado um táxi de volta para a escola.

“Obrigado meu Deus por me teres posto nas filas da frente”. Rezo eu todas as noites, a partir daquele fatídico dia.

Quando voltamos a entrar o cheiro a vomitado ainda era muito intenso, mas não podíamos perder mais tempo, pois ainda nem tínhamos chegado a Évora. Felizmente a flatulência dos putos abafou um pouco o cheiro.

A vertente cultural da visita

Falando agora da vertente cultura desta visita de estudo, vou tentar resumir ao máximo a narrativa, de forma a não tornar este texto demasiado extenso: não me lembro de nada. Tenho uns vagos vislumbres de ver umas ruínas. De resto as minhas lembranças são um vazio pelo que vamos prosseguir para o que interessa.

A promessa ao Sr. Paiva e a revolução do autocarro

Lembro-me apenas que na altura em que estávamos a ir embora começou a chuviscar. Estávamos perto do verão, mas naquele dia tudo ia acontecer. Depois, não me lembro bem como, mas quando regressámos ao autocarro houve um dos meus colegas de turma que conseguiu a façanha de, enquanto brincava com a reclinação do assento, partiu qualquer coisa. Mas não foi qualquer coisa do assento, foi mesmo no seu enfezado corpito. No autocarro é suposto irmos sentados. Como é que alguém faz cabrioladas ao ponto de partir uma parte do corpo é algo só ao alcance de uma adorável e irrequieta criança. E fomos todos para o hospital. Tal como tínhamos dito ao Sr. Paiva.

Mas vocês sabem como funcionam os hospitais tugas não sabem? Não sei quanto tempo estivemos à espera. Só sei que foi muito. E durante esse tempo ficamos fechados no interior do autocarro (relembro que chovia). Agora imaginem dezenas de putos fechados num espaço exíguo. Paulatinamente, as restantes professoras e auxiliares entregavam-se ao desespero e deixavam de ter força para ralhar com dezenas de putos barulhentos.

Aos poucos, a revolução estudantil ia galgando metros e íamos conquistando o autocarro. As tropas dos adultos estavam cada vez mais exaustas e havia cada vez mais baixas devido a dores de cabeça. Penso que vi uma das professoras a cavar uma trincheira. O motorista ia fumar de 5 em 5 minutos. Ao final da tarde já tínhamos colocado triunfantemente a nossa bandeira nas terras dos adultos. A batalha estava ganha. O autocarro era nosso!

Para além das músicas e gritinhos, já ninguém estava sentado. Havia diablos no corredor. Pega-monstros no teto. Grandes batalhas de tazos nos bancos. Aquele autocarro repleto de crianças era o melhor método anti-contracetivo de sempre. Bastava colocar lá dentro um adulto com vontade de ter um descendente que essa vontade passaria em parcos segundos.

Quando a professora e o aluno acidentado finalmente saíram do hospital, o suspiro de alívio dos restantes adultos ouviu-se a 20 quarteirões. Estava na hora de voltar para casa.

Depois de mais uma inusitada paragem para xixi, cocó e vómitos (desta vez as professora aprenderam a lição e não deixaram o vomitador em série comer um gelado), acabamos por chegar à escola perto da meia noite. A hora de chegada era as 19h.

Foi a melhor visita de estudo de sempre.