Caca analisa programas … de caca

Caca analisa programas … de caca

Março 24, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Aquela malta que critica a grelha televisiva da televisão portuguesa recebeu ultimamente reforços de peso para usar quando quiser achincalhar a programação dos nobres canais nacionais.

Eu, confesso, não estou muito por dentro do que se vai passando na televisão tuga. Sou um labrego muito simples: a televisão para mim serve para ver a bola e netflix. Mas como de vez em quando lá saio da caverna em que habito, tomei conhecimento de que, recentemente, chegaram ao nosso bonito país uns Reality Shows de qualidade ímpar, que é importante analisar e que veem abrilhantar os serões dos portugueses.

Num mistura-se amor com o trabalho agrícola (finalmente! Dirão muitos de vós), noutro há uns choninhas sem namorada que recorrem à sua santa progenitora para que esta escolha a sua cara-metade por eles, sendo que a principal qualidade para estas extremosas mães é que a sua futura nora seja boa dona-de-casa, pois os choninhas não sabem fazer nada. Conceito apaixonante. Por último, parece que temos um “Regresso às Origens”, que no fundo despoja a malta de todos os seus bens materiais, pondo-os nus pela rua. Tipo Carnaval brasileiro.

Um momento de reflexão

Em primeiro lugar, gostaria de decretar um minuto de silêncio em memoria da massa encefálica dos indivíduos e individuas que se inscrevem neste tipo de programa. Adorava observar o processo cognitivo que culmina com alguém achar que é uma excelente ideia participar numa coisa destas.

Pronto. Já está.

Agora um minuto de silêncio em memória da massa encefálica dos indivíduos e individuas que pensam que as moças roliças que participam nisto não são contratadas pela produção do programa. Não há dúvida que aquilo que uma mulher mais quer é encontrar o amor da sua vida num programa destes. Há, inclusive, vários contos de fadas que abordam esta pertinente questão. O próximo filme da Disney até será sobre isto.

Pronto. Já está.

Agora que já tivemos dois minutinhos para refletir sobre a vida, vamos dar início ao escrutínio destes hinos à cultura.

Os canais privados

Em primeiro lugar, sendo os canais transmissores entidades privadas e que, como qualquer empresa, tem como intuito gerar lucro, apresentarão aos seus espetadores os conteúdos mais suscetíveis de gerar audiência.

Se me perguntarem se eu acho que na estratégia dos canais privados também deveria estar imbuída de preocupações sociais, éticas e culturais, eu respondo com um contundente e retumbante “sim”! Mas como a verdade não é assim tão poética e são os cifrões o elemento primordial na hora de escolher conteúdo televisivo, estes canais dão ao público português… aquilo que o publico português quer ver. A triste verdade é esta, meus amigos. Pode-se falar muito mal destes programas, mas a verdade é que se ninguém os visse… os canais não os transmitiam.

É como aquele gajo que se queixa (e com razão) da quantidade absurda de programas desportivos de qualidade duvidosa, mas depois passa a noite de domingo e de segunda-feira a papá-los a todos, a ver aquela malta discutir lances de arbitragem durante horas, destilando ódio que nunca poderia ter espaço no desporto.

Quando o primeiro Big Brother estreou e, admitamos, revolucionou a televisão portuguesa, o povo português tinha uma desculpa para consumir aquela xaxada. Não só era novidade (desde então já apareceram uma miríade absurda de programas do género e de sequelas do Big Brother), mas também, e embora já houvesse tv cabo, a oferta televisiva não era a mesma dos dias de hoje. Eu quando era um alegre jovenzito só podia optar entre o Batatoon e o Buereré, os putos agora tem mil canais na tv cabo e outros mil no youtube. É a vida.

A massiva oferta de conteúdos

Hoje para além de centenas de canais, ainda há aplicações como o Netflix e a HBO que tem uma oferta absolutamente gigantesca de séries e filmes. Por isso, aquele argumento do “eu só vi o programa em que as mães escolhem uma empregada doméstica para o totó do filho porque não estava a dar mais nada de jeito” já não pega.

“Eu vi aquela jagunzisse porque quis!” é o que temos de dizer para nós mesmos quando optamos por dar audiências a estes programas. O que não tem nada de mal; vivemos numa sociedade livre e cada um vê o que quer. Mas a hipocrisia de criticar a infâmia destes reality shows e depois ser uma fonte de audiência para os mesmos é que me causa comichões.

Por isso o primeiro passo para quem critica estes programas é muito simples: não vejam. O segundo passo é não escrever artigos sobre eles num blogue de qualidade manhosa, dando-lhes visibilidade. O terceiro e último passo é serem mais rigorosos com os programas que vêem na televisão. Por exemplo: se defendem que devia haver mais programas culturais, quando passar um experimentem vê -lo.

“Ah mas se for só eu a fazer isso não tem qualquer impacto”.

Verdade. Mas se forem muitos… É a tal coisa de que se cada um fizer a sua parte o mundo é melhor para todos, mas aplicado aos programas de televisão.  

Os reality shows do futuro

Mas como isso nunca vai acontecer, afinal de contas este tipo de programas é demasiado barato e tem demasiadas audiências para falecerem, aproveito esta magnifica oportunidade para deixar aqui ideias (que considero absolutamente geniais) para futuros programas de entretenimento de soberba qualidade:

  • Quem quer enfiar um lápis no olho?
  • Quem quer combinar uma peladinha de futebol e no final, em vez de trocar camisola com o adversário, troca a cueca?
  • Quem quer ser espancado por uma dúzia de seguranças e ficar com o corpinho todo repleto de mazelas, postulas e gangrenas?
  • Quem quer passar uma noite numa cela escura e húmida na companhia do Carlão, um individuo com mais de 2 metros e que aprecia praticar o coito com outros senhores?
  • Quem quer inscrever o seu filho traquina num programa para ele ser enxovalhado por uma psicóloga?
  • Quem quer pôr o seu dinheiro num banco e depois ver os banqueiros desbaratá-lo na concessão de créditos de risco com tarifas muito especiais a uma pequena fatia da população?
  • Quem quer dar dinheiro a uma estação televisiva, defecando na sua autoestima e sujeitando-se a humilhar-se à frente de toda a gente, entrando para um reality show?

Ah… Este último parece que já existe. E o penúltimo também. Bolas. E não é que o antepenúltimo também? Parece que afinal não consigo dar assim tantas ideias novas para as cadeias de televisão aproveitarem…