O Zé vai às compras

O Zé vai às compras

Março 16, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Uma das maiores tortura a que podem submeter um homem é obrigá-lo a ir às compras. E o Zé é um homem. Esta tortura é ainda maior quando sua distinta esposa lhe dava uma lista na qual constam víveres que o pobre diabo nem sequer sabia que existiam. O Zé é um homem simples. Gosta de carne e cerveja. Para ele, chia é o barulho que os ratos fazem e girassol é uma flor amarela. Se lhe perguntassem se preferia levar com uma malga de azeite a ferver pelos costados abaixo ou andar a pesquisar minuciosamente todas as embalagens de linhaça para encontrar aquela que a sua esposa acha “que tem melhor sabor” o Zé provavelmente optaria, e bem, pela primeira opção.

Naquele fatídico dia o Zé não se conseguiu safar. Maria, a sua esposa, tinha outros importantes afazeres, pelo que recaiu sobre os seus ombros o pesado fardo da responsabilidade de fazer compras. Mal chegou ao supermercado, constatou que não tinha moeda para o carrinho. Não pensem que a falta de moeda se deve ao facto de o Zé ser daqueles magnatas obscenos que anda apenas com notas. Quem lhe dera. O Zé tinha os bolsos cheios de moedas. Não tinha era nenhuma de 50 cêntimos.

Praguejando entredentes e murmurando uma praga à sua boa sorte meditou sobre as suas opções: ir até ao café trocar dinheiro ou ir à rambo para as compras, carregando tudo em sacos. Como o café ficava a dois quarteirões optou por encarnar a mítica personagem de Silvester Stalone.

Ao entrar no supermercado, a integridade física do Zé foi barbaramente violada, quando um carrinho desgovernado conduzido por um senhor de idade ataca barbaramente as suas canelas inchadas.

— Tem de ver por onde anda! — retorquiu amargamente o velhote ranzinza.

— Peço desculpa por estar aqui parado e levar com o seu carrinho em cima — respondeu o Zé sarcasticamente, enquanto esfregava vigorosamente a canela macerada.

O simpático idoso não captou a ironia, por isso encolheu os ombros e seguiu o seu caminho, continuando a conduzir o seu carrinho como um maníaco em contra-mão. Rapidamente Zé apercebeu-se de que o momento mais doloroso do seu dia não seria levar com uma traquitana na canela, mas sim descodificar os hieróglifos que compunham a letra de sua distinta esposa.

Ao aperceber-se de que, afinal, os óculos era um utensílio indispensável para aquela odisseia no supermercado, o Zé começa a suar quando olha para a lista das compras e parece-lhe que o primeiro item é um “cacetete”.

Quando a sua mente atingiu o pináculo da sua concentração, os seus tímpanos são abalroados pelos guinchos estridentes de dois adoráveis meninos, que resolvem que a melhor forma de a sua progenitora adquirir gomas é dar início a uma berraria de proporções épicas. A mãe reagiu como manda a Lei, fingindo-se de surda e ignorando o incomodo que os seres mimados que expeliu da sua vagina estavam a causar aos demais transeuntes.

Após ter recolhido nos braços todos os itens da lista da esposa (orando a todos os santinhos para que tivesse conseguido decifrar a letra), o Zé passou pelo corredor dos doces e vendo em promoção os chocolates preferidos da Maria esticou a sua anafada manápula na direção da prateleira, açambarcando meia dúzia de embalagens.

Quando for levar nas orelhas por não acertar as compras todas, dou-lhe os chocolates. São o meu trunfo, pensou confiante.

Satisfeito consigo próprio, o Zé passou pelo talho, ficando embeiçado por uns croquetes monstruosos e com um aspeto de tal forma apetitoso que as papilas gustativas do nosso amigo começaram de imediato a salivar. Com a solenidade que o momento exigia, tirou uma senha, constatando, com alegria, de que era já o próximo cliente a ser atendido. Olhando para a montra contou 24 croquetes.

Mesmo que esta velhinha simpática que está à minha frente peça alguns sobram muitos para mim…, constatou enquanto lambia sofregamente as beiças.

— Bom dia senhor Arlindo — ouviu o Zé uma voz sumida de idosa vociferar. — Queria esses 24 croquetes, por favor.

Um estrondo ecoou em todo o estabelecimento comercial. O queixo do Zé embatera com toda a força no chão.

— É que o meu netinho, o Luis Miguel, faz anos. Ah nem queira saber o que esse maroto me fez ontem. Então não é que…

Mas o Zé já nem ouvia a história da enfezada anciã. Tinha perdido os croquetes. Os seus amados croquetes. O sonho de os morfar alarvemente enquanto via o jogo do Benfica esfumava-se. Os amiguinhos do Luis Miguel iam fanar-lhe aquele momento prazeroso de degustação. E agora?

Não posso chorar! São só croquetes! — Pensou o Zé, fazendo-se homem — e também estão ali umas chamuças com excelente aspeto.

— Mas já estou a divagar Sr. Arlindo, olhe as chamuças também tem muito bom aspeto. Quantas tem aí?

O Zé gelou.

— Tenho aqui 8 dúzias, Dona Arlete.

Porra, o Luis Miguel também não vai enfardar 96 chamuças. Mal seria se…

— Levo todas!

Se houve altura em que o Zé teve vontade de pontapear um andarilho foi aquela. Inspirou fundo, verteu uma lágrima e correu para o corredor das batatas fritas. No entanto, como correr não era uma atividade para a qual o Zé estivesse talhado, a sua épica descoordenação motora pregou-lhe uma infame partida e o nosso amigo ouviu um som que não queria ter ouvido.

Tendo já uma cascata de suores frios a percorrer-lhe os costados, o Zé olhou para o chão. O seu temor confirmou-se. No chão outrora limpo do supermercado jazia a caixa de ovos que o Zé levava na mão, impregnando aslajes do soalho com uma pegajosa gemada.

Aos poucos, um leve sentimento de arrependimento por não ter voltado atrás para ir buscar uma moeda para o carrinho começou a brotar no coração do Zé.

Foi então que apareceu no canto do corredor, completamente desvairada, uma das crianças birrentas que prendavam o estabelecimento comercial com os seus berros incessantes. O menino, concentrado na árdua tarefa que é gritar, não reparou na recém-criada gemada, pondo-lhe o seu bonito ténis em cima o que o levou a derrapar graciosamente rumo à prateleira das batatas fritas, esbarrando com estrondo contra os pacotes.

E foi aqui que as testemunhas se dividiram: metade foi de imediato ajudar o menino (que agora, curiosamente, não berrava), enquanto a outra metade ria-se a bandeiras despregadas daquele bonito momento de patinagem. A outra metade é composta por más pessoas. O Zé estava nesse grupo. (E o menino não se magoou; as “Aventuras do Zé” promovem as quedas cómicas, mas não as pernas partidas).

Rejuvenescido com aquele oásis que estava a ser o seu dia de fezes, o Zé pegou nas batatas que queria e dirigiu-se até à caixa, onde constatou que havia fila (ou bicha) em todas as faixas de pagamento, pelo que o nosso amigo tinha de optar por uma.

E é aqui que vos vou falar de um Dom que o Zé tem: escolher erradamente a fila de pagamento num supermercado. Por norma, os comuns mortais escolhem aquela que lhes pareça a mais curta. O Zé é um comum mortal. O problema é que, independentemente da fila que escolha, é sempre essa a que tem algum abécula que encalha todo o complicado processo de passar o item na maquineta e ensacar as compras.

Hoje não foi exceção. O Zé dirigiu-se para a fila com menos gente, tendo à sua frente apenas uma velhinha, que se preparava naquele momento para começar a pôr as suas compras no tapete rolante.

E foi aqui que o Zé se voltou a arrepender de não ter trazido os óculos. Caso o tivesse feito teria certamente reparado que à sua frente estava a sua nemesis, a idosa devoradora de croquetes e chamuças. Assim só reparou quando ouviu uma voz a dizer:

— Ah que maçada… Não é que me esqueci das gomas! Ai esta minha cabeça… Ando a mil é o que é! Sabe, é que o meu netinho, o Luis Miguel, faz anos. Ah nem queira saber o que esse maroto me fez ontem. Então não é que…

O Zé chorou por dentro. E quando chegou a casa quase chorou por fora, quando a sua esposa viu as compras que ele trazia nos braços. E os chocolates só pioraram a sua situação: parece que a Maria estava de dieta, tendo comunicado ao seu marido esta importante decisão na véspera, pelo que o Zé levou com uma tablete na testa e foi acusado de não saber ouvir.

Nesse dia, quando se deitou, uma voz sumida ecoava na sua cabeça: “é que o meu netinho, o Luis Miguel, faz anos! Ah nem queira saber o que esse maroto me fez ontem. Então não é que…”