Ainda podemos salvar o planeta?

Ainda podemos salvar o planeta?

Março 15, 2019 1 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Desde que me lembro de ser gente que ouço falar em problemas ambientais. E desde que me lembro de ser gente que não me recordo de ver medidas drásticas e eficazes para combater este problema que, parecendo que não, nos afeta a todos.

E não é por falta de aviso: ao longo dos últimos anos foram milhares as vozes que tem alertado a Humanidade para o facto de estar a caminhar para um ponto em que não há retorno. Já houve cimeiras. Já houve palestras. Já houve colóquios. Já se criou Leis para obrigar os países a poluir menos (e os que poluem mais são os que menos ligaram a estas diretivas). Mas, infelizmente, o que foi feito é muito pouco e, como tal, caminhamos a passos largos para um abismo ambiental que poderá culminar com o fim da Humanidade como a conhecemos hoje. Não há que ter medo das palavras, por muito duras ou prospetas a insónias que possam ser.

“A catástrofe climática parece inevitável e o mundo está a falhar em travá-la”


António Guterres, secretário-geral da ONU

O ponto de situação

Muito resumidamente, o problema é este: o aquecimento global não pode ir além de 1,5ºC ou será difícil viver neste planeta ainda antes do final deste século.  Se não se tomarem medidas ambiciosas nos próximos 12 anos para limitar esta subida média da temperatura, o planeta ficará muito diferente daquele em que vivemos. E não é para melhor. A ONU tem de deixar de fazer “recomendações” e decretar “obrigações” às quais nenhum país pode deixar de cumprir. As medidas são urgentes e são para agora. Amanhã já pode ser tarde demais.

Então se a situação tem este caracter de urgência, o que é que impede a Humanidade de agir? Parecendo que não, trata-se da nossa sobrevivência. Tema que deve preocupar todos aqueles que apreciam existir.

Os negacionistas obtusos

Mas parece que há pessoal que, perante as evidências inequívocas de que o aquecimento global é uma realidade, preferem fazer de avestruz, por a cabeça debaixo da areia e fazer de conta que tudo está bem.

O mais conhecido é o atual presidente norte-americano, que considera as alterações climáticas “um embuste” inventado pelos chineses para afetar a indústria americana, afirmando “não acreditar” no resultado dos estudos apresentados pelas principais instituições científicas americanas. Transformar o Aquecimento Global numa Religião em que podemos acreditar ou não é algo absurdamente cómico e que daria um belo sketch humorístico. Quando quem profere estas palavras (e, repito, sem estar no gozo) é uma das mais influentes personalidades da atualidade… É absurdamente preocupante.

Deste tipo de postura só podemos retirar duas possíveis conclusões: ou esta malta come gelados com a testa, gelado esse que derrete a um ritmo alucinante  (atentem, por favor, à soberba metáfora que aqui foi feita para mencionar o preocupante fenómeno do degelo) ou há grupos poderosos com interesses na produção de combustíveis fósseis que não querem que se interfira nos seus mecanismos de liberdade de mercado. Estou ligeiramente inclinado para a segunda opção.

Que o dinheiro move o mundo já todos sabemos. Que a ganância possa ser de tal ordem que faça alguém não se importar com o futuro (muito próximo) dos seus filhos e netos é algo que merece o mais profundo dos repúdios.

Mas o que podemos nós fazer?

Em primeiro lugar, podemos fazer a nossa parte. É um contributo pequeno e singelo, é certo, mas multiplicado por milhões faz a diferença. Um ato tão simples como reciclar não é ainda pratica corrente em muitas casas. Sabiam que, em pleno 2019, ainda há tantas almas (principalmente as com idade mais avançada) que olvidam esta prática elementar? Sabem porque? Porque lá no íntimo pensam que quando o planeta implodir eles já cá não estarão para testemunhar o cataclismo. Por isso misturam o seu exacerbado egoísmo com o lixo orgânico, o papel e os plásticos, enquanto martelam mais um prego no caixão onde a Humanidade está a colocar o planeta.

Em segundo, podemos fazer uma pressão asfixiante sobre os órgãos de decisão. Na Suécia, uma menina de apenas 16 anos, de seu nome Greta Thunberg, compreendeu isto muito bem. Numa sexta-feira de finais de agosto, recusou-se a ir à escola e sozinha foi para a frente do Parlamento sueco. “Há quem diga que devia estar na escola: mas porque hei de preparar-me para um futuro que pode não existir?”. No mês seguinte, discursava na Cimeira do Clima da ONU, acusando os líderes mundiais de não serem “suficientemente maduros para encarar os factos e deixarem o peso das alterações climáticas para as crianças”. Vejam as imagens e vídeos da miúda na ONU. É incrível como no meio de tanto engravatado, quem enverga o traje menos pomposo é quem mete os dedos todos na ferida.

Recentemente, esta valorosa jovem foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz. Não conheço esta Greta, mas desconfio que o desejo dela não seja ter um trofeu no topo da lareira de sua casa (por muito bonita que seja a estatueta do Prémio Nobel), o que ela quer mesmo é chegar a velhinha. Acho que é o que queremos todos. E no departamento do levar a Greta a velha pouco foi feito.

“Eu não quero que sejam esperançosos, quero que entrem em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias e depois quero que ajam”.


Greta Thunberg

O exemplo dos jovens

Felizmente houve quem ouvisse os apelos da miúda sueca. Se calhar não foi a malta com poder para efetivamente fazer alguma coisa. Mas se calhar por isso é que este movimento está a ter tanta força e a apaixonar o mundo.

Quem ouviu Greta foram os seus pares: as crianças e os jovens de todo o mundo.

Os tais que vão herdar um planeta acamado e cheio de reumático.

Os tais que não tem culpa nenhuma em receber um planeta em tão mau estado.

Os tais que merecem um pedido de desculpas por parte dos energúmenos que poluem para poderem encher os bolsos.

Assim, a jovem Greta criou o movimento global “SchoolStrike4Climate”, que exige medidas em defesa do clima. Em vários pontos do globo milhares de jovem faltaram às aulas para mostrarem aos senhores doutores engravatados a sua preocupação com a extrema gravidade da situação. Foi com incontido orgulho que testemunhei a participação dos nossos alunos nesta manifestação que não é mais do que uma lição de humanidade, civismo e respeito.

Os alunos não faltaram às aulas. Deram foi uma a todos os adultos.

 “Não existe um plano B, porque não temos um planeta B”


Ban Ki-Moon, antigo secretário geral da ONU

Tenho esperança que este movimento iniciado por Greta seja, finalmente, o pontapé de saída para que medidas corajosas sejam tomadas e que se mandem os interesses económicos às malvas. Não adianta ter uma conta recheada num banco suíço se depois falecemos com cancro de pele aos 30 anos. Há que, definitivamente, afastar dos locais de decisão a malta que não percebe este conceito tão elementar.

Estão a ver aqueles filmes de ficção científica em que as catástrofes naturais assolam o nosso planeta e a humanidade é quase dizimada? Estas histórias têm cada vez menos de ficção. A este ritmo, em breve serão documentários.

Obrigado à Greta e aos milhares de crianças e adolescentes que mostram maior sensibilidade cívica que muitos adultos. E a minha mais profunda vénia a todos os que trabalham não só para que haja um amanhã melhor, mas para que haja de todo um “amanhã”.

#fridayforfuture

Nota: recomendo vivamente a leitura deste artigo simples, mas repleto de conteúdo, da autoria da malta do Expresso.