A partilha de música

A partilha de música

Março 9, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Já nos conhecemos há algum tempo, por isso penso que estou preparado para partilhar isto convosco. É uma informação muito pessoal mas após tantas aventuras juntos acho que vocês merecem saber…

Não é fácil para mim admitir isto.

Pronto. Cá vai.

Eu ando de transportes públicos.

Ufa. Soube bem tirar este peso de cima das costas.

Não é por gosto, atenção! Não nutro particular afeição por fazer travessias em comboios lotados e sem manutenção, praticando o doce roça-roça com simpáticas septuagenárias. Nem sou o maior fã daquelas greves fantásticas à sexta-feira que nos lixam o final da semana e abrilhantam o fim-de-semana prolongado dos grevistas. Mas a verdade é que se levasse o carro para o trabalho não só tinha de arranjar um segundo trabalho para poder pagar o parquímetro, como tinha teria de fazer manobras dignas do Chapitô para poder enfiar o meu calhambeque naqueles espaços exíguos que em Lisboa apelidam de “estacionamento”.

Por isso sim, todos os santos dias sou um feliz utente do soberbo transporte público que é o comboio. Que tem coisas boas, atenção! Por exemplo, é graças aos transportes públicos que pude ter o privilégio de estar em contacto com um grupo de indivíduos altruístas, que fazem da partilha o seu lema de vida. A eles, a minha devida vénia.

Os anjos do Carril

Estou, naturalmente, a falar daqueles indivíduos que fazem questão em partilhar a sua música com toda a gente da carruagem, fazendo o favor a todos de não usar fones, pondo as suas canções a tocar aos altos berros em todo o comboio. Eu chamo-lhes os “Anjos do Carril” (também há quem lhes chame mitras). Quem não aprecia ouvir uma boa kizombada logo às 8h da matina não sabe apreciar as coisas boas desta vida terrena.

Este é, portanto, um artigo de agradecimento a todas estas boas almas que nos querem alegrar o dia. No entanto, e sei que agora vou chocar muita gente e que vão chover emails de indignação (é o preço por ser um rebelde disruptivo), há uma coisa que esta malta pode não ter percebido que é: nem toda a gente, por alguma razão, pode ter vontade de ouvir a vossa música. Eu sei que isto é chocante, mas acreditem que é verdade.

Os DJs da CP

Ainda por cima, meus queridos “Anjos do Carril”, o vosso reportório musical é muito “pucanino”. É um quizomba ali, rap acolá, uma musiquita pimba amiúde, uma brasileirada insonsa daquelas que batem forte no Urban… Se é para serem os DJs oficiais da CP ao menos tentem introduzir alguma variedade!

Eu por exemplo, sou fã daquelas músicas em que os arranjos são feitos mesmo com instrumentos (à antiga!) em vez de virem de caixas de mistura de um computador. Às vezes estou a dormitar (ou a tentar) passa um “Anjo do Carril” com o seu som a bombar e eu sou imediatamente transportado para uma pista de carrinhos de choque da feira popular.

Mais: sendo os gostos musicais algo extremamente subjetivo, pode haver gente que não goste da vossa música. Eu sei que parece inacreditável, mas pode acontecer! Eu, por exemplo, se passasse alguém a gingar pela carruagem fora, de boxer de fora e com uma coluna a bombar Pearl Jam ou Oasis isso iria dar cor ao meu dia. Mas estaria errado à mesma, pois poderia incomodar pessoas que não gostam destas músicas. Percebem?

A proposta revolucionária do Caca

Como é que podemos ser todos amigos e evitar incomodar os simpáticos cidadãos que viajam em transportes públicos? É fácil! Há umas geringonças que se metem pelo orelhame adentro e que faz com que apenas tu ouças a música que o teu aparelho esta a tocar! Não é fascinante? Estas novas e modernas tecnologias conseguem fazer magia. O homem supera-se a ano que passa. Depois da roda e da Revolução Industrial temos os fones!

É de saudar o vosso gosto pela partilha, que se destaca e tem redobrado valor numa sociedade cada vez mais egoísta e mais dada a individualismos. Um sincero obrigado pelo vosso gesto. Mas neste caso, não levem a mal, mas tem mesmo de usar os fones.

Mas esta imposição fonistica não se aplica apenas aquando da utilização de transportes públicos: estende-se a todos os espaços públicos! Sim, quando andam na rua não tem de partilhar o vosso Matias Damásio com toda a gente e, pasmem-se, na praia há quem goste de estar sossegado a desfrutar do sol e da companhia dos seus entes queridos e que não aprecie que lhe enfiem um Michel Teló pelos ouvidos adentro.

E se querem partilhar algo com a sociedade podem sempre fazer voluntariado. Há tantas instituições valorosas onde o vosso tempo poderia ser tão bem empregue…! Mas levem os fones.