Ficar doente

Ficar doente

Março 3, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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É inegável que há muita coisa que muda drasticamente quando deixamos a terna e doce infância e abraçamos a idade adulta. Deixa de ser adorável andarmos a correr pela casa em cuecas, por exemplo. Outra mudança é, indubitavelmente, o ato de ficar doente.

Em jeito de preâmbulo, tenho de esclarecer que o “ficar doente” que vai ser abordado neste artigo são as singelas gripes, constipações e brutais desarranjos intestinais. Doenças mais “sérias” são chatas em qualquer altura.

A grande diferença é que enquanto as maleitas mais corriqueiras na idade adulta são uma chatice tremenda e que nos vem atormentar a vida, quando éramos pequenos, muitas vezes eram recebidas como um balsamo de oxigénio, que nos era presenteada sob a forma de uns dias de gazeta e prendas.

No entanto, é importante referir que este princípio aplica-se apenas às doenças que apareciam no Inverno. No verão estávamos de férias grandes, pelo que ficar doente era uma tragédia de contornos épicos, que nos fazia questionar que mal tínhamos feito a Deus Nosso Senhor, para receber tamanha calamidade.

Em criança

Não é que, em petizes, apreciássemos ter febre, dores ou litros de ranho e outras mucosidades a jorrarem das nossas fossas nasais: era a panóplia de infindáveis regalias que vinham a reboque que nos maravilhavam.

Estar doente garantia, desde logo, uma das melhores coisas que uma criança pode ter: permissão para faltar à escola. Havia lá coisa melhor na vida! Afinal de contas, podíamos ficar refastelados debaixo das cobertas ou no sofá, apreciando o aconchego do lar enquanto víamos toneladas de desenhos animados. Ao mesmo tempo, os mártires dos nossos colegas estavam numa sala fria a estudarem os rios portugueses e respetivos afluentes. Os mais maldosos soltavam uma gargalhada cavernosa ao lembrarem-se dos seus amigos que permaneceram estoicamente em combate.

Eu sei que dava.

Depois temos o mimo. Quando um puto está doente, a sua família vira-se do avesso para lhe dar tudo aquilo que ele quer. Seja sob a forma de paparoca, seja sob a forma de um novo jogo, brinquedo ou uma oferta generosa de inúmeras carteirinhas de cromos. Para mim, ter febre significava que, muito em breve, iria estar a colar cromos na caderneta da Panini do momento. Na maior parte das vezes, quando estava de “molho” ia sempre para a casa da minha santa avó, que me tratava como se eu fosse um sultão. Era de tal forma bem tratado que até ficava triste quando me começava a sentir melhor.

Em adulto

Quando crescemos há algo penoso que se alapa às nossas costas e não sai mais: responsabilidades. Numa sociedade frenética e que nem nos dá tempo para respirar e apreciar o dom da vida, muito pobre diabo não se pode sequer dar ao luxo de ficar doente, pois mesmo que a maleita o obrigue a ficar por casa, sabe que o trabalho no escritório se está a acumular e que, quando regressar, só vai ter vontade de se colocar em posição fetal e chorar convulsivamente. Isto já para não falar no quão compreensivos são algumas entidades patronais para com as faltas por doença dos seus colaboradores.

E enquanto uma criança doente apenas volta à escola quando já não restar qualquer resquício de tosse no seu corpinho, um adulto regressa à sua atividade laboral mal consiga voltar a ser um bípede. Se consegue andar está pronto para produzir (e infestar o escritório com os restos do seu vírus).

Quanto ao mimo, este ainda existe. Simplesmente já ninguém nos trata como um sultão mimado a quem é dado tudo o que pede. O que é uma pena. Com sorte conseguimos esquivarmo-nos a algumas tarefas, mas temos de ser nós a decorar a que horas é que vamos tomar a miríade de medicamentos que o médico no quer enfiar pelo gasganete abaixo. Medicamentos esses, cujo valor saiu do nosso bolso, pelo que ficar doente em adulto ganha um contexto de despesa que, em criança, puro e simplesmente não associamos.

Os remédios

Outra diferença está nos remédios, pois todos concordamos que os xaropes infantis tinham um sabor bem gostoso! Dava gosto bebericar uma colher de Benuron ou emborcar um trago de Brufen. A maioria dos remédios da gente crescida ou sabem muito mal ou são comprimidos tão grandes que acredito que haja alguém que já pensou que se tratavam de supositórios, inserindo-os no orifício errado. E estou aqui a falar dos que acham genuinamente e ingenuamente que os comprimidos são supositórios. Não me refiro aos que sabem perfeitamente por que orifício se devem colocar os fármacos e, mesmo assim, para efeitos recreativos resolvem colocá-los no cú.

Enfim, recentemente tive uma faringite que me incapacitou uns dias valentes, trazendo febres de 39º, noites sem dormir e a sensação de ter uma bola de fogo permanentemente alojada na minha garganta. Foi muito giro. Confesso que senti falta das carteirinhas de cromos.

Tive saudades dos meus tempos de sultão.